Reportagem
  
edição 85 - Junho 2009
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Estratégias discursivas
A repetição da idéia de que a saúde está em crise no Brasil não corresponde à realidade e funciona como camuflagem para um modelo de viés mercadológico. Investimentos nacionais, comparativamente, chegam a superar montante de países desenvolvidos
por Eduardo Bueno Fonseca Perillo e Maria Cristina Amorim
© FÁBIO RODRIGUES POZZEBOM/ABR
DESCENTRALIZAR IMPLICA em distribuir tanto recursos financeiros como poder de decisão, por si só uma tarefa desafiadora, sempre sob crítica de interesses opostos.
[continuação]

No mundo do SUS, a realidade é outra. A queixa por mais recursos financeiros para saúde é unanimidade. Afinal, todas as organizações, estatais, públicas e privadas, seriam beneficiadas se o dinheiro repassado pelo governo fosse maior. Essa seria a solução, caso o Estado, como qualquer outra unidade orçamentária, não tivesse recursos finitos e vários outros setores tão importantes quanto a saúde. Mais dinheiro para a saúde? E por que não para a educação, saneamento, moradia, segurança...? Mais para a saúde, menos para quem?

Saúde e Democracia
Mas para absolutamente todos os agentes envolvidos na oferta de bens e serviços de atenção à saúde, os assuntos de eficácia e eficiência econômicas são muito mais espinhosos. Empreender ações necessárias para atingir os objetivos determinados, e fazê-las bem feitas e com economia de recursos, está no campo de aplicação dos instrumentos de gestão e controle das instituições e processos. No entanto, os conhecimentos econômico e administrativo não podem tudo quando eficácia e eficiência estão em jogo; aspectos culturais, legais e sobretudo relativos à disputa por poder e recursos econômicos em uma sociedade democrática pesam muito na escolha de prioridades e na forma de executá-las. É preciso levar em conta a existência de um permanente “cabode-guerra” entre as diversas instâncias envolvidas, e como no jogo real, ganha quem joga melhor.

Esse conjunto de aspectos econômicos, culturais, legais e políticos produz um problema sério: o acesso da população de baixa renda aos serviços de atenção à saúde. Discutir esse ponto é diferente de sair por aí em suposta ou verdadeira indignação contra a “crise na saúde”. Se a atividade tem sido crescentemente lucrativa para amplos segmentos, como comentamos antes, as dificuldades de uns constituem o modelo de operação de outros.

E discutir o modelo ou estrutura de atenção à saúde é, quase sempre, uma armadilha. Entre economistas, por exemplo, quando não se considera possível ou desejável levantar um determinado problema, costuma-se afirmar: “é estrutural”. Para bom entendedor significa que vai permanecer como está.
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Eduardo Bueno Fonseca Perillo e Maria Cristina Amorim Eduardo Bueno Fonseca Perillo é graduado em medicina e doutor em história da economia pela USP. Há mais de uma década trabalha com educação continuada para executivos em estudos econômicos e gestão de saúde pública e privada no Brasil. Maria Cristina Amorim, economista, é professora titular e coordenadora do Núcleo de Pesquisas em Regulação Econômica e Estratégias Empresariais da PUC/SP.
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