Reportagem
  
edição 85 - Junho 2009
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Estratégias discursivas
A repetição da idéia de que a saúde está em crise no Brasil não corresponde à realidade e funciona como camuflagem para um modelo de viés mercadológico. Investimentos nacionais, comparativamente, chegam a superar montante de países desenvolvidos
por Eduardo Bueno Fonseca Perillo e Maria Cristina Amorim
©ELZA FIÚZA/ABR
INVESTIMENTOS EM SAÚDE, são crescentes, e taxas de lucro também. No Brasil, investimentos totais, equivalentes à renda nacional, são comparáveis e, em alguns casos, até superiores a de muitos países desenvolvidos.
[continuação]

É claro que a renda nacional varia de país a país. Assim, 1% da renda nacional dos Estados Unidos é muito maior que 1% da renda nacional da Nicarágua ou Costa Rica, por exemplo. Mas a comparação é válida, pois mostra quanto do orçamento nacional é comprometido com saúde. Essa comparação é semelhante ao que ocorre com uma família, quando reparte o orçamento doméstico em alimentação, educação, plano de saúde e transporte.

No caso das comparações entre países, as despesas refletem principalmente o quanto é gasto com ações de assistência médico-hospitalar e farmacêutica – os gastos com saneamento e educação, essenciais para garantir qualidade de vida e saúde, não são computados. Despesas com ações de prevenção e promoção de saúde entram no cálculo, mas são muito menores que as com assistência médico-hospitalar e com medicamentos.

Os gastos com saúde têm sido crescentes, tanto nos países com economia já estabilizada quanto naqueles em desenvolvimento, variando entre um e três pontos percentuais na última década. No Brasil, as inversões governamentais em saúde também têm crescido para atender à população dependente do Sistema Único de Saúde (SUS) – embora, como mostrou recente estudo do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), os gastos privados tenham crescido ainda mais.

Discurso Repetitivo
Mesmo com gastos crescentes, não desapareceu o discurso de crise. Afinal, do que tratamos quando nos referimos à “crise”? Só é possível compreender as dificuldades do modelo brasileiro de atenção à saúde partindo de um princípio básico: o setor é muitíssimo heterogêneo, e para analisá-lo é preciso compreender o funcionamento e os interesses de cada elo de sua cadeia produtiva.
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Eduardo Bueno Fonseca Perillo e Maria Cristina Amorim Eduardo Bueno Fonseca Perillo é graduado em medicina e doutor em história da economia pela USP. Há mais de uma década trabalha com educação continuada para executivos em estudos econômicos e gestão de saúde pública e privada no Brasil. Maria Cristina Amorim, economista, é professora titular e coordenadora do Núcleo de Pesquisas em Regulação Econômica e Estratégias Empresariais da PUC/SP.
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