Reportagem
  
edição 85 - Junho 2009
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Escassez de alimentos e ameaças à civilização
O maior risco à estabilidade global é o potencial da crise alimentar de provocar a derrocada de governos em países pobres. Essa crise está sendo gerada pelo constante agravamento da degradação ambiental
por Lester R. Brown
[continuação]

Estados falimentares são alvo da preocupação internacional, pois servem de fonte para o terrorismo, drogas, armas e refugiados, ameaçando a estabilidade política em todos os lugares. A Somália, primeira da lista dos Estados falimentares em 2008, tornou-se uma base para a pirataria. O Iraque, em quinto lugar, é campo fértil para treinamento de terroristas. O Afeganistão, em sétimo, é o principal fornecedor mundial de heroína. Em seguida ao enorme genocídio de 1994, refugiados de Ruanda, milhares de soldados armados, ajudaram a desestabilizar a vizinha República Democrática do Congo (número seis da lista).

Nossa civilização global depende de uma rede funcional de nações saudáveis politicamente para controlar a disseminação de doenças infecciosas, gerenciar o sistema monetário internacional, dominar o terrorismo internacional e alcançar resultados em outros objetivos comuns. Se o sistema para o controle de doenças infecciosas – como pólio, Sars ou gripe aviária – entrar em colapso, a humanidade estará em apuros. Uma vez que Estados tenham falido, ninguém assumirá a responsabilidade por seus débitos em relação a credores estrangeiros. Se um número grande de Estados se desintegrar, sua queda irá ameaçar a estabilidade da civilização global em si.

Uma Nova Forma de Escassez
O surto de alta nos preços internacionais dos grãos em 2007/08 – e a ameaça que ele representou para a segurança alimentar – tem uma característica diferente e mais problemática do que os aumentos do passado. Durante a segunda metade do século 20, os preços dos grãos subiram dramaticamente várias vezes. Em 1972, por exemplo, reconhecendo a pobreza de sua safra anterior, os soviéticos discretamente provocaram a alta dos preços do arroz e milho, comprando esses produtos para manipular o mercado. Mas esse e outros choques de preços foram circunstanciais – seca na União Soviética, deficiência nas monções na Índia e um calor que fez encolher a safra no Cinturão do Milho, nos Estados Unidos. Além disso, os aumentos tiveram curta duração: os preços retornaram ao normal nas safras seguintes.

Em contrapartida, a recente onda altista nos preços internacionais de grãos é tipicamente dirigida por tendência, o que torna improvável sua reversão sem a mudança nas tendências. Pelo lado da demanda essas tendências incluem o corrente acréscimo de mais de 70 milhões de pessoas anualmente; um número crescente de pessoas querendo subir na cadeia alimentar para consumir produtos de origem animal que utilizam muito grãos de produção intensiva (ver Efeito estufa dos hambúrgueres, de Nathan Fiala; SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL, março de 2009); e o enorme desvio de grãos voltados às destilarias que produzem o combustível etanol.
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Lester R. Brown Na definição do Washington Post, é “um dos mais influentes pensadores do mundo”. O Telegraph, de Calcutá, vem chamando Brown de “guru do movimento ambientalista”. Brown é fundador do Worldwatch Institute (1974) e do the Earth Policy Institute (2001), que é dirigido por ele hoje. É autor ou coautor de 50 livros; seu mais recente trabalho é Plano B 3.0: Mobilizando para salvar a civilização. Já recebeu muitos prêmios e homenagens, incluindo 24 títulos honorários e um MacArthur Fellowship.
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