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Reportagem |
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| edição 70 - Março 2008 |
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| Gelo Inquieto |
| Água líquida abundante descoberta sob os maiores mantos de gelo do mundo pode intensificar o efeito desestabilizador do aquecimento global. Mesmo sem se dissolver, enormes volumes de gelo podem mergulhar no mar e elevar seu nível de forma catastrófica |
| por Robin E. Bell |
[continuação]
Por que esses processos são tão perturbadores e por que é importante compreendê-los? Um terço da população mundial vive abaixo ou até 90 metros acima do nível do mar e a maioria das grandes cidades do planeta situa-se próximo ao mar. Para cada 615 km3 de gelo que se rompem das geleiras e caem no mar, o nível global das águas sobe cerca de 1,6 mm. Isso pode não parecer muito, mas considere o volume de gelo concentrado hoje nos três maiores mantos de gelo do planeta. Se o gelo do oeste antártico desaparecesse, o nível do mar subiria quase 5,7 metros; o gelo do manto da Groenlândia acrescentaria a esse valor 7,2 metros e o manto leste da Antártida poderia acrescentar outros 51 metros ao nível dos oceanos do planeta: mais de 64 metros, ao todo. (A título de comparação, a Estátua da Liberdade, dos pés à ponta da tocha, mede cerca de 45 metros de altura.) A água líquida desempenha um papel crucial nos movimentos internos e nos fluxos dos mantos de gelo em direção ao mar. Saber como a água líquida se forma, por onde escoa e como as mudanças climáticas globais podem intensificar seus efeitos no gelo polar do planeta são questões de enorme importância para prever – e preparar-se para – as conseqüências do aquecimento global sobre o nível dos oceanos.
Estrondos no Gelo Há muito tempo os glaciólogos têm conhecimento de que os mantos de gelo estão se movendo, mas supunham que essas mudanças eram graduais. No cenário ideal um manto de gelo acumula neve – formada basicamente pela evaporação da água do mar – no seu centro e devolve ao mar à sua volta uma massa aproximadamente igual, pelo derretimento e formação de icebergs. Na Antártida, por exemplo, cerca de 90% do gelo que atinge o mar é transportado por verdadeiras correntes de gelo, gigantescas esteiras rolantes com a espessura do manto das vizinhanças (entre 1 km e 2 km) e perto de 100 km de largura, e se estendem “correnteza acima” por mais de 800 km do mar. As correntes de gelo se deslocam em solavancos, em um movimento de deslocamento/estacionamento, produzindo fendas nas laterais à medida que avançam. Próximo das margens do manto de gelo as correntes se deslocam tipicamente a uma velocidade entre 195 e mil metros por ano enquanto o gelo das redondezas mal se mexe.
Mas os mantos reais não estão permanentemente estáticos no planeta. Estudos de núcleos de gelo, por exemplo, sugerem que o manto de gelo da Groenlândia em um passado remoto foi menor que hoje, particularmente durante o período interglacial mais recente, há 120 mil anos, quando as temperaturas globais eram amenas. Em 2007, Eske Willerslev, da Universidade de Copenhague, liderou um grupo internacional em busca de evidências de ecossistemas ancestrais, preservados no DNA, na base do manto glacial. As descobertas revelaram que a Groenlândia foi coberta por coníferas há pouco mais de 400 mil anos, onde viviam invertebrados como besouros e borboletas. Em resumo, o aumento das temperaturas globais provocará uma retração da Groenlândia. |
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| Robin E. Bell é diretora do programa Advance do Instituto da Terra, da Columbia University. É também pesquisadora sênior do Observatório da Terra Lamont-Doherty da mesma universidade, onde dirige um amplo programa de investigação na Antártida. Bell estuda o mecanismo do colapso de plataformas de gelo, assim como os ambientes frígidos situados abaixo do manto de gelo antártico. Liderou sete expedições à Antártida. É presidente do comitê de pesquisa polar da National Academies e foi vice-presidente do grupo internacional de planejamento do Ano Polar Internacional. |
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