Reportagem
  
edição 28 - Setembro 2004
Genoma contra a Esquistossomose
Mapas do DNA ativo do parasita abrem caminhos para a criação de vacinas e para resister a resistência do verme a medicamentos
por Sergio Verjovski-Almeida e Ricardo DeMarco
Hospedeiro intermediário do verme Schistosoma mansoni na América Latina, o caramujo do gênero Biomphalaria é encontrado em lagoas
No futuro próximo, a integração das análises em larga escala permitirão entender melhor o parasita e elaborar novas estratégias para um tratamento mais eficiente

A doença é pelo menos tão antiga quanto os faraós que afetava, mas seus efeitos teimam em atormentar a humanidade de hoje. Cerca de 200 milhões de pessoas sofrem atualmente com os vermes do gênero Schistosoma, que pode agir de forma devastadora sobre o sistema digestivo e urinário e até levar à morte. Contudo, o próprio mundo em desenvolvimento que sofre os efeitos mais sérios da esquistossomose está iniciando um contra-ataque, com a ajuda das técnicas mais modernas de análise genética. Cientistas brasileiros e chineses obtiveram um retrato abrangente dos genes ativos em duas espécies de esquistossomo, o S. mansoni e o S. japonicum.

Com os dados sobre o DNA dos dois vermes (que afetam respectivamente a América Latina e a Ásia, além de algumas regiões da África, no caso do S. mansoni), deve ser possível obter informações cruciais sobre como os esquistossomos interagem com o organismo de seus hospedeiros em nível molecular. Os mecanismos usados pelo verme para escapar da vigilância do sistema imune e para se aproveitar do metabolismo humano poderão ser dirigidos contra ele, permitindo o desenvolvimento de novos medicamentos e vacinas - trabalho que já está sendo feito pela equipe que investigou seus genes.

A esquistossomose é hoje um dos maiores problemas de saúde pública em vários países tropicais. A doença é endêmica em 74 países em desenvolvimento e estima-se que cerca de 600 milhões de pessoas vivam em áreas expostas ao parasita. Tamanha população sob risco vive em países com saneamento básico insatisfatório, o que facilita a transmissão do parasita (pelas fezes e pela urina dos doentes, que acabam contaminando lagos e lagoas). No Brasil, o único causador da moléstia é o Schistosoma mansoni. A transmissão é mais comum no Nordeste e no norte de Minas Gerais, mas todos os estados têm áreas afetadas.
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