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Reportagem |
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| edição 78 - Novembro 2008 |
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| Iluminando os meandros do cérebro |
| Uma promissora combinação entre óptica e genética vem permitindo aos neurocientistas mapear e até controlar os circuitos cerebrais com precisão inédita |
| por Gero Miesenböck |
[continuação]
Terapia da Luz Até o momento os pesquisadores conceberam animais para carregar um sensor ou um acionador nos neurônios específicos. Mas é possível equipá-los com ambos. E mais adiante pretendemos conseguir criar sujeitos contendo múltiplos sensores ou acionadores, que nos permitam estudar populações de neurônios de tamanhos variados num mesmo indivíduo.
Nossa autoridade recém-descoberta sobre os circuitos neurais vem criando grandes oportunidades para a pesquisa básica. Mas existem benefícios práticos? Talvez, embora eu considere que eles às vezes provocam muito alarde. O próprio Delgado identificou diversas áreas onde o controle direto da função neural poderia produzir benefícios clínicos: protética sensorial, terapias para doenças motoras (que já se tornaram realidade com a estimulação cerebral profunda no mal de Parkinson), e a regulação do humor e do comportamento. Ele enxergou esses usos em potencial como uma extensão direta e racional da prática médica existente, não como uma alarmante incursão inimiga nos campos minados da ética do “controle da mente”. De fato, delimitar uma fronteira definitiva entre os meios físicos para influenciar a função cerebral e as manipulações de substâncias químicas pode parecer arbitrário, sejam elas drogas psicoativas ou o drinque que ajuda a relaxar no final de um dia puxado. Na verdade, as intervenções físicas podem ser contestavelmente dirigidas e dosadas com maior precisão do que as drogas, restringindo assim os efeitos colaterais.
Alguns estudos começam a explorar a aplicabilidade da optogenética a problemas clínicos. Em 2006, pesquisadores usaram canais de íons fotoativados para restabelecer a fotossensilbilidade em neurônios da retina sobreviventes em camundongos com degeneração de fotorreceptores. Eles utilizaram um vírus para levar o gene codificado da canal-rodopsina 2 até as células, injetando-o diretamente nos olhos dos animais. As retinas reparadas enviaram sinais provocados pela luz ao cérebro, mas ainda não se sabe se esse procedimento teve sucesso em restaurar a visão.
Apesar do apelo teórico a optogenética enfrenta um obstáculo prático significativo em humanos, uma vez que requer a introdução de um gene estranho – aquele codificado com o acionador fotocontrolado – no cérebro. Até o momento a tecnologia da terapia gênica ainda não venceu o desafio, e autoridades sanitárias demonstram tamanha preocupação quanto aos riscos associados que, no presente, esse tipo de intervenção está proibida, exceto se com finalidade estritamente experimental.
A oportunidade imediata proporcionada ao controlarmos os circuitos cerebrais – ou mesmo outras células eletricamente excitáveis, como as que produzem hormônio e as que formam os músculos – é poder revelar novos alvos para drogas; por exemplo, se as manipulações experimentais dos grupos de células X, Y e Z levam o animal a comer, dormir ou arriscar-se, então, X, Y e Z são alvos em potencial para novas drogas para tratar a obesidade, a insônia e a ansiedade, respectivamente. Identificar os compostos que regulam os neurônios X, Y e Z pode resultar na maior eficiência terapêutica para doenças que, até o momento, não são tratadas, ou em novas aplicações para drogas existentes. Há muito ainda a descobrir, mas o futuro da optogenética promete ser brilhante. |
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| Gero Miesenböck recentemente transferiu-se da Yale University para a University of Oxford, onde ocupa a cadeira Waynflete como professor de fisiologia. Esse posto foi ocupado por Charles Sherrington, um dos pais da neurociência moderna no início do século passado. |
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