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Reportagem

Inimigo Insuspeito

Um novo padrão de resistência a antibióticos poderá nos expor a uma enorme variedade de infecções bacterianas

Maryn McKenna
EM MEADOS DE 2008, Timothy Walsh, da Cardiff University, no País de Gales, recebeu e-mail de um amigo. Era Christian Giske, médico da faculdade de medicina do Instituto Karolinska, da Suécia. Ele tratava de um homem de 59 anos, hospitalizado em janeiro daquele ano em Örebro, cidadezinha a cerca de 160 km de Estocolmo. Diabético havia anos, o paciente sofrera vários derrames cerebrais e recentemente desenvolvera profundas úlceras cutâneas (também chamadas de úlceras de decúbito ou pressão). Mas nada disso era o assunto de Giske. O médico estava preocupado com uma bactéria que um rotineiro exame de cultura havia revelado na urina do homem. Walsh, que dirige um laboratório de genética da resistência bacteriana, estaria disposto a dar uma olhada no microrganismo?

Walsh concordou e submeteu a amostra a mais de uma dezena de ensaios. Tratava-se de uma Klebsiella pneumoniae, bactéria que, em pacientes hospitalizados, é uma das causas mais frequentes da pneumonia e de infecções da corrente sanguínea. Mas essa linhagem tinha uma novidade: um gene que Walsh nunca vira antes. Ele tornava a Klebsiella, já resistente a muitos antibióticos utilizados em tratamentos médicos críticos, insensível ao único grupo remanescente que funcionava de modo confiável e seguro – os carbapenemas, ou medicamentos de último recurso. Os pesquisadores descobriram que a única medicação com efeito sobre a cepa resistente era a colistina, fora de uso há anos devido aos seus efeitos tóxicos nos rins. Walsh chamou a enzima produzida por esse gene de Nova D’lhi metalo-beta-lactamase, ou NDM-1, devido à cidade onde o paciente adquiriu a infecção antes de retornar à Suécia.

Se havia um caso desses, refletiu Walsh, provavelmente haveria outros, e ele, Giske, e uma equipe de colaboradores foram à procura de pistas nessa direção. Em agosto de 2010, eles publicaram seus relatos na revista médica Lancet Infectious Diseases: eles haviam detectado 180 casos de pacientes portadores do gene. O NDM-1 estava amplamente difundido em Klebsiellas na Índia e no Paquistão, e já se alastrara para o Reino Unido por meio de viajantes que estiveram no sul da Ásia para tratamento médico ou visita a amigos e familiares. Pior, em alguns poucos casos, o microrganismo havia se propagado para outro gênero bacteriano – de Klebsiella para Escherichia coli, bactéria que vive nos intestinos de animais de sangue quente e é onipresente em nosso ambiente. Essa transferência levantou a possibilidade de o gene não permanecer confinado a hospitais e infecções hospitalares, mas espalhar-se transportado por bactérias alojadas em pessoas comuns e alastrando-se por apertos de mãos, beijos ou maçanetas de portas, entre outros meios.



A transferência também sugeriu outra possibilidade: de que o delicado e oscilante equilíbrio entre microrganismos e medicamentos, estabelecido em 1928 com a descoberta da penicilina, estava a ponto de desmoronar e pender a favor das bactérias. Nesse caso, muitas infecções fatais, controladas durante décadas com antibióticos, estariam na iminência de voltar à tona como numa vingança.


UM NOVO PADRÃO DE RESISTÊNCIA
O FIM DO MILAGRE DOS ANTIBIÓTICOS não é um tema novo. Desde que surgiram houve resistência a eles: a primeira bactéria resistente à penicilina apareceu antes mesmo que o medicamento chegasse ao mercado, na década de 1940. E, durante quase todo esse período, os médicos têm alardeado a possibilidade de um esgotamento de opções medicamentosas, devido à propagação global de organismos resistentes à penicilina nos anos 50, seguida por uma insensibilidade à meticilina nos anos 80 e à vancomicina na década de 90.

Dessa vez, porém, o prognóstico de uma maldição pós-antibiótica vem de uma parte diferente do mundo microbiótico. Os genes que conferem resistência aos carbapenemas – não apenas o NDM-1, mas toda uma lista alfabética de outros tipos – surgiram no decorrer da última década em um grupo particularmente desafiador de bactérias, chamadas gram-negativas. Essa designação, que empresta o nome de um cientista dinamarquês do século 19, indica superficialmente a reação a uma técnica de coloração que ilumina a membrana celular. Mas sua conotação é muito mais complexa. Bactérias Gram-negativas são promíscuas: elas inter cambiam facilmente fi lamentos de DNA, de modo que um gene de resistência que surge, por exemplo, na Klebsiella, pode migrar rapidamente para a E. coli, Acinetobacter e outras espécies gram-negativas. (Comparativamente, é muito mais provável que os genes resistentes em espécies gram- positivas se agrupem dentro do próprio grupo.) Os germes gram-negativos são mais difíceis de ser eliminados com antibióticos, porque dispõem de uma membrana em camada dupla que até medicamentos potentes têm dificuldade de penetrar; e eles também apresentam certas defesas celulares internas. Além disso, existem menos opções para combatê-los. As empresas farmacêuticas estão desenvolvendo poucos antibióticos de nova geração de qualquer gênero. Contra as persistentes bactérias proteicas gram-negativas, elas nem ao menos têm novos compostos de reserva ou em processo de elaboração.

O que tira o sono das autoridades do sistema de saúde é a possibilidade de genes resistentes aos carbapenemas se propagar sem ser detectados, além dos hospitais, no organismos que provocam doenças comuns e cotidianas – como a E. coli, responsável pela maioria dos milhões de infecções do trato urinário.
MILAGRE ANTIBIÓTICO
A BATALHA DE 83 ANOS entre bactérias e antibióticos desenvolvidos para enfrentá-las situa-se em algum ponto entre um jogo eletrônico “Whack-a-Mole” (em que o jogador deve desferir marteladas nas cabeças que despontam de buracos em um tabuleiro na máquina ou no monitor do computador) e uma estratégia nuclear de “destruição mútua garantida”. Para quase todos os antibióticos desenvolvidos, as bactérias criaram um fator de resistência que as protege de ataques. E para quase todo fator de resistência as companhias farmacêuticas produziram uma alternativa mais potente – até agora. Com o tempo, a batalha gradualmente foi pendendo para o lado dos microrganismos, como uma gangorra que se desequilibra lentamente. Afinal, as bactérias têm a evolução a seu lado. Elas precisam de apenas 20 minutos para produzir uma nova geração, enquanto é necessário uma década ou mais para pesquisa e desenvolvimento de um novo medicamento. Além disso, qualquer utilização de antibióticos estimula o aparecimento da resistência ao exercer o que é conhecido como “pressão seletiva”. Tipicamente, algumas poucas bactérias, com mutações aleatórias bem-sucedidas, sobrevivem ao ataque do antibiótico. Elas se reproduzem, preenchem o
espaço vital que o medicamento criou (limpou) para elas ao matar suas congêneres mais fracas, e transmitem à nova geração os genes que as protegeram. (Por isso é tão importante tomar a dose completa de antibióticos: para eliminar todas as bactérias de uma infecção e não apenas as mais frágeis e suscetíveis.) Mas a resistência não se propaga apenas por herança genética. Ao intercambiar filamentos de DNA, as bactérias podem adquirir resistência sem terem sido expostas ao medicamento contra o qual os genes as protegem.

Pode-se observar esse padrão cíclico de resistência na evolução do Staphylococcus aureus, um organismo gram-positivo de membrana única. Primeiro ele tornou-se insensível à penicilina, em seguida às suas formas sintéticas – inclusive à meticilina, o que lhe rendeu o nome de Staphylococcus aureus resistente à meticilina, ou SARM (também conhecido por sua sigla em inglês MRSA, de Methicillinresistant Staphylococcus aureus). Depois, ele tornou-se refratário às cefalosporinas, como o Keflex e, por fim, à vancomicina, o potente medicamento de último recurso contra a SARM. As bactérias gramnegativas seguiram padrão similar, neutralizando as penicilinas, cefalosporinas, os macrolídeos (eritromicina e azitromicina, ou Zitromax) e as lincosamidas (Clindamicina). Mas até recentemente, os carbapenemas conseguiam combater segura e confiavelmente mesmo as infecções mais persistentes, tornando-se a última barreira entre infecções tratáveis e intratáveis. Esses medicamentos eram baratos, confiáveis e de amplo espectro, ou seja, agiam contra muitos organismos, e eram muito, muito potentes.

Talvez as pesquisas nos possibilitem sair desse dilema com mais uma classe inédita de antibióticos – pelo menos até que as bactérias os neutralizem mais uma vez. Mas sem a perspectiva do aparecimento de novos medicamentos nessa “janela de produção”, de 10 anos, capaz de eliminar essas superbactérias de última geração, é possível que tenhamos de conviver com o risco de muitos tipos de infecções intratáveis por um tempo desconfortavelmente longo.

A situação já seria suficientemente grave se estivesse limitada às poucas centenas de casos que apresentaram o gene NDM-1 até agora. Mas nos últimos cinco anos, outro germe que confere uma resistência similar – chamado KPC, abreviação de Klebsiella pneumoniae carbapenemase – propagou-se rapidamente pelo mundo.

EXPONDO UMA AMEAÇA OCULTA
QUANDO WALSH E GISKE PUBLICARAM seus resultados sobre o NDM-1 na
revista Lancet Infectious Diseases, no verão passado, imediatamente desencadearam furor internacional. Autoridades indianas da área de saúde protestaram com veemência, acusando os médicos ocidentais de tentar invejosamente minar a florescente indústria do turismo médico do subcontinente.


A primeira detecção do KPC não provocou esse tipo de alvoroço. Ele chegou discretamente em 1996, em uma entre centenas de amostras bacterianas colhidas em hospitais de 18 estados americanos. O projeto que as solicitou, chamado Icare, era um esforço conjunto dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) e da vizinha Emory University, ambos sediados em Atlanta, na Geórgia. (A sigla Icare, em inglês, significa Project Intensive Care Antimicrobial Resistance Epidemiology ou “Projeto de Terapia Intensiva da Epidemiologia de Resistência Antimicrobiana”.) A meta do projeto era saber como os antibióticos estavam sendo utilizados em unidades de terapia intensiva e outros departamentos hospitalares, na esperança de antever onde o próximo organismo resistente poderia aparecer.

Uma cultura isolada, enviada por um hospital nunca identificado publicamente da Carolina do Norte, revelou ser uma Klebsiella. Isso não era incomum. Trata-se de uma infecção hospitalar comum, consequência quase inevitável dos tratamentos intensivos: elevadas doses de antibióticos de amplo espectro abalam a ecologia do trato intestinal e provocam diarreia, que contamina o ambiente ao redor dos pacientes e as mãos dos profissionais que tratam deles. “Se você considerar pacientes internados em uma UTI, sedados, acoplados a um respirador, eles não podem se levantar e ir ao banheiro”, pondera Arjun Srinivasan, diretor-adjunto do CDC para programas de prevenção de infecções associadas à assistência médica. “ Se eles forem incontinentes, a equipe de profissionais terá de higienizá-los. Há muitos equipamentos próximos aos pacientes e muitas superfícies que podem ser contaminadas.”

Se a infecção por Klebsiella em uma UTI não foi uma surpresa, os resultados de sua análise foram. Como esperado, a cultura isolada da Carolina do Norte mostrou ser resistente a uma longa lista de antibióticos, inclusive a penicilina e alguns outros medicamentos parecidos. Mas a amostra também era resistente a dois carbapenemas
– imipeném e meropeném – aos quais a Klebsiella sempre havia respondido. A amostra não era totalmente resistente, mas os resultados dos testes do CDC indicaram que doses elevadas de carbapenemas seriam necessárias para tratar qualquer infecção provocada por ela. A enzima que proporcionava aquela resistência atacou os medicamentos carbapenêmicos antes mesmo que eles pudessem atravessar a membrana interna na parede bacteriana.
Ninguém havia observado um padrão de resistência como o KPC antes. Ele deixou os epidemiologistas que o manipulavam inquietos – como se estivessem pressentindo o soar de um alarme distante. “Era um novo tipo de resistência, mas quando há apenas uma cultura isolada, você não sabe quanto comum ela será”, explica Jean B. Patel, vice- diretor do Departamento de Resistência Antimicrobiana, do CDC. “E durante um longo tempo não apareceram outras culturas isoladas como essa.”

Durante anos, a amostra de Klebsiella da Carolina do Norte permaneceu um feliz acaso preocupante. Então, em meados do ano 2000, pacientes em quatro UTIs do Hospital Tisch, parte do Centro Médico Langone, da New York University, na zona leste de Manhattan, começaram a desenvolver infecções excepcionalmente agressivas de Klebsiella, resistentes a quase todas as categorias de drogas que um médico de UTI gostaria de utilizar. Foi a primeira vez que médicos da NYU viram infecções resistentes a carbapenemas. Catorze pacientes contraíram pneumonias altamente resistentes a medicamentos, bem como infecções cirúrgicas e da corrente sanguínea. Outros 10 eram portadores da bactéria KPC, porém assintomáticos. Oito dos 24 morreram. Ao fazer uma análise laboratorial, o hospital descobriu que a cepa de Klebsiella que tinham exibia o mesmo gene KPC que a amostra original da Carolina do Norte.

Em breve, o hospital também experimentaria o desafio de conter o microrganismo resistente. Com tantos medicamentos que se mostraram ineficientes, a única opção foi impor a antiquada ferramenta de uma limpeza rigorosa, para garantir que a bactéria resistente não se espalhasse ainda mais pelas mãos de profissionais desavisados. O Centro Médico Langone isolou os pacientes infectados e exigiu que qualquer um que entrasse em seus quartos vestisse roupas e luvas esterilizadas e descartáveis, e controlou o uso de substâncias para lavar a desinfetar as mãos. Quando essas medidas se mostraram insuficientes, eles mudaram as soluções desinfetantes utilizadas nas UTIs. Como elas persistiram, eles concentraram os cuidados em pacientes infectados e descobriram que alguns deles, com infecções do trato urinário, estavam sendo respingados quando suas bolsas coletoras de urina eram trocadas – respingos que contaminavam tanto os profissionais como o ambiente.

Dois anos depois, a mesma superbactéria altamente resistente apareceu de alguma forma em hospitais do Brooklyn, reforçando ainda mais como pode ser difícil conter a Klebsiella que abriga o gene KPC. Um hospital identificou dois pacientes infectados em agosto de 2003, colocou-os em isolamento e imediatamente intensificou suas práticas de controle de infecções e, ainda assim, no final de fevereiro de 2004, outros 30 casos diagnosticados haviam se espalhado pelo hospital. Outra instituição identificou um paciente em dezembro de 2003; encontrou dois outros em fevereiro do ano seguinte e mais 24 pacientes adicionais até o final de maio daquele ano – todos infectados no hospital, apesar dos esforços agressivos para estancar a propagação do microrganismo.

Bactérias portadoras do KPC apareceram no Hospital do Harlem, onde provocaram um surto de sete infecções de corrente sanguínea em 2005; apenas dois pacientes sobreviveram. Elas também surgiram no Centro Médico Mount Sinai, na Upper East Side, bairro nobre de Nova York, onde os pesquisadores começaram a testar todos os pacientes admitidos em três unidades de terapia intensiva, na esperança de controlar a epidemia que se espalhava rapidamente. O que eles descobriram ajudou a explicar por que as bactérias estavam se tornando um sério problema: 2% de todos os pacientes de UTI eram portadores da cepa resistente – sem manifestar sintomas, mas constituindo um risco de infecção para os outros.

Os hospitais de Nova York haviam se transformado em incubadores de germes resistentes, algo que os números nacionais confirmaram. Em 2007, 21% das amostras de Klebsiella coletadas na metrópole portavam o gene KPC, em comparação aos 5% constatados no restante do país. Em 2008, os hospitais nova-iorquinos informaram que os índices de KPC haviam saltado para 38%.

Pacientes internados em UTIs estão gravemente enfermos por definição – eles sofrem de trauma, câncer, falência de órgãos –; portanto, a morte deles pode ser difícil de estabelecer, sem uma causa específica. Mas em certos casos que envolvem o KPC não há dúvida, avalia John Quale, professor-adjunto de medicina do Centro de Ciência da Saúde da State University of New York, mais conhecido como Suny/Downstate Medical Center, no Brooklyn, que tratou alguns dos primeiros casos na cidade de Nova York. “Evidentemente, houve situações em que o tratamento falhou apesar de todos os esforços”, declara ele. “E pacientes morreram.”
A partir de nova york, a Klebsiella KPC se alastrou. Primeiro, ela foi encontrada em lugares frequentemente visitados pelos nova-iorquinos – Nova Jersey, Arizona e Flórida – e depois muito mais além.

A resistência aos carbapenemas não é uma doença notificável; ou seja, um laboratório clínico que detecta sua presença não é obrigado a informar as autoridades de saúde pública. Consequentemente, a real dimensão da propagação do gene é desconhecida. Mas em 2009 metade dos hospitais de Chicago havia descoberto o KPC em pelo menos alguns de seus pacientes. Um ano depois, a proporção de hospitais da cidade que reportavam a presença do gene havia saltado para 65%. No final de 2010, a superbactéria já havia infectado gravemente pacientes hospitalares em 37 estados americanos. Quando o CDC começou a rastrear a superbactéria, as autoridades constataram que os hospitais estavam despreparados para sua chegada. “Vimos reiteradas vezes que uma cultura isolada enviada para nós acabaria não sendo a primeira em um hospital”, declara Patel, do CDC. “Ao verificarem seus dados anteriores, os cientistas descobriam casos prévios que simplesmente não tinham chamado a atenção de ninguém.”

Em fevereiro de 2005, um homem de 80 anos que sofria de câncer da próstata procurou atendimento de emergência perto de onde vivia, em Paris. Após ser internado, os médicos constataram que ele estava infectado por bactérias Klebsiella do KPC provavelmente oriundas de uma cirurgia a que se submetera em Nova York alguns meses antes. Essa foi a primeira propagação do KPC dos Estados Unidos para outro país de que se tem conhecimento; mas não a última. Pouco tempo depois, organismos portadores de KPC foram detectados na Colômbia, no Canadá, na China e na Grécia. Em um hospital de Tel Aviv, essas bactérias provocaram um surto que afetou 45 pessoas e se alastrou por meio de pacientes e profissionais de saúde para a Inglaterra, Noruega, Suécia, Polônia, Finlândia, Brasil e Itália.

E AGORA?
DE ACORDO COM UMA DECLARAÇÃO da Organização Mundial da Saúde (OMS) em novembro passado, as autoridades da área de saúde agora consideram a disseminação da resistência a carbapenemas – de KPC, NDM-1 e outros genes – um “fenômeno de saúde pública de interesse internacional”. (Este ano, a agência internacional escolheu como tema do Dia Mundial da Saúde, em 7 de abril, a “Resistência antimicrobiana e sua propagação global”.) A declaração se deve, em parte, ao pouco que pode ser feito para inibir a propagação de organismos resistentes a carbapenemas: só alguns antibióticos ainda são eficientes para combatê-los e estão longe de ser perfeitos.

A maioria dessas infecções ainda responde à tigeciclina, medicamento mais recente, e à colistina, um antibiótico descoberto décadas atrás. A tigeciclina, liberada em 2005, foi a primeira de uma nova classe de antibióticos chamada glicilciclinas e, como as bactérias nunca tinham sido expostas ao seu mecanismo de ação, têm sido lentas para desenvolver resistência. Mas a tigeciclina não se dispersa bem no sangue ou na bexiga, o que a torna ineficaz para combater infecções da corrente sanguínea e do trato urinário provocadas pelo KPC e o NDM-1. (Além disso, no ano passado, o FDA atualizou o rótulo da tigeciclina e acrescentou a advertência de que alguns pacientes com infecções graves inexplicavelmente correm maior risco de morte.) A colistina, em contraposição,
pertence a um pequeno grupo de medicamentos, chamados polimixinas, que remonta à década de 1940. Ela tem seus próprios problemas: além de danificar os rins, ela não penetra bem nos tecidos. Essas restrições impediram que fosse amplamente utilizada durante décadas e pode ser justamente isso que preservou sua utilidade durante tanto tempo – à medida que seu emprego aumentou nos últimos anos, a resistência a ela também se intensificou.

Mas além da tigeciclina e da colistina praticamente não temos nada. Entre 1998 e 2008, o FDA aprovou 13 novos antibióticos. Apenas três deles tinham mecanismos de ação inéditos – algo contra o que as bactérias ainda não têm resistência. Em 2009, a Sociedade Americana de Doenças Infecciosas somou os esforços de pesquisa para criar novos antibióticos. Entre as centenas de pedidos de aprovação para medicamentos submetidos anualmente ao FDA, 16 antibióticos em algum estágio de desenvolvimento. Oito deles destinavam-se ao tratamento de bactérias Gram-negativas, mas o número de remédios que de fato podiam ser utilizados contra organismos altamente resistentes era nulo.
Essas estatísticas defendem a tese de que, sem afirmá-lo explicitamente, a maior parte da indústria farmacêutica decidiu que é um desafio muito grande desenvolver medicamentos para combater infecções resistentes a carbapenemas que só podem ser utilizados pouco tempo antes que surja nova resistência e não vale a pena pesquisar e desenvolvê-los. “Estamos chegando ao ponto em que precisamos começar a investir seriamente muito dinheiro em compostos novos – algo que nunca vimos antes e, mais importante, que as bactérias também não viram antes”, adverte Walsh. “E não necessitamos de apenas um ou dois. Precisamos de 10 ou 20.”

A expansão da epidemia obrigou os hospitais a reavaliar suas próprias medidas de assepsia. Os que conseguiram controlar as bactérias dizem que o esforço exige um esforço descomunal. Seus protocolos incluem higienizar os pacientes diariamente com antissépticos e limpar todas as superfícies em seus quartos, incluindo cantos e frestas de monitores e computadores a cada 12 horas. “Preocupo- me com a desinfecção de superfícies. É onde os hospitais tipicamente pecam”, relata Michael Phillips, chefe do departamento de controle de infecções do Centro Médico Langone, onde ocorreu o surto inicial em Nova York. Phillips ajudou a desenvolver um inédito projeto chamado “equipe limpa”, que reúne peritos em controle de infecções com o pessoal de manutenção do edifício hospitalar. A equipe eliminou a ocorrência de várias infecções decorrentes da assistência médico-hospitalar nos primeiros seis meses.

As mais recentes notificações de KPC mostram precisamente o quanto os profissionais de saúde devem ser obstinados por limpeza. No ano passado, 28 pacientes em dois hospitais franceses foram infectados por Klebsiella resistente por meio de endoscópios, tubos flexíveis de fibras ópticas inseridos pela garganta até o trato digestivo. Os hospitais acreditavam ter esterilizado seus equipamentos, mas a KPC passara despercebida.

As equipes de profissionais da saúde também estão intensificando a vigilância, na esperança de identificar pacientes portadores de bactérias resistentes para que sejam isolados antes de infectar outros. A França, por exemplo, criou o teste obrigatório com esfregões retais para todos os pacientes que foram hospitalizados em outros países. O exame, realizado no primeiro dia subsequente à sua admissão em um hospital francês, visa verificar a presença de uma infecção resistente a multimedicamentos. “Em meu hospital recebemos um paciente transferido do Marrocos que era portador de resistência a carbapenemas”, relatou Patrice Nordmann, chefe dos departamentos de bacteriologia e virologia do Hôpital Bicetre, em Paris, que tratou o primeiro caso francês de KPC, em 2005. “Isolamos o paciente, soamos o alarme e evitamos um surto.” Em 2009, o CDC publicou diretrizes abrangentes para ajudar os hospitais a controlar bactérias resistentes a carbapenemas. A agência não recomendou a estratégia francesa de testar todos os pacientes antes de admiti-los argumentando que as bactérias ainda estavam distribuídas de forma muito desigual pelo país para justificar o custo e tempo gasto pelos funcionários.

Manter organismos resistentes a carbapenemas fora de hospitais não é importante apenas para controlar surtos entre pacientes debilitados. É também imprescindível para prevenir sua disseminação entre os profissionais de saúde. Quale e outros que documentaram a propagação da KPC em Nova York especulam que algumas dessas bactérias podem ter sido transportadas involuntariamente por médicos, enfermeiras e equipes de nível intermediário que trabalhavam em várias instituições. Mais importante ainda é impedir que bactérias portadoras de KPC compartilhem seus genes de resistência com outras espécies bacterianas, como a E. coli, presentes no hospital, mas que também prosperam fora dele. Uma E. coli fortifi cada por KPC poderia escapar da instituição, ficando fora do alcance de qualquer esquema de vigilância.

Olhando para o futuro, os pesquisadores preveem que linhagens de bactérias gram- negativas completamente resistentes surjam muito antes que os medicamentos que poderiam combatêlas. Alguns nem precisam imaginar que isso aconteça; eles já viram isso acontecer. Há três anos, médicos do Hospital St. Vincent’s, em Manhattan, trataram dois casos de Klebsiellas resistentes a tudo o que existia em seus arsenais. Um paciente sobreviveu. O outro morreu. “É uma raridade para um médico no mundo desenvolvido ter um paciente vítima de uma infecção avassaladora para a qual não existem opções terapêuticas”, escreveram eles em uma revista de medicina. “Não tínhamos um tratamento eficaz a oferecer.” A não ser que a evolução bacteriana desacelere ou que o desenvolvimento de medicamentos acelere, casos como esse em breve poderão tornar-se muito mais comuns.