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Reportagem |
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| edição 83 - Abril 2009 |
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| Ferreiros da Mata Atlântica |
| Observações em campo sugerem convergência evolutiva entre o canto da perereca-de-marsúpio e o da araponga |
| por André Pinassi Antunes e Célio F. B. Haddad |
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ARQUIVO DOS AUTORES |
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| REMANESCENTE DE MATA ATLÂNTICA, fl oresta que já ocupou quase toda a costa brasileira, agora restrita a poucos trechos preservados, onde, em São Paulo, pesquisas revelaram mimetismo envolvendo a perecade-marsúpio (em vermelho) e a araponga (em azul). |
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[continuação]
Em nossa pesquisa, após análise em laboratório, a comparação do canto foi feita observando os gráficos de freqüência pelo tempo (espectrogramas) e amplitude (intensidade do som) pelo tempo (oscilogramas). Essas análises revelaram que o formato das notas das duas espécies são muito semelhantes. Como se não bastasse, diversos parâmetros acústicos apresentam valores sobrepostos. A faixa de freqüência do canto da araponga foi de 0,95-2,14 KHz e a freqüência dominante de 1,51-1,56 KHz (média de 1,55 kHz e desvio-padrão de 0,10; 43 cantos de dois machos) e da perereca-demarsúpio foram respectivamente 0,83-2,38 KHz e 1,38-1,72 KHz (média de 1,59 e desvio-padrão de 0,91; 39 cantos de três machos). Pura coincidência? Talvez não.
É necessário ponderar que o canto da perereca-de-marsúpio não é tão intenso quanto o da araponga. Contudo, mais intenso do que a maioria dos anuros, e isso possivelmente está relacionado ao distanciamento dos machos. Mesmo que os machos dos anuros normalmente se agreguem, eles mantêm certa distância um do outro, para evitar interferência dos demais morfológiquando as fêmeas chegam. Entre os machos da perereca-de-marsúpio, o distanciamento é bem extenso, comumente mais de 50 metros, o que é maior que o observado para a grande maioria dos sapos, rãs e pererecas. Outra diferença é que a vocalização do anuro exibe de uma a quatro notas, ou possivelmente mais, emitidas sucessivamente. O intervalo entre os cantos pode durar dias ou meses, quando ocorre fora do período reprodutivo, ou apenas 20 segundos no pico da cantoria, quando também são emitidos cantos com mais notas e debaixo de forte chuva. Já a araponga exibe três cantos; um deles, o mais intenso, é executado a intervalos mais longos, com duração de pelo menos cinco segundos. Os outros dois, menos intensos, têm duração total de cerca de 30 segundos e são compostos por uma sucessão de notas iguais, freneticamente emitidas. Um deles possui intervalos de 1.200 milessegundos (ms) entre as notas, e o outro, 600 ms.
Convergência Evolutiva Sonora Que razões levaram espécies tão distintas a desenvolver vocalizações tão similares? Nossa interpretação é que a semelhança resulta de uma convergência evolutiva entre ambas. Supõe-se que esse fenômeno se manifeste quando espécies pouco relacionadas filogeneticamente, ou seja, pouco aparentadas, sofram pressões seletivas de um mesmo ambiente ou de ambientes semelhantes. Como resultado dessas pressões seletivas ao longo do tempo evolutivo, características fenotípicas (expressadas pelos genes) similares se desenvolvem nas espécies pouco aparentadas. Essas características podem ser tanto morfológicas na forma ou na coloração; fisiológicas no metabolismo; ou mesmo comportamentais, por exemplo, o canto. Para algumas espécies de animais associadas aos riachos de corredeira, o intenso ruído das águas parece ter sido a principal pressão seletiva do ambiente para a evolução de cantos similares. Esse caso foi primeiramente descrito para espécies de aves e rãs que convivem nas corredeiras do Himalaia e depois observada na da Mata Atlântica. Essas espécies apresentam como característica comum o fato de habitarem o mesmo tipo de ambiente e, assim, desenvolveram canto parecido que, de forma eficiente, se distingue do intenso ruído provocado pela água corrente e turbulenta. |
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| André Pinassi Antunes e Célio F. B. Haddad André Pinassi Antunes cursou biologia e tem mestrado em zoologia pela Unesp, Rio Claro, SP. Atualmente vive no Amazonas, onde integra a associação sócio-ambientalista ‘Instituto Piagaçu’, que atua junto a comunidades ribeirinhas da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Piagaçu-Purus, no baixo rio Purus, Amazônia Central. Célio F. B. Haddad, biólogo, é mestre e doutor em ecologia pela Unicamp. É livre-docente pela Unesp e atualmente é Professor Titular de Vertebrados no Departamento de Zoologia da Unesp, em Rio Claro, SP. |
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