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Reportagem |
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| edição 85 - Junho 2009 |
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| Estratégias discursivas |
| A repetição da idéia de que a saúde está em crise no Brasil não corresponde à realidade e funciona como camuflagem para um modelo de viés mercadológico. Investimentos nacionais, comparativamente, chegam a superar montante de países desenvolvidos |
| por Eduardo Bueno Fonseca Perillo e Maria Cristina Amorim |
[continuação]
Mesmo permanecendo atuante até hoje, o modelo progressivamente cede espaço e poder para seu sucessor, o complexo médico-industrial. Este modelo desloca os hospitais para posições de menor poder, conferindo hegemonia à indústria de materiais, equipamentos e medicamentos. Essa passagem de um complexo para outro é uma das causas, por exemplo, da perda de renda média da maioria dos médicos. O dinheiro antes destinado às consultas remunera hoje os produtores de exames, equipamentos e medicamentos. É ainda uma das causas dos conflitos e dificuldades atuais do sistema de saúde brasileiro, quando se tem em vista melhorar as condições de vida do cidadão e seu acesso aos serviços.
Com a Segunda Guerra Mundial já em andamento, e o alinhamento dos interesses políticos e econômicos do Brasil aos dos Estados Unidos, o modelo de saúde médico-hospitalar ganha impulso. Apresentando-se como “moderno” e “científico”, é progressivamente adotado em todo o país, tornando-se hegemônico. Baseado em “experimentação científica” e tecnologia, coloca o hospital no centro de atenção e integração de técnicas e equipamentos, tornados crescentemente indispensáveis para a atenção à saúde. A Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo foi instrumental na implantação do modelo: auxiliada pelos recursos da Fundação Rockefeller, americana, deu legitimidade e espaço para o exercício da medicina centralizada no hospital.
Conceber Alternativas Quando se discutem outros meios de acesso à saúde, prevenção e promoção, por exemplo, o peso de décadas de cultura médica que entende como recurso fundamental o consumo de serviços centralizados no hospital, não facilita a tarefa de imaginar outros modelos. Além do que, reduzir a atuação da medicina estritamente curativa é redirecionar dinheiro e poder para outros atores.
Maior acesso à saúde em 2009, o que é? Mais dinheiro para os hospitais e centros de diagnósticos ou para o saneamento, educação e habitação? |
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| Eduardo Bueno Fonseca Perillo e Maria Cristina Amorim Eduardo Bueno Fonseca Perillo é graduado em medicina e doutor em história da economia pela USP. Há mais de uma década trabalha com educação continuada para executivos em estudos econômicos e gestão de saúde pública e privada no Brasil. Maria Cristina Amorim, economista, é professora titular e coordenadora do Núcleo de Pesquisas em Regulação Econômica e Estratégias Empresariais da PUC/SP. |
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