Reportagem
  
edição 85 - Junho 2009
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Escassez de alimentos e ameaças à civilização
O maior risco à estabilidade global é o potencial da crise alimentar de provocar a derrocada de governos em países pobres. Essa crise está sendo gerada pelo constante agravamento da degradação ambiental
por Lester R. Brown
[continuação]

Apesar dessas medidas paliativas, preços de alimentos em crescente elevação e propagação da fome em muitos outros países estão começando a romper a ordem social. Em várias províncias da Tailândia, as depredações dos “saqueadores de arroz” têm forçado a população das vilas a guardar com armas carregadas seu alimento durante a noite. No Paquistão, um soldado armado escolta cada caminhão de grãos. Durante a primeira metade de 2008, 83 caminhões transportando grãos, no Sudão, foram seqüestrados antes de atingir os campos de refugiados de Darfur.

Nenhum país está imune aos efeitos do estreitamento no fornecimento de suprimentos alimentares, nem mesmo os Estados Unidos, o maior celeiro mundial. Se a China voltar-se ao mercado mundial em busca de enormes quantidades de grãos, como fez recentemente em relação à soja, terá de comprar dos Estados Unidos. Para os consumidores americanos isso significará competir pela colheita de grãos americana contra 1,3 bilhão de consumidores chineses com rendimentos em rápido crescimento – o cenário de um pesadelo. Em tal circunstância, poderá ser tentador para os Estados Unidos restringir as exportações, como foi feito, por exemplo, com grãos e soja durante os anos 70, quando os preços domésticos ascenderam. Mas essa não é uma opção com a China. Investidores chineses agora têm cerca de um trilhão de dólares e ocupam uma posição de destaque como compradores de títulos para financiar o déficit fiscal americano. Gostando ou não, os consumidores americanos irão compartilhar seus grãos com os consumidores chineses, não importa o quanto aumentem os preços dos alimentos.

Plano B: Nossa Única Opção
Como a atual escassez de alimentos é movida por uma tendência, as razões ambientais por trás dela devem ser revertidas. Para fazer isso são exigidas medidas extraordinárias na demanda, redirecionamento dos negócios costumeiros – aquilo que nós do Earth Policy Institute chamamos de Plano A – para um salvador da civilização Plano B. Similar em escala e urgência à mobilização americana para a Segunda Guerra Mundial, o Plano B exibe quatro componentes: um enorme esforço para cortar emissões de carbono em 80% até 2020 a partir dos níveis de 2006; a estabilização da população mundial em oito bilhões por volta de 2040; a erradicação da pobreza; e a restauração das florestas, solos e aqüíferos.

As emissões de dióxido de carbono líquido podem ser cortadas sistematicamente ao se aumentar a eficiência energética e investir significativamente em fontes de energia renováveis. Também devemos banir o desmatamento mundo afora, assim como o fizeram muitos países, e plantar bilhões de árvores para seqüestrar carbono. A transição dos combustíveis fósseis para formas de energia renováveis pode ser conduzida ao impor-se uma taxa sobre o carbono, enquanto se oferece certificados com uma redução do imposto de renda.
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Lester R. Brown Na definição do Washington Post, é “um dos mais influentes pensadores do mundo”. O Telegraph, de Calcutá, vem chamando Brown de “guru do movimento ambientalista”. Brown é fundador do Worldwatch Institute (1974) e do the Earth Policy Institute (2001), que é dirigido por ele hoje. É autor ou coautor de 50 livros; seu mais recente trabalho é Plano B 3.0: Mobilizando para salvar a civilização. Já recebeu muitos prêmios e homenagens, incluindo 24 títulos honorários e um MacArthur Fellowship.
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