Reportagem
  
edição 70 - Março 2008
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Gelo Inquieto
Água líquida abundante descoberta sob os maiores mantos de gelo do mundo pode intensificar o efeito desestabilizador do aquecimento global. Mesmo sem se dissolver, enormes volumes de gelo podem mergulhar no mar e elevar seu nível de forma catastrófica
por Robin E. Bell
JAMES BALOG Aurora Photos
NO MANTO DE GELO DA GROENLÂNDIA a grande quantidade de água na superfície, decorrente do derretimento de gelo pelo ar aquecido, é retratada de forma dramática nas duas fotos. No verão a superfície de gelo fica salpicada por lagos, como o que aparece acima, com centenas de metros de extensão, e fraturado com inúmeras fendas. Uma torrente de água escoa para dentro de um moulin, orifício profundo no gelo (abaixo), e escava seu caminho até o fundo do manto, onde ajuda a acelerar o fluxo do gelo. As plataformas de gelo flutuante da Antártida também estão acumulando água na superfície.
[continuação]

Repentinamente, a possibilidade de que o aquecimento global pudesse provocar mudanças rápidas no gelo polar tornou-se realidade. Em agosto seguinte, como um reforço a essa possibilidade, a extensão de gelo oceânico antártico atingiu uma baixa histórica, e no verão o derretimento do manto de gelo da Groenlândia superou tudo que já se tinha observado. Na Groenlândia, as águas liberadas pelo gelo derretido também fluíam pelas rachaduras e abriam buracos no gelo, conhecidos como moulins (moinhos, em francês) – e depois provavelmente, se precipitavam até a base do manto de gelo, levando com elas o calor do verão. Lá, em vez de se misturar com a água do mar, como aconteceu no colapso da plataforma glacial Larsen B, a água provavelmente se misturou com lama, formando uma massa pastosa que foi suavizando o caminho pelo leito de pedras, “engraxando” ou lubrificando a fronteira entre gelo e rocha. Por alguma razão, o manto de gelo gigante da Groenlândia estava sendo acelerado através da sua ancoragem rochosa em direção ao mar.

Mais recentemente, como parte das investigações programadas para o Ano Polar Internacional (IPY), também rastreamos os meandros de um sistema de “encanamento” de água na base dos grandes mantos glaciais da Antártida. Embora provavelmente boa parte da água líquida que provoca o deslizamento do manto de gelo na Antártida não provenha da superfície, ela produz o mesmo efeito lubrificante. E lá também parte das camadas de gelo sofre um deslizamento acelerado e colapsos constantes.
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Robin E. Bell é diretora do programa Advance do Instituto da Terra, da Columbia University. É também pesquisadora sênior do Observatório da Terra Lamont-Doherty da mesma universidade, onde dirige um amplo programa de investigação na Antártida. Bell estuda o mecanismo do colapso de plataformas de gelo, assim como os ambientes frígidos situados abaixo do manto de gelo antártico. Liderou sete expedições à Antártida. É presidente do comitê de pesquisa polar da National Academies e foi vice-presidente do grupo internacional de planejamento do Ano Polar Internacional.
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