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Reportagem |
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| edição 83 - Abril 2009 |
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| Ferreiros da Mata Atlântica |
| Observações em campo sugerem convergência evolutiva entre o canto da perereca-de-marsúpio e o da araponga |
| por André Pinassi Antunes e Célio F. B. Haddad |
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ARQUIVO DOS AUTORES |
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| APESAR DE O CANTO da pererecade-marsúpio (acima) não ter a mesma intensidade exibida pela araponga, supera o nível registrado entre os anuros. |
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[continuação]
No caso da araponga e da perereca-de-marsúpio é possível que o ambiente também tenha proporcionado condições para a similaridade vocal. De fato, as duas espécies usam o mesmo ambiente, pois os machos cantam nos estratos mais elevados da floresta. O canto metálico, estridente e intenso seria uma forma de maximizar sua propagação onde a vegetação densa produz forte degradação e reverberação do som.
Mas apenas o ambiente teria casualmente propiciado essa possível convergência? A pergunta procede porque, além do ambiente, essas duas espécies compartilham outras características ecológicas intrigantes.
A temporada de canto dos machos de araponga inicia-se em agosto e se estende até janeiro. A reprodução da perereca-de-marsúpio dura apenas dois ou três dias e ocorre sob as primeiras chuvas mais pesadas da estação quente e chuvosa, entre o final de agosto e setembro. Somente nesse curto período, seu canto pode ser ouvido com maior freqüência, tanto de dia, quando ocorrem as interações acústicas com a araponga, como à noite. Assim, há sobreposição total entre a estação de canto da perereca-de-marsúpio com a da aparonga, estando aquela incluída nesta. Então, outra possibilidade seria da perereca estar mimetizando o canto da araponga, pois o mimetismo também envolve a similaridade de características de uma espécie pela outra, fenômeno que, de alguma forma, pode trazer benefícios para a espécie mimética.
Mimetizar para Sobreviver As primeiras observações sobre mimetismo foram relatadas no século 19 pelo naturalista inglês Henry Walter Bates (1825-1892). Entre 1848 e 1859 ele percorreu o rio Amazonas e seus afluentes, e de volta à Europa, com milhares de insetos coletados, observou que diversas borboletas palatáveis às aves eram muito similares às helicônidas, evitadas por seus predadores devido à presença de toxinas. Bates concluiu então que as borboletas palatáveis poderiam estar imitando as formas venenosas, se beneficiando por minimizar sua predação. Posteriormente, mais de 1.500 trabalhos foram publicados sobre mimetismo, argumentando contra ou a favor do tema. |
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| André Pinassi Antunes e Célio F. B. Haddad André Pinassi Antunes cursou biologia e tem mestrado em zoologia pela Unesp, Rio Claro, SP. Atualmente vive no Amazonas, onde integra a associação sócio-ambientalista ‘Instituto Piagaçu’, que atua junto a comunidades ribeirinhas da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Piagaçu-Purus, no baixo rio Purus, Amazônia Central. Célio F. B. Haddad, biólogo, é mestre e doutor em ecologia pela Unicamp. É livre-docente pela Unesp e atualmente é Professor Titular de Vertebrados no Departamento de Zoologia da Unesp, em Rio Claro, SP. |
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