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Reportagem |
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| edição 85 - Junho 2009 |
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| Escassez de alimentos e ameaças à civilização |
| O maior risco à estabilidade global é o potencial da crise alimentar de provocar a derrocada de governos em países pobres. Essa crise está sendo gerada pelo constante agravamento da degradação ambiental |
| por Lester R. Brown |
[continuação]
A demanda extra de grãos associada à crescente afluência varia amplamente entre países. Pessoas em países de baixa renda, onde os grãos suprem 60% das calorias, como Índia, consomem diretamente cerca de 0,5 kg de grãos. Em países afluentes, como Estados Unidos e Canadá, o consumo de grãos por pessoa é de cerca de 2,0 kg, embora talvez 90% desse consumo se dê por via indireta, na forma de carne, leite e ovos de animais alimentados com grãos.
O potencial de consumo mais adiante é enorme, na medida em que cresce a renda entre consumidores pobres. Mas esse potencial fica ofuscado atrás da demanda insaciável por combustíveis automotivos baseados em biomassa. Um quarto da colheita de grãos deste ano nos Estados Unidos – suficiente para alimentar 125 milhões de americanos ou meio bilhão de indianos nos atuais níveis de consumo – será desviado para o abastecimento de automóveis. Apesar disso, mesmo se toda a safra americana de grãos fosse direcionada para a produção de etanol, ela atenderia no máximo a 18% das necessidades de combustível americanas. A quantidade de grãos necessários para encher o tanque de um veículo com tanque de 100 litros com etanol pode alimentar uma pessoa durante um ano.
A recente fusão das economias dos alimentos e combustíveis implica que se o valor do grão destinado a alimentos é menor que o voltado para produção de combustível o mercado irá impulsionar o grão para a economia da energia. Essa dupla demanda está levando a uma competição épica entre automóveis e pessoas pelo abastecimento de grãos e a um problema político e moral de crucial importância e dimensões sem precedentes. Num esforço enorme para reduzir sua dependência de petróleo importado e substituí-lo por combustíveis à base de grãos, os Estados Unidos estão gerando uma insegurança alimentar global em escala nunca antes vista.
Escassez de Água e Escassez de Alimentos Que dizer sobre suprimentos? As três tendências ambientais que mencionei anteriormente – escassez de água fresca, perda de solo arável e aumento da temperatura (além de outros efeitos) decorrente do aquecimento global – estão tornando cada vez mais difícil expandir o fornecimento mundial de grãos com a velocidade suficiente para torná-lo compatível com a demanda. De todas essas tendências, entretanto, a mais imediata é a propagação da escassez de água. O maior desafio aqui é a irrigação, que consome 70% do total de água fresca no mundo. Milhões de poços voltados à irrigação em muitos países estão agora bombeando água de fontes subterrâneas com velocidade maior do que a chuva é capaz de reabastecê-los. O resultado é a queda do nível do lençol freático em países habitados por metade da população mundial, incluindo os três maiores produtores de grãos – China, Índia e Estados Unidos. |
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| Lester R. Brown Na definição do Washington Post, é “um dos mais influentes pensadores do mundo”. O Telegraph, de Calcutá, vem chamando Brown de “guru do movimento ambientalista”. Brown é fundador do Worldwatch Institute (1974) e do the Earth Policy Institute (2001), que é dirigido por ele hoje. É autor ou coautor de 50 livros; seu mais recente trabalho é Plano B 3.0: Mobilizando para salvar a civilização. Já recebeu muitos prêmios e homenagens, incluindo 24 títulos honorários e um MacArthur Fellowship. |
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