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Reportagem |
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| edição 78 - Novembro 2008 |
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| Iluminando os meandros do cérebro |
| Uma promissora combinação entre óptica e genética vem permitindo aos neurocientistas mapear e até controlar os circuitos cerebrais com precisão inédita |
| por Gero Miesenböck |
[continuação]
Quase caí da poltrona. Delgado era mesmo um personagem fictício ou real? Assim que desembarquei em Los Angeles, fiz uma busca na internet e encontrei uma foto de um matador com o controle remoto e seu touro. Descobri que Delgado havia lecionado na mesma universidade que eu, Yale, e escrevera um livro chamado Controle físico do espírito – Rumo a uma sociedade psicocivilizada, de 1971, em que resumia seus esforços para controlar movimentos, evocando memórias e ilusões, e destacando prazer ou dor (ver “A era esquecida dos primeiros chips cerebrais”, por John Horgan; SCIENTIFIC AMERICAN BRASIL, ed. 42, novembro de 2005). O livro encerra com uma discussão sobre quais as implicações da capacidade de controlar a função cerebral para a medicina, a ética, a sociedade e até mesmo para a guerra. Com isso em mente não deveria me causar espanto quando, no dia seguinte à publicação do meu artigo, um jornalista americano quis saber ao telefone: “Então, quando vamos invadir outro país com um exército de moscas controladas remotamente?”.
A atenção da imprensa não parou aqui. No dia seguinte, a manchete do Drudge Report alardeava, “Cientistas Criam Moscas Controladas à Distância”, acima da notícia sobre a última aparição de Michael Jackson nos tribunais. Presumi que essa foi a fonte que inspirou uma sátira no programa Tonight Show cerca de uma semana depois, onde o apresentador Jay Leno pilotava moscas controladas remotamente em direção à boca do presidente George W. Bush – a primeira aplicação prática de nossa nova tecnologia.
Desde então pesquisadores vêm utilizando fotointerruptores para controlar outros comportamentos. Em outubro último, Deisseroth e Luis de Lecea, seu colega de Stanford, divulgaram resultados de uma pesquisa com camundongos, em que usaram fibras ópticas para levar a luz diretamente aos neurônios produtores de hipocretina – neurotransmissor na forma de uma pequena proteína, ou peptídeo – para saber se esses neurônios regulariam o sono. Os pesquisadores suspeitavam que a hipocretina tem esse papel pois certas raças de cães, que não apresentam receptores de hipocretina, sofrem crises de insônia. A nova pesquisa mostrou que a estimulação de neurônios da hipocretina durante o sono tendia a acordar os camundongos, reforçando aquela hipótese.
E no meu laboratório em Yale, o pós-doutor J.Dylan Clyne usou acionadores codificados geneticamente para obter pistas sobre as diferenças comportamentais entre os sexos. Os machos de muitas espécies animais chegam ao extremo ao cortejar o sexo oposto. No caso das moscas-das-frutas os machos vibram uma asa para produzir uma “canção” que as fêmeas consideram irresistível. Para investigar as bases neurais desse comportamento exclusivo dos machos, Clyne usou a luz para ativar o gerador de padrões responsável pela canção. Descobriu que as fêmeas também possuíam o conjunto de circuitos produtor de músicas. Mas, sob condições normais, não apresentam os sinais neurais necessários para ativá-lo. Essa descoberta indica que o cérebro de machos e de fêmeas tem em grande parte conexões semelhantes, e que as diferenças no comportamento sexual surgem da ação de interruptores-mestre posicionados estrategicamente para dispor os circuitos no modo masculino ou feminino. |
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| Gero Miesenböck recentemente transferiu-se da Yale University para a University of Oxford, onde ocupa a cadeira Waynflete como professor de fisiologia. Esse posto foi ocupado por Charles Sherrington, um dos pais da neurociência moderna no início do século passado. |
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