Reportagem
  
edição 83 - Abril 2009
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Ferreiros da Mata Atlântica
Observações em campo sugerem convergência evolutiva entre o canto da perereca-de-marsúpio e o da araponga
por André Pinassi Antunes e Célio F. B. Haddad
© EMERSON PANIS KASEKER/ARQUIVO DOS AUTORES
[continuação]

A araponga (Procnias nudicollis) pertence ao grupo dos cotingídeos, aves vistosas, de porte médio e das mais variadas cores. Entre elas, a araponga é famosa principalmente pelo seu canto característico, que faz lembrar o golpe de um martelo sobre uma bigorna. Intensa, essa sonoridade é uma das mais estridentes de todas as aves do continente sul-americano. Por isso, em algumas regiões é chamada de “ferreiro”. Ameaçada de extinção em alguns locais, a araponga foi por muito tempo perseguida e capturada por criadores para confinamento em gaiolas. Atualmente, devido ao pouco que restou da Mata Atlântica, cerca de 7% de sua cobertura original, essa ave ficou restrita a trechos mais bem preservados. Em áreas mais alteradas, lamentavelmente, desapareceu.

Normalmente, os cotingídeos não podem viver em pequenos fragmentos florestais. A razão disso é que fazem grandes deslocamentos ao longo do ano, tanto para a reprodução, quando migram para os sítios de canto, quanto para se alimentarem, acompanhando a frutificação de suas árvores preferidas.

Os machos necessitam de várias companheiras durante a reprodução. Eles se reúnem numa estratégia de ajuda mútua para cantar e, assim, atrair as fêmeas. A alimentação dessas aves é composta sobretudo por frutas, o que tem interessantes implicações ambientais. As sementes são expelidas intactas pela boca ou nas fezes e, ao se depositarem no solo, germinam, contribuindo para originar novas plantas frutíferas. Essa característica dos cotingídeos faz deles criaturas de enorme importância na manutenção e regeneração da floresta.

Na Mata Atlântica também vive um anfíbio anuro, da família Amphignathodontidae, conhecida pelos zoólogos como perereca-demarsúpio (Gastrotheca microdisca). O marsúpio se deve ao fato de as fêmeas possuírem uma bolsa no dorso, onde carregam os embriões. Pouco foi publicado sobre seus hábitos mais corriqueiros, como o tipo de ambiente onde vive, os aspectos básicos da sua biologia reprodutiva, ou mesmo seu coaxo. Sua distribuição geográfica é bem mais restrita que a da araponga. Embora não se saiba exatamente a extensão de seu habitat, acredita-se que essa perereca viva nas regiões serranas florestais do sul de São Paulo, Paraná e talvez de Santa Catarina.
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André Pinassi Antunes e Célio F. B. Haddad André Pinassi Antunes cursou biologia e tem mestrado em zoologia pela Unesp, Rio Claro, SP. Atualmente vive no Amazonas, onde integra a associação sócio-ambientalista ‘Instituto Piagaçu’, que atua junto a comunidades ribeirinhas da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Piagaçu-Purus, no baixo rio Purus, Amazônia Central. Célio F. B. Haddad, biólogo, é mestre e doutor em ecologia pela Unicamp. É livre-docente pela Unesp e atualmente é Professor Titular de Vertebrados no Departamento de Zoologia da Unesp, em Rio Claro, SP.
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