Reportagem
  
edição 85 - Junho 2009
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Estratégias discursivas
A repetição da idéia de que a saúde está em crise no Brasil não corresponde à realidade e funciona como camuflagem para um modelo de viés mercadológico. Investimentos nacionais, comparativamente, chegam a superar montante de países desenvolvidos
por Eduardo Bueno Fonseca Perillo e Maria Cristina Amorim
[continuação]

A constituição do modelo brasileiro de atenção à saúde vem ocorrendo desde os tempos coloniais, passando por transformações com a chegada da família real, em 1808, depois com a declaração de Independência, e os sucessivos golpes da República, do Governo Provisório, do Estado Novo e da ditadura militar. O país até hoje paga a conta da falta de estabilidade política e da rasa experiência democrática, e os reflexos no sistema de saúde são inevitáveis.

Não consideramos razoável, nos limites das sociedades democráticas, esperar ou promover mudanças drásticas de estruturas – nunca se viu lugar onde essa estratégia tenha dado certo. Recomendamos que o enfrentamento do grave problema da dificuldade de acesso ocorra de forma contínua e consistente, o que já seria muito em termos de concretizar a cidadania. Pensar soluções para problemas com um longo histórico nos remete justamente à história da implantação do complexo médico-hospitalar no Brasil. Vamos a ela.

Tanto em termos absolutos quanto relativos o Brasil gasta atualmente com assistência à saúde mais que países de renda média comparáveis. No entanto, consegue apenas resultados relativamente menores quanto ao montante despendido. Esses dados, apresentados no relatório do Banco Mundial “Desempenho Hospitalar no Brasil”, são acompanhados de outros: mesmo com 60% dos hospitais brasileiros oferecendo menos de 50 leitos, ainda assim respondem pelo emprego de 56% da mão-de-obra utilizada na saúde, representando 67% das despesas totais e 70% dos gastos públicos com saúde.

O estudo do IBGE “Economia da saúde – Uma perspectiva macroeconômica 2000-2005”, nos fornece mais dados interessantes. Mais de 8% do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro destinam-se aos gastos com saúde e 60% dessa despesa cabe às famílias; em 2005, isso correspondia a 8,2% de seus gastos totais. Nas economias desenvolvidas, a maior parte dos gastos com saúde, entre 70-85%, cabem ao governo; no Brasil, esse valor é menor que 40%, semelhante ao verificado nos Estados Unidos (45%). Mas lá, cerca de 50 milhões de habitantes não dispõem de cobertura de plano de saúde, e também não existe um sistema nacional de saúde.
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Eduardo Bueno Fonseca Perillo e Maria Cristina Amorim Eduardo Bueno Fonseca Perillo é graduado em medicina e doutor em história da economia pela USP. Há mais de uma década trabalha com educação continuada para executivos em estudos econômicos e gestão de saúde pública e privada no Brasil. Maria Cristina Amorim, economista, é professora titular e coordenadora do Núcleo de Pesquisas em Regulação Econômica e Estratégias Empresariais da PUC/SP.
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