Reportagem
  
edição 83 - Abril 2009
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Ferreiros da Mata Atlântica
Observações em campo sugerem convergência evolutiva entre o canto da perereca-de-marsúpio e o da araponga
por André Pinassi Antunes e Célio F. B. Haddad
[continuação]

De forma parecida, a perereca-de-marsúpio poderia proteger-se confundindo seus eventuais predadores diurnos auditivamente orientados, pois, durante a reprodução, ela pode cantar exaustivamente durante o dia. Em função da similaridade de seu canto com o da araponga, a perereca pode não ser identificada ao vocalizar.

Diversas espécies de aves se alimentam ocasionalmente de anuros, mas não comeriam uma araponga. Além disso, os predadores dessa ave são principalmente gaviões, que pouco se alimentam de anuros. Talvez também não seja por mero acaso que a semelhança do canto da perereca-demarsúpio ocorra com o de uma ave cuja frugivoria atingiu alto grau de especialização e, que, pelo que se sabe, não inclui anuros, ainda que ocasionalmente, na dieta. Assim, é de se esperar que durante o curso evolutivo a seleção natural possa ter atuado no sentido de tornar mais aptos aqueles machos da perereca-de-marsúpio, ou seus ancestrais, que cantavam de forma mais parecida com a araponga, selecionando esses indivíduos ao longo das gerações, devido à menor predação e maior sucesso reprodutivo. Trata-se de uma hipótese, parcimoniosamente sugerida e digna de ser testada na Natureza.

Tanto quanto acreditava um dos idealizadores da teoria da seleção natural, Charles Darwin (1809-1882), a biologia é uma ciência, acima de tudo, investigativa. Apesar das magníficas paisagens e espécies que desapareceram ao longo dos séculos de destruição, a Mata Atlântica continua depositório de enigmas difíceis de desvendar. A aparente convergência evolutiva de uma ave com uma perereca, por surpreendente que seja, é uma delas. E, neste sentido, também uma metáfora da imensa e ainda pouco conhecida riqueza da floresta que já cobriu quase toda a longa costa do Brasil.

Uma aliança melódica entre a perereca-demarsúpio e a araponga, como estratégia de sobrevivência, certamente transmite também uma mensagem aos humanos, ainda que sob forma de alegoria: todo esse tesouro da vida só poderá ser compreendido e admirado se a floresta permanecer viva, protegida da motosserra, do fogo e do poder destrutivo da ambição do homem.
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André Pinassi Antunes e Célio F. B. Haddad André Pinassi Antunes cursou biologia e tem mestrado em zoologia pela Unesp, Rio Claro, SP. Atualmente vive no Amazonas, onde integra a associação sócio-ambientalista ‘Instituto Piagaçu’, que atua junto a comunidades ribeirinhas da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Piagaçu-Purus, no baixo rio Purus, Amazônia Central. Célio F. B. Haddad, biólogo, é mestre e doutor em ecologia pela Unicamp. É livre-docente pela Unesp e atualmente é Professor Titular de Vertebrados no Departamento de Zoologia da Unesp, em Rio Claro, SP.
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