Reportagem
  
edição 70 - Março 2008
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Gelo Inquieto
Água líquida abundante descoberta sob os maiores mantos de gelo do mundo pode intensificar o efeito desestabilizador do aquecimento global. Mesmo sem se dissolver, enormes volumes de gelo podem mergulhar no mar e elevar seu nível de forma catastrófica
por Robin E. Bell
[EQUILÍBRIO PERTURBADO] Nem Tão Tranqüilo, Nem Muito Gelado
KEVIN HAND
Redes de água líquida recentemente descobertas abaixo de mantos de gelo podem tornar o gelo muito mais instável que supunham os pesquisadores – e muito mais sensível aos efeitos do aquecimento global.

A água localizada sob o gelo, independentemente do processo que a levou até lá, pode lubrificar as superfícies de contato entre o leito rochoso e a parte de inferior de um manto glacial. Na Groenlândia ●a o clima mais ameno do Ártico faz o gelo derreter e a água produzida na superfície escoar pelas fendas, ou moulins, e ser levada, juntamente com o calor solar, para a base do manto. A drenagem tem sido intimamente relacionada à aceleração de massas de gelo em direção ao mar. Na Antártida, a drenagem da água da superfície não produz praticamente nenhum efeito nos movimentos do manto de gelo. A água produzida pelo derretimento do gelo das camadas inferiores, decorrente do calor geotérmico ●b, ou atrito ●c, fica aprisionada devido ao isolamento térmico produzido pela espessura do próprio gelo. A água também flui através de um vasto sistema de rios e lagos subglaciais comunicantes ●d. Na Antártida, a água da base dos mantos de gelo fica praticamente isolada dos efeitos diretos de curta duração do aquecimento global, mas sua função lubrificante torna os mantos sensíveis a qualquer perturbação que possa remover obstáculos ao seu fluxo, como um reforço das plataformas de gelo.

Socorro! Estou Perdendo as Escoras!
Gelos deslizantes, particularmente no oeste da Antártida, provavelmente se deslocariam rapidamente para o mar sob o efeito da gravidade se não fosse o efeito de escora das plataformas de gelo flutuantes que circundam o continente ●1 . O ar e a água do oceano relativamente mais quentes dos últimos anos tornaram as plataformas de gelo mais finas e, no caso da Larsen B, acabaram por rompê-la ●2 . Sem as escoras, uma corrente de gelo em movimento não será mais ser impedida de se lançar ao mar para provocar elevação de seu nível ●3
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Robin E. Bell é diretora do programa Advance do Instituto da Terra, da Columbia University. É também pesquisadora sênior do Observatório da Terra Lamont-Doherty da mesma universidade, onde dirige um amplo programa de investigação na Antártida. Bell estuda o mecanismo do colapso de plataformas de gelo, assim como os ambientes frígidos situados abaixo do manto de gelo antártico. Liderou sete expedições à Antártida. É presidente do comitê de pesquisa polar da National Academies e foi vice-presidente do grupo internacional de planejamento do Ano Polar Internacional.
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