Reportagem
  
edição 85 - Junho 2009
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Estratégias discursivas
A repetição da idéia de que a saúde está em crise no Brasil não corresponde à realidade e funciona como camuflagem para um modelo de viés mercadológico. Investimentos nacionais, comparativamente, chegam a superar montante de países desenvolvidos
por Eduardo Bueno Fonseca Perillo e Maria Cristina Amorim
©ELZA FIÚZA/ABR
O MODELO BRASILEIRO de atenção à saúde tem raízes na época colonial, com transformações que chegaram com a corte portuguesa, no início do século 19, e impactos absorvidos de sucessivas crises políticas. Ausência de democracia estrutural se refl ete nitidamente na saúde pública./ NO ATUAL COMPLEXO médico-hospitalar, com conexões nos anos 40, o Estado é tanto controlador como controlado por grupos privados, além de produtor e comprador de serviços, entre outros papéis. A tendência é de concentração de poder na industria de materiais, equipamentos e medicamentos.
[continuação]

No campo das diferenças, separemos inicialmente a saúde privada ou complementar do SUS. A primeira depende dos recursos privados dos consumidores de planos de saúde e dos recursos governamentais diretos (compra de serviços e medicamentos) e indiretos (incentivos fiscais e tributários). A segunda depende apenas dos recursos estatais. Se a procura por planos de saúde varia em função da renda disponível para o consumo, a procura pelo SUS é infinitamente crescente. Quanto mais acessível e melhor for o serviço público gratuito, mais pessoas o procurarão – afinal, se for bom e barato, para que pagar o plano de saúde?

No segmento privado, as indústrias de materiais, equipamentos e medicamentos tiveram vendas e lucros crescentes nos últimos três anos. Por exemplo, os hospitais vinculados à Associação Nacional de Hospitais Privados (ANAHP) tiveram, em 2007, lucro 12% maior que o obtido em 2006, enquanto as operadoras de planos de saúde obtiveram, em 2008, crescimento de 6% comparado a 2007. Para comparar, a taxa média de crescimento da economia brasileira entre 2006-2008 foi de magros 2,5% ao ano. Assim, vários outros indicadores de desempenho do setor privado nos desautorizam a caracterizá-lo como “em crise”.

Talvez o leitor esteja se lembrando das muitíssimas dificuldades pelas quais passou quando precisou usar seu plano de saúde e, a partir de sua experiência pessoal, ainda esteja convencido da existência da “crise” na saúde.

É verdade que as operadoras de planos de saúde encontram-se há anos no topo das listas de reclamações dos consumidores, mas as companhias telefônicas e os bancos também estão incluídos nessa lista e, no entanto, o senso comum não faz juízos sobre a crise do sistema financeiro e telefônico. O sistema financeiro tem uma “crise” desde setembro de 2008, mas essa é uma história inteiramente diferente. As agruras dos usuários de planos de saúde encontram-se no campo das relações de consumo, do direito do consumidor, da capacidade de o Estado vigiar e punir empresas, e são, literalmente, um problema de outra natureza, não exclusivo dos serviços de saúde.
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Eduardo Bueno Fonseca Perillo e Maria Cristina Amorim Eduardo Bueno Fonseca Perillo é graduado em medicina e doutor em história da economia pela USP. Há mais de uma década trabalha com educação continuada para executivos em estudos econômicos e gestão de saúde pública e privada no Brasil. Maria Cristina Amorim, economista, é professora titular e coordenadora do Núcleo de Pesquisas em Regulação Econômica e Estratégias Empresariais da PUC/SP.
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