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Reportagem |
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| edição 85 - Junho 2009 |
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| Estratégias discursivas |
| A repetição da idéia de que a saúde está em crise no Brasil não corresponde à realidade e funciona como camuflagem para um modelo de viés mercadológico. Investimentos nacionais, comparativamente, chegam a superar montante de países desenvolvidos |
| por Eduardo Bueno Fonseca Perillo e Maria Cristina Amorim |
[continuação]
Investimentos Superiores Comparando o Brasil aos demais países do Bric (Brasil, Rússia, Índia e China), os gastos brasileiros superaram os da Índia (19%) e China (39%), mas foram menores que os da Rússia (62%). Mesmo entre as famílias, o gasto com saúde não é uniforme, variando conforme a renda; enquanto o gasto médio mensal com saúde dos 40% mais pobres da população é R$ 28,00, a dos 10% mais ricos é R$ 376,00; mais de 13 vezes superior, concentrada nos planos de saúde, medicamentos e atenção odontológica.
Mais alguns dados interessantes: nos mais de sete mil hospitais brasileiros verifica-se tanto densidade de leitos como utilização de cuidados hospitalares em níveis superiores aos encontrados em economias de renda média semelhantes, mesmo tendo o Brasil uma população mais jovem que a dos demais países do Bric, com perfil epidemiológico menos dependente de hospitalização. A maior parte dos gastos estatais com saúde acaba destinada aos hospitais, e entender por que isso acontece é muito importante para o entendimento das dificuldades do sistema de atenção à saúde.
A história pode nos fornecer caminhos para a resposta. Entre 1942 e 1966, no contexto das modificações econômicas e políticas ocorridas no Brasil, ocorreu a implantação e consolidação do complexo médico-hospitalar de assistência à saúde, precursor do atual complexo médico-industrial. Acompanhando o desenrolar dos fatos históricos dessa fase, vamos compreender que parte significativa dos dilemas da saúde enfrentados atualmente já estava presente ao menos desde os anos 40, pressionando os tomadores de decisão e trazendo conseqüências para os cidadãos.
Complexo médico-hospitalar é o conjunto de estruturas de atenção à saúde orientado pelas demandas das organizações hospitalares, isto é, hospitais, clínicas e ambulatórios, laboratórios, entre outros, além das entidades médicas organizadas. Nesse conglomerado, o Estado é, simultaneamente, controlado por e controlador dos grupos privados, e também produtor e comprador de serviços, entre outros papéis. |
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| Eduardo Bueno Fonseca Perillo e Maria Cristina Amorim Eduardo Bueno Fonseca Perillo é graduado em medicina e doutor em história da economia pela USP. Há mais de uma década trabalha com educação continuada para executivos em estudos econômicos e gestão de saúde pública e privada no Brasil. Maria Cristina Amorim, economista, é professora titular e coordenadora do Núcleo de Pesquisas em Regulação Econômica e Estratégias Empresariais da PUC/SP. |
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