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Reportagem |
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| edição 70 - Março 2008 |
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| Gelo Inquieto |
| Água líquida abundante descoberta sob os maiores mantos de gelo do mundo pode intensificar o efeito desestabilizador do aquecimento global. Mesmo sem se dissolver, enormes volumes de gelo podem mergulhar no mar e elevar seu nível de forma catastrófica |
| por Robin E. Bell |
[continuação]
A idéia de que a base do manto de gelo poderia derreter surgiu em 1955, quando Gordon Robin sugeriu que o calor geotérmico é capaz de produzir quantidades significativas de água subglacial, desde que o manto de gelo acima seja suficientemente espesso para isolar a base de sua superfície fria. Mas essa idéia não foi confirmada até os anos 70, e posteriormente o foi de forma alarmante. Nessa época o radar de penetração no gelo já estava desenvolvido o suficiente para permitir “ver” através do manto até a superfície subjacente abaixo. Robin formou um grupo de pesquisadores para coletar dados utilizando o radar a bordo de uma aeronave que voava em um vai-e-vem sobre o continente antártico. A maior parte do tempo o sinal de retorno do radar captado por um osciloscópio a bordo era irregular, como seria de esperar para sinais ecoando em montanhas e vales cobertos por grossas camadas de gelo. Em alguns pontos, no entanto, era como se alguém tivesse desenhado uma linha reta na tela do osciloscópio. O sinal do radar estava sendo refletido por uma superfície semelhante a um espelho. Robin concluiu que essa superfície deveria ser água sob o manto de gelo. Os dados de radar mostraram que parte dos “espelhos” subglaciais persistiam por mais de 30 km, mas ele não tinha idéia de sua verdadeira escala ou profundidade.
Uma vez mais, Robin teve de esperar quase duas décadas por uma nova tecnologia. Nos anos 90, a Agência Espacial Européia completou o primeiro mapeamento de grande escala da superfície de gelo. Olhando para a imagem, somos imediatamente surpreendidos por uma região plana no centro do manto de gelo. Cerca de 3 km acima da água, Vostok, a estação russa na Antártida, observa uma superfície de gelo que delineia os contornos planos de um lago. As dimensões do lago Vostok aparecem claramente agora: são 19.500 km2.
Encanamento Subglacial A descoberta de lagos subglaciais mudou radicalmente a forma como os pesquisadores vêem a água sob o gelo. Mais de 150 lagos subglaciais foram localizados na Antártida até agora. O volume combinado desses lagos é de aproximadamente 30% da água de todos os lagos da superfície do planeta. Meus estudos sobre o lago Vostok, no leste da Antártida, em 2001, revelaram um sistema bastante estável. Nos últimos 50 mil anos houve um lento intercâmbio da água do lago com o manto de gelo abaixo, através de fusões e congelamentos sucessivos. Naturalmente, num passado mais remoto, as coisas podem não ter sido tão tranqüilas: evidências geológicas mostram que lagos subglaciais podem se esgotar repentinamente, em um único estertor, liberando quantidades enormes de água sob a superfície de gelo ou diretamente para o oceano. Vales imensos, com mais de 240 metros de profundidade circundam completamente o continente antártico como cicatrizes de inundações gigantescas. |
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| Robin E. Bell é diretora do programa Advance do Instituto da Terra, da Columbia University. É também pesquisadora sênior do Observatório da Terra Lamont-Doherty da mesma universidade, onde dirige um amplo programa de investigação na Antártida. Bell estuda o mecanismo do colapso de plataformas de gelo, assim como os ambientes frígidos situados abaixo do manto de gelo antártico. Liderou sete expedições à Antártida. É presidente do comitê de pesquisa polar da National Academies e foi vice-presidente do grupo internacional de planejamento do Ano Polar Internacional. |
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