Reportagem
  
edição 85 - Junho 2009
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Escassez de alimentos e ameaças à civilização
O maior risco à estabilidade global é o potencial da crise alimentar de provocar a derrocada de governos em países pobres. Essa crise está sendo gerada pelo constante agravamento da degradação ambiental
por Lester R. Brown
[continuação]

No passado, mais conhecido como o período em que as inovações no uso de fertilizantes, irrigação e variedades grandemente produtivas de trigo e arroz criaram a “revolução verde” dos anos 1960 e 1970, a resposta à crescente demanda por alimento foi a bem-sucedida aplicação da agricultura científica: o conserto tecnológico. Nesta época, infelizmente, muitos dos mais produtivos avanços na tecnologia agrícola já foram colocados em prática, assim como o crescimento de longo prazo na produtividade da terra está sendo reduzido. Entre 1950 e 1990, os fazendeiros elevaram a produtividade da cultura de grãos no mundo todo por acre em mais de 2% ao ano, excedendo o crescimento populacional. Mas, a partir daí, o crescimento anual da produtividade vem sendo reduzido a pouco mais de 1%. Em alguns países, a produtividade parece próxima de seus limites práticos, incluindo os níveis de produtividade da cultura do arroz no Japão e China.

Alguns analistas indicam que colheitas de plantas geneticamente modificadas criam linhagens fora de nossas previsões. Infelizmente, entretanto, nenhuma safra oriunda de plantas geneticamente modificadas tem elevado significativamente os níveis de produtividade, comparando-se com a duplicação ou triplicação ocorridas durante a revolução verde com o trigo e o arroz. E também não parece que isso volte a ocorrer, porque as técnicas convencionais para sementes de plantas já atingiram a maior parte do potencial para fazer crescer a produtividade das lavouras.

Manobrando pelo Alimento
Na medida em que a segurança alimentar vem à tona, uma perigosa política de redução da oferta está sendo colocada em jogo: países agindo individualmente, segundo seus próprios interesses definidos de forma estreita, estão colocando muitos outros em apuros. Essa tendência começou em 2007, quando relevantes países exportadores de trigo, como Rússia e Argentina, limitaram ou baniram suas exportações na esperança de aumentar a disponibilidade local do fornecimento de alimentos e, conseqüentemente, reduzir os preços dos produtos alimentares internamente. O Vietnã, segundo maior exportador mundial de arroz, depois da Tailândia, baniu suas exportações durante vários meses pela mesma razão. Esses movimentos podem garantir aqueles que vivem nos países exportadores, mas acabam criando pânico nos países importadores, que precisam contar com aquilo que sobrou do grão mundial exportável.

Em resposta a essas restrições, importadores de grãos estão tentando se agarrar a acordos comerciais bilaterais de longo prazo que podem, eventualmente, amarrar futuros fornecimentos de grãos. Incapazes de contar com arroz do mercado mundial, as Filipinas recentemente negociaram um acordo trienal com o Vietnã para garantir a remessa de 1,5 milhão de toneladas de arroz anualmente. A ansiedade na importação de alimentos está até mesmo gerando esforços inteiramente novos por parte dos países importadores de comida, no que tange ao aluguel de fazendas em outros países.
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Lester R. Brown Na definição do Washington Post, é “um dos mais influentes pensadores do mundo”. O Telegraph, de Calcutá, vem chamando Brown de “guru do movimento ambientalista”. Brown é fundador do Worldwatch Institute (1974) e do the Earth Policy Institute (2001), que é dirigido por ele hoje. É autor ou coautor de 50 livros; seu mais recente trabalho é Plano B 3.0: Mobilizando para salvar a civilização. Já recebeu muitos prêmios e homenagens, incluindo 24 títulos honorários e um MacArthur Fellowship.
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