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Reportagem |
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| edição 70 - Março 2008 |
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| Gelo Inquieto |
| Água líquida abundante descoberta sob os maiores mantos de gelo do mundo pode intensificar o efeito desestabilizador do aquecimento global. Mesmo sem se dissolver, enormes volumes de gelo podem mergulhar no mar e elevar seu nível de forma catastrófica |
| por Robin E. Bell |
[continuação]
Nos últimos cinco anos os pesquisadores desenvolveram duas idéias sobre os processos que poderiam provocar a aceleração de fluxos de gelo. A primeira é que uma corrente de gelo pode ser rapidamente acelerada se sua base encontrar lama, água líquida ou até lagos profundos que lubrifiquem continuamente o seu percurso. A segunda é que se plataformas de gelo a caminho do mar (flutuando no oceano Austral em torno da Antártida) ou línguas de gelo (plataformas de gelo longas e estreitas presas a uma geleira de descarga, comuns na Groenlândia) se romperem, sua massa não conseguirá mais deter o fluxo das correntes de gelo. As geleiras que alimentam a plataforma glacial Larsen B, por exemplo, se aceleraram dramaticamente depois que o manto de gelo colapsou em 2002. Assim, “desimpedidas”, as correntes de gelo e as geleiras provavelmente aceleraram sua migração em direção ao mar, para aumentar seu volume global.
Há muito tempo os glaciólogos reconheceram um terceiro tipo de mecanismo que acelera o fluxo das camadas de gelo. Assim como as geleiras se aceleraram quando a Larsen B colapsou, uma plataforma de gelo se acelera se as correntes aquecidas do oceano tornarem mais fina a plataforma sobre a qual o manto de gelo desliza. Na região do marde Amundsen, no oeste antártico, a superfície do manto de gelo está afundando cerca de 1,5 metro por ano e a aceleração do manto aumentou cerca de 10%. Esses dois efeitos provavelmente se devem ao afinamento da plataforma de gelo.
“Engraxando as Derrapagens” O colapso da plataforma glacial Larsen B e a associação igualmente alarmante entre a repentina drenagem de água da superfície na Groenlândia e os fluxos acelerados nos mantos de gelo me inspiraram e a vários colegas a concentrar esforços no estudo do papel que a água líquida exerce sobre os mantos de gelo. Estamos propensos a acreditar que a água líquida que tem mantido o ritmo do movimento do gelo rumo ao mar e as nevascas no interior ajudaram a manter o equilíbrio dinâmico dos mantos de gelo em alguns casos durante milhões de anos. Nas correntes de gelo do oeste antártico, por exemplo, a água lubrificante se torna líquida na base do manto de gelo devido ao calor proveniente do atrito entre o gelo em movimento e o leito rochoso abaixo dele. No leste antártico a água se liquefaz na base do manto de gelo basicamente devido ao calor da crosta continental inferior. Nessa região, o gelo é tão espesso que passa a funcionar como uma manta isolante, capturando o calor geotérmico. Toda essa água subglacial representa um enorme potencial para a instabilidade dos movimentos de gelo. Os glaciólogos não imaginavam que eventos como o colapso da Larsen B pudessem ser responsáveis mais prováveis pela aceleração das taxas de fluxo das correntes de gelo. |
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| Robin E. Bell é diretora do programa Advance do Instituto da Terra, da Columbia University. É também pesquisadora sênior do Observatório da Terra Lamont-Doherty da mesma universidade, onde dirige um amplo programa de investigação na Antártida. Bell estuda o mecanismo do colapso de plataformas de gelo, assim como os ambientes frígidos situados abaixo do manto de gelo antártico. Liderou sete expedições à Antártida. É presidente do comitê de pesquisa polar da National Academies e foi vice-presidente do grupo internacional de planejamento do Ano Polar Internacional. |
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