Reportagem
edição 80 - Janeiro 2009
Mágica e truques que iludem o cérebro
Mágicos há séculos exploram os limites da cognição e da atenção. Agora, neurocientistas começam uma corrida em busca de um tempo perdido
 
Misha Gravenor
OS MÁGICOS PENN & TELLER executam uma versão atualizada do clássico “truque da serra” que ainda cria uma ilusão inesquecível (Penn está operando a serra; Teller é sua vítima “pronto para qualquer parada”). Neurocientistas estão adaptando os métodos da mágica em diversos tipos de experimento, entre eles o estudo de como o cérebro responde a percepções que parecem violar a realidade.
O refletor se acende sobre a assistente. A mulher de vestido branco curtíssimo é uma fonte luminosa que irradia beleza do palco para o público. O Grande Tomsoni anuncia que irá transformar a cor do vestido dela em vermelho. Tensos, sentados nas poltronas, os espectadores se concentram na mulher, gravando a imagem dela nas retinas. Tomsoni bate palmas e os holofotes se apagam rapidamente, antes de criarem uma atmosfera vermelha. A mulher agora está inundada pela vermelhidão dos projetores.

Mas esperem! Mudar a cor com um holofote não era exatamente o que o público tinha em mente. O mágico pára na lateral do palco, olhando alegremente para sua brincadeirinha. Sim, ele admite ter sido um truque barato; o que ele prefere, explica diabolicamente. Mas temos de concordar, o vestido dela ficou vermelho – junto com todo o resto. Então, o perdoe, e preste atenção mais uma vez em sua bela assistente enquanto ele acende a luz para o próximo truque. Ele bate palmas e as luzes baixam de novo; depois, o palco é coberto por uma imensidão de branco. Espere! O vestido dela realmente ficou vermelho. O Grande Tomsoni conseguiu mais uma vez!

O truque e a explicação dada por John Thompson (conhecido como o Grande Tomsoni) revelam um profundo conhecimento intuitivo dos processos neurais que acontecem no cérebro dos espectadores – um tipo de entendimento que nós, neurocientistas, podemos usar para nosso benefício científico. Veja como o truque funciona. Quando Thompson apresenta sua assistente, o vestido branco e justo dela, silenciosamente, leva os espectadores a acreditar que nada – outro vestido certamente não – poderia estar escondido sob o vestido branco. Essa suposição razoável, é claro, está errada. A mulher atraente em seu vestido apertado também ajuda a atrair a atenção das pessoas para onde Thompson quer – o corpo da mulher. Quanto mais olham para ela, menos percebem os dispositivos dissimulados no chão, e mais adaptados se tornam seus neurônios retinais à brancura da luz e à cor que percebem.
Durante a rápida fala de Thompson depois da pequena “piada”, o sistema visual de cada espectador passa por um processo cerebral chamado de adaptação neural. A reação de um sistema neural a um estímulo constante (como medida pela taxa de disparo dos neurônios importantes) diminui com o tempo. É como se os neurônios ignorassem efetivamente um estímulo constante para guardar energia e sinalizar que um estímulo está mudando. Quando cessa o estímulo constante, os neurônios adaptados disparam uma resposta “de ricochete”, conhecida como pós-descarga.

Nesse caso, o estímulo de adaptação é o vestido iluminado de vermelho, e Thompson sabe que os neurônios retinais dos espectadores irão ricochetear por uma fração de segundo antes de as luzes se apagarem. O público continuará vendo uma imagem residual vermelha na forma da mulher. Em menos de um segundo, um alçapão se abre no palco, rapidamente, e o vestido branco, preso levemente ao corpo com velcro e amarrado a cabos invisíveis sob o palco, é retirado do corpo dela. Depois, as luzes se acendem.

Dois outros fatores fazem o truque funcionar. Primeiro, a luz é tão intensa antes de o vestido ser retirado que, quando apagada, o espectador não consegue perceber os rápidos movimentos dos cabos e o vestido branco desaparecendo sob o palco. A mesma cegueira temporária pode nos dominar quando saímos de uma rua ensolarada e entramos em uma loja mal iluminada. Segundo, Thompson faz o truque verdadeiro só depois de o público pensar que já acabou. Com isso ele ganha uma vantagem cognitiva importante – os espectadores não estão procurando um truque naquele momento crítico, e por isso relaxam brevemente seus olhares atentos.

A Nova Ciência da Neuromágica
O truque de Thompson ilustra muito bem a essência da mágica de palco. Os mágicos são, acima de tudo, artistas da atenção e da consciência. Eles manipulam o foco e a intensidade da nossa consciência. Isso é feito em parte pelo uso de combinações desconcertantes de ilusões visuais (como as imagens residuais), ilusões ópticas (fumaça e espelhos), efeitos especiais (explosões, tiros falsos, controles de iluminação regulados com precisão), prestidigitação, recursos secretos e artefatos mecânicos (“apetrechos”).
Mas o instrumento mais versátil na bagagem dos truques é a capacidade de criar ilusões cognitivas. Assim como ilusões visuais, as ilusões cognitivas mascaram a percepção da realidade física. E, de modo diferente, sua natureza não é sensorial. Elas requerem funções de alto nível como atenção, memória e inferência causal. Com todas essas ferramentas à disposição, mágicos experientes tornam praticamente impossível a percepção dos processos que realmente estão acontecendo – dando a impressão de que a única explicação para os acontecimentos é a mágica.

Os neurocientistas estão apenas começando a se inteirar das habilidades dos mágicos em manipular a atenção e a cognição. Obviamente os objetivos da neurociência são diferentes das intenções dos mágicos; os neurocientistas querem entender o cérebro e as bases neurais das funções cognitivas, enquanto os mágicos têm como objetivo principalmente explorar as fraquezas cognitivas. Contudo, as técnicas desenvolvidas pelos mágicos ao longo de séculos de ilusionismo também podem ser instrumentos preciosos nas mãos dos neurocientistas, acrescentando e talvez sofisticando os instrumentos já em uso experimental.

Os neurocientistas estão se familiarizando com os métodos da mágica ao submeter a própria mágica ao estudo científico – em alguns casos demonstrando pela primeira vez como alguns de seus métodos atuam no cérebro. Estudos feitos até agora sobre a mágica confirmam o que se conhece sobre a cognição e a atenção a partir de trabalhos anteriores na psicologia experimental. Um cínico discutiria essas iniciativas com argumentos como “para que mais um estudo que simplesmente confirma o que já é conhecido?”. Mas críticas desse tipo não consideram a importância e o propósito dos estudos. Ao investigar as técnicas de mágica, neurocientistas se familiarizam com métodos que podem adotar para seus próprios objetivos. Na verdade, acreditamos que a neurociência cognitiva poderia ter avançado mais rapidamente se os investigadores tivessem explorado mais cedo as intuições dos mágicos. Ainda hoje os mágicos devem ter vários truques guardados na manga que os neurocientistas não conhecem.

Ao usar as ferramentas da mágica, os neurocientistas esperam aprender como desenvolver experimentos mais vigorosos e criar ilusões visuais e cognitivas mais eficazes para explorar as bases neurais da atenção e da consciência. Essas técnicas não só tornariam possíveis os estudos experimentais da cognição com sujeitos mais espertos e altamente atentos, mas também levariam a diagnósticos e métodos de tratamento para pacientes que sofrem de déficits cognitivos específicos – como déficits de atenção resultantes de traumatismo cerebral, TDAH (transtorno de déficit de atenção com hiperatividade) e mal de Alzheimer, entre outros. Os métodos da mágica também podem ser colocados em prática para “induzir” pacientes a se concentrarem nas partes mais importantes de sua terapia, evitando distrações que provocam confusão e desorientação.
Os mágicos usam o termo geral “despiste” (misdirection) para se referir à prática de afastar a atenção do espectador de uma ação secreta. Na linguagem dos mágicos, o despiste leva a atenção do público para o “efeito”, afastando-o do “método”, do segredo por trás do efeito. Tomando alguns termos da psicologia cognitiva, classificamos o despiste como “patente” e “encoberto”. O despiste é patente se o mágico direciona o olhar do espectador para longe do método – talvez pedindo apenas que o público olhe para determinado objeto. Quando o Grande Tomsoni apresenta sua adorável assistente, por exemplo, ele garante que todos os olhares estejam sobre ela.

Mas o despiste “encoberto” é uma técnica mais sutil; aqui, o mágico também afasta o foco de atenção do espectador – ou foco de suspeita – do método, mas sem necessariamente redirecionar o seu olhar. Sob a influência do despiste encoberto, os espectadores podem olhar diretamente para o método por trás do truque sem nenhuma consciência dele.

A neurociência cognitiva já reconhece pelo menos dois tipos de despiste encoberto. No que é chamado de cegueira para a mudança, as pessoas não conseguem perceber que alguma coisa em relação à cena é diferente de como era antes. A mudança pode ser esperada ou não, mas o traço principal é que os observadores não a percebem olhando para a cena a qualquer momento no tempo. Em vez disso, o observador deve comparar o estado pós-mudança com o estado pré-mudança.

Muitos estudos mostraram que as mudanças não precisam ser sutis para produzir a cegueira para a mudança. Até mesmo alterações extremas em uma cena visual passam despercebidas se ocorrem durante uma interrupção passageira como uma piscada, um movimento rápido dos olhos (em que o olho ligeiramente salta de um ponto para outro) ou uma cintilação da cena. O vídeo “truque das cartas que mudam de cor” (color-changing card trick), feito pelo psicólogo e mágico Richard Wiseman da University of Hertfordshire, na Inglaterra, é um excelente exemplo do fenômeno (disponível online em www.youtube.com/watch?v=voAntzB7ExE). Na demonstração de Wiseman – é preciso ver para entender – os espectadores não percebem mudanças de cor que acontecem fora da área delimitada pela câmara. Vale notar que, apesar do nome, o vídeo do truque das cartas não usa mágica para provar o que quer.
A cegueira por desatenção difere da cegueira para a mudança visto que não há necessidade de comparar a cena presente com uma cena lembrada. Em vez disso, as pessoas não percebem um objeto inesperado que está completamente visível bem na frente delas. O psicólogo Daniel J. Simons inventou um exemplo clássico do gênero. Simons e o psicólogo Christopher F. Chabris, ambos da Harvard University, pediram que observadores contassem quantas vezes um time de jogadores de basquete passava a bola um para o outro, enquanto ignoravam os passes feitos por três outros jogadores. Quando se concentraram na contagem, metade dos observadores não conseguiu perceber que uma pessoa vestindo uma fantasia de gorila passou pela cena (o gorila até pára um pouco no centro da cena e bate no peito). Para criar o efeito, não foi necessário nenhuma interrupção abrupta ou distração; a tarefa de contagem era tão absorvente que muitos observadores que olhavam diretamente para o gorila nem sequer o perceberam.

Enganando o olho ou o cérebro?
Os mágicos consideram a forma oculta do despiste mais elegante que a forma patente. Mas os neurocientistas querem saber que tipo de mecanismos neurais e cerebrais permitem que um truque funcione. Se o talento artístico dos mágicos deve ser adaptado pela neurociência, os neurocientistas querem entender que tipos de processos cognitivos são explorados por esse talento.

Talvez o primeiro estudo a relacionar a percepção mágica com a medição fisiológica tenha sido publicado em 2005 pelos psicólogos Gustav Kuhn, da Durham University, na Inglaterra, e Benjamin W. Tatler da University of Dundee, na Escócia. Os dois pesquisadores mediram os movimentos dos olhos de observadores, enquanto Kuhn, que também é mágico, fazia um cigarro “desaparecer” jogando-o debaixo de uma mesa. Um de seus objetivos era determinar se os observadores não percebiam o truque porque não estavam olhando na direção certa, no tempo certo, ou porque não prestaram atenção, não importa a direção para onde olhassem. Os resultados foram claros: não fazia diferença para onde olhavam.

Um estudo semelhante com outro truque de mágica, a “ilusão da bola que desaparece”, traz indícios de que o mágico está manipulando a atenção dos espectadores em um alto nível cognitivo; a direção do olhar não é crucial para o efeito. Na ilusão da bola que desaparece, o mágico começa jogando uma bola para cima e pegando-a diversas vezes sem maiores problemas. Depois, na última jogada, ele só tem a intenção de arremessar a bola. A cabeça e os olhos dele seguem a trajetória ascendente de uma bola imaginária, mas em vez de jogar a bola, ele a esconde na mão secretamente. O que a maioria dos espectadores percebe, no entanto, é que a bola (não lançada) sobe – e depois desaparece no ar.
No ano posterior à sua pesquisa com Tatler, Kuhn e o neurologista Michael F. Land, da University of Sussex, na Inglaterra, descobriram que o olhar dos espectadores não aponta para onde eles próprios afirmam ter visto a bola sumir. A descoberta sugere que a ilusão não engana os sistemas cerebrais responsáveis pelos movimentos dos olhos dos espectadores. Kuhn e Land concluíram que, ao contrário, os movimentos dos olhos e da cabeça do mágico foram cruciais para a ilusão, porque secretamente redirecionam o foco de atenção dos espectadores (em vez do olhar) para a posição prevista da bola. Os neurônios que responderam ao movimento implícito da bola sugerido pelos movimentos dos olhos e da cabeça do mágico encontram-se nas mesmas áreas visuais do cérebro que os neurônios sensíveis ao movimento real. Se o movimento implícito e o real ativam circuitos neurais semelhantes, talvez não seja surpresa que a ilusão pareça tão real.

Kuhn e Land criaram a hipótese de que a bola que desaparece deve ser um exemplo do “momentum representacional”. A posição final de um objeto em movimento que desaparece é percebida mais distante ao longo de seu trajeto do que sua real posição final – como se a posição prevista tivesse extrapolado a partir do movimento que acabou de acontecer.

Mais ferramentas de truques
Muitas vezes os espectadores tentam reconstruir truques de mágica para entender o que aconteceu durante o espetáculo – afinal, quanto mais o observador tenta (e não consegue) entender o truque, mais parece que foi “mágica”. Por sua vez, os mágicos costumam desafiar o público a descobrir seus métodos, por exemplo, “provando” que um chapéu está vazio ou que o vestido da assistente é apertado demais para esconder outro vestido por baixo. Praticamente tudo o que ocorre é feito para que a reconstrução seja o mais difícil possível, por meio do despiste.

Mas a cegueira para a mudança e a cegueira por desatenção não são os dois únicos tipos de ilusões cognitivas que os mágicos tiram do chapéu. Suponha que um mágico precise levantar a mão para fazer um truque. Teller, integrante do grupo de ilusionismo conhecido como Penn & Teller, explica que se ele ergue a mão sem nenhum motivo aparente, é mais provável que levante suspeitas do que se fizesse um gesto com a mão – como arrumar os óculos ou coçar a cabeça – que pareça natural ou espontâneo. Para os mágicos, esses gestos são conhecidos como “comunicando o movimento”.
Suposições não-ditas e informações implícitas também são importantes tanto para a percepção de um truque quanto para sua reconstrução. Os mágicos James Randi (“the Amazing Randi”) observa que é mais fácil convencer os espectadores a aceitar sugestões e informações implícitas que asserções diretas. Por essa razão, o espectador deve lembrar, na reconstrução, das sugestões implícitas como se fossem provas diretas.

Os psicólogos Petter Johansson e Lars Hall, ambos da Universidade de Lund, na Suécia, junto com seus colegas, aplicaram essa e outras técnicas de mágica no desenvolvimento de uma forma completamente nova de abordar questões neurocientíficas.

Eles apresentaram pares de figuras de rostos femininos para pessoas novatas em experimentos e pediram que escolhessem o mais atraente. Em algumas tentativas, eles tinham de descrever as razões da escolha. Algumas vezes os pesquisadores usavam uma técnica de prestidigitação, desconhecida para os sujeitos, aprendida com um mágico profissional chamado Peter Rosengren, para trocar um rosto pelo outro – depois de os sujeitos terem feito sua escolha. Assim, para os pares que foram manipulados secretamente, o resultado da escolha do sujeito se tornava oposta à intenção que ele tinha anteriormente.

Estranhamente, os sujeitos perceberam a mudança em apenas 26% de todos os pares manuseados. Mais surpreendente ainda, quando as pessoas tinham de dizer as razões de suas escolhas em um teste manipulado, confabulavam para justificar o resultado – que era o oposto de sua escolha verdadeira. Johansson e seus colegas chamaram o fenômeno de “cegueira para a escolha”. Sugerindo tacitamente, mas de maneira firme, que os sujeitos já tinham feito uma escolha, os investigadores foram capazes de justificar as escolhas – até mesmo escolhas que não tinham feito.
O Ladrão que Roubou seu Cérebro

Técnicas para desviar a atenção também podem ser apreendidas a partir das habilidades dos batedores de carteira. Esses ladrões, que geralmente agem em lugares públicos abarrotados, confiam amplamente no desvio de atenção baseado em aspectos sociais – contato pelo olhar, contato corporal e invasão do espaço pessoal da vítima, ou “alvo”. Batedores de carteira também movem suas mãos de forma distinta dependendo do propósito existente.

Eles podem completar um caminho curvo com as mãos se quiserem atrair a atenção do alvo para toda a trajetória do movimento, ou podem fazer um caminho rápido e linear se querem tirar a atenção do trajeto e rapidamente mudar a atenção do alvo para a posição final.

As bases neurocientíficas dessas manobras são desconhecidas, mas nosso colaborador Apollo Robbins, batedor de carteiras profissional, ressaltou que dois tipos de movimentos são essenciais para desviar a atenção do alvo de modo eficaz. Assim foram propostas diversas explicações possíveis e passíveis de teste.

Uma proposta é que os movimentos curvos e retos da mão ativam dois sistemas de controle distintos no cérebro para mover os olhos. O sistema “de busca” controla os olhos quando eles seguem objetos que se movimentam suavemente, enquanto o sistema “sacádico” controla os olhos por meio do sistema de busca do alvo, e os movimentos rápidos e retilíneos podem levar o sistema rápido dos olhos a assumir o controle.

Assim, se o sistema de busca do alvo é fixado na trajetória curva da mão do batedor de carteiras, o centro da visão do alvo pode ser desviado do lugar onde se esconde o ladrão. E se os movimentos rápidos e retilíneos ativam o sistema sacádico do alvo, o batedor tem a vantagem de a visão do alvo ser suprimida enquanto o olho salta de um ponto ao outro. (O fenômeno é bem conhecido nas ciências da visão como supressão sacádica.)
Outra explicação possível para os deslocamentos distintos das mãos é que os movimentos curvos podem ser perceptivelmente mais visíveis que os lineares, e por isso chamam mais a atenção. Se for verdade, somente o sistema de atenção do cérebro – e não qualquer sistema de controle para os movimentos dos olhos – é afetado pelo desvio de atenção manual do batedor de carteiras.

Nossos estudos anteriores mostram que as curvas e os cantos dos objetos são mais salientes e geram uma atividade cerebral mais intensa que extremidades retas. É possível que isso se deva ao fato de curvas e cantos acentuados serem menos previsíveis e redundantes (e, portanto, mais curiosos e informativos) que extremidades retas. Pelo mesmo padrão, trajetórias curvas são menos redundantes, e por isso mais salientes que as retilíneas.

As possibilidades de usar a mágica como fonte de ilusão cognitiva no isolamento de circuitos neurais responsáveis por funções cognitivas específicas parecem intermináveis.

Consciência no Cérebro Condicionado
Neurocientistas recentemente se apropriaram de uma técnica da mágica que faz com que voluntários associem dois eventos como causa e efeito enquanto imagens de seu cérebro eram gravadas. Quando o evento A precede o evento B, geralmente concluímos que, de um jeito certo ou errado, A causa B. O mágico habilidoso aproveita-se dessa predisposição ao certificar-se de que o evento A (digamos, derramar água em uma bola) sempre precede o evento B (a bola desaparecer). Na verdade, A não causa B, mas sua aparência anterior ajuda o mágico a fazer com que seja dessa forma. Psicólogos cognitivos chamam esse tipo de efeito de correlação ilusória.

Em um estudo feito em 2006 por Kuhn e pelos neurocientistas cognitivos Bem A. Parris e Tim L. Hodgson, ambos da University of Exeter, na Inglaterra, foram exibidos vídeos de truques de mágica que envolviam violações aparentes de causa e efeito para sujeitos submetidos a ressonância magnética. As imagens do cérebro dessas pessoas foram comparadas com as de um grupo de controle: pessoas que assistiram a vídeos sem violação de causa aparente. Os pesquisadores descobriram uma ativação maior no córtex cingulado anterior entre os sujeitos que assistiram truques de mágica que entre os controles. A descoberta sugere que essa área do cérebro pode ser importante para interpretar as relações causais.

O trabalho de Kuhn e de seus colegas só dá os primeiros indícios do poder das técnicas de mágica para manipular a atenção e a consciência durante o estudo da psicologia cerebral. Se os cientistas aprenderem a usar os métodos da mágica com a mesma habilidade dos mágicos profissionais, também serão capazes de controlar a consciência de modo preciso e em tempo real. Se relacionarem o conteúdo dessa consciência com o funcionamento dos neurônios, terão os meios para explorar alguns mistérios da própria consciência.
CONCEITOS-CHAVE
Jean-François Podevin
- Truques de mágica geralmente são feitos por meio do despiste encoberto, de modo que o espectador não preste atenção no “método” que faz a mágica funcionar.

- Imagens cerebrais mostram que algumas regiões estão especialmente ativas durante certos tipos de truques de mágica.

- Neurocientistas estão examinando truques de mágica em busca da utilidade que possam ter em estudos experimentais que exploram aspectos da consciência, não necessariamente fundados na realidade sensorial comum. Os editores
ILUSÕES COGNITIVAS
Neurocientistas estão estudando as formas que os mágicos usam para explorar lapsos mentais, entre elas:

CEGUEIRA PARA A MUDANÇA
O observador não percebe mudanças feitas em uma cena durante uma breve interrupção.
EXEMPLO: A cor dos acessórios é modificada entre as cenas de uma peça.

CEGUEIRA POR DESATENÇÃO
O espectador não percebe fatos que estão totalmente à vista.
EXEMPLO: Uma pessoa vestida de gorila transita em uma cena e passa despercebida.

CEGUEIRA PARA A ESCOLHA
O espectador explica as razões para uma escolha, mesmo que a escolha não tenha sido feita.
EXEMPLO: Um homem não percebe quando uma fotografia que escolheu é trocada por outra, em segredo, e explica sua “preferência” pela última.

CORRELAÇÃO ILUSÓRIA
Parece haver uma relação de causa e efeito entre dois eventos independentes.
EXEMPLO: O mágico balança a varinha e um coelho aparece.
[ILUSÕES VISUAIS] ENGANANDO O OLHO OU A MENTE
Cortesia de Jorge Otero-Millan Laboratory of Visual Neuroscience
Uma ilusão baseada na pintura Enigma, do artista francês Isia Léviant, costuma induzir à falsa sensação de movimento em fluxo nos anéis concêntricos (fixe o olhar no ponto central da figura). Mas a origem dessa ilusão está na mente ou no olho? A evidência era contraditória até que os autores e seus colegas mostraram, em outubro, que o movimento ilusório é causado por microssacadas – movimentos mínimos e involuntários do olho que ocorrem durante uma fixação visual. É essencial conhecer as funções do olho e da mente antes de usar as ilusões da mágica nas ferramentas experimentais da neurociência.
[CEGUEIRA PARA A MUDANÇA] VOCÊ CONSEGUE NOS IMPEDIR DE LER SUA MENTE?
JEFF NOBLE (Martinez-Conde e Macknik)
Você consegue explicar os fantásticos resultados do seguinte experimento de leitura mental feito por Clifford Pickover, prolífico autor de livros populares sobre ciência e matemática? Os editores da Scientific American simularam um teste de Pickover que você pode fazer aqui, ou tentar uma versão mais intrigante em http://sprott.physics.wisc.edu/pickover/esp.html. Usando o sistema dele de Percepção Extra-sensorial (PES), achamos que conseguiremos predizer o resultado correto de sua escolha com 98% de precisão. Para começar, escolha uma das seis cartas abaixo e memorize-a.

Diga em voz alta o nome da carta várias vezes para não esquecê-la. Quando tiver certeza de que a memorizou, circule um dos olhos na fileira abaixo. Agora, vá para a página 19 do site.
[CEGUEIRA POR DESATENÇÃO] COMO TIRAR MOEDAS DO AR
Misha Gravenor (Teller)
O mágico Teller confia no despiste e na prestidigitação para criar uma ilusão chamada de “O sonho do pão-duro”. Ele começa escondendo seis moedas na palma de cada mão, e depois aparentemente produz as moedas a partir de qualquer coisa que ele toque – seu próprio cabelo, a roupa dos espectadores, o espaço vazio – e joga as moedas em um balde de metal gerando fortes sons metálicos. O engano depende em parte de estímulos sociais, como posição da cabeça e direção do olhar.

-Depois de mostrar que o balde está vazio, Teller começa a produzir moedas em sua mão direita.

-Ao olhar para sua mão direita, ele desvia a atenção do público de sua mão esquerda. Mas é a mão esquerda, que segura o balde, onde joga as moedas escondidas.

-Na verdade, ele está apresentando sempre a mesma moeda na mão direita.

-Quando o público começa a suspeitar que Teller está simplesmente jogando moedas escondidas na mão direita, ele joga de uma vez só cinco ou seis moedas da mão direita. Isso assusta a platéia porque ele não poderia ter escondido 11 moedas na mão direita.

-Teller apresenta a última moeda escondida na mão direita e vira a mão para mostrar que a palma, de fato, está vazia.

-Espetaculosamente, Teller joga as 11 moedas para fora do balde enquanto segura a última moeda na mão direita.
ILUSÕES VISUAIS NA MÁGICA
Nem toda mágica é cognitiva. Explorar as propriedades bem conhecidas do sistema visual também pode levar a efeitos incomuns, entre eles:

COLHER TORTA
O mágico balança uma colher de modo que o cabo pareça flexível.

POR QUE FUNCIONA
Os neurônios do córtex visual sensíveis tanto ao movimento quanto a extremidades de uma linha respondem às oscilações de modo diferente que outros neurônios visuais. O resultado é uma aparente discrepância entre as extremidades de um estímulo e seu centro; um objeto sólido parece dobrar no meio.

RETENÇÃO DO DESAPARECIMENTO VISUAL
O mágico remove um objeto do campo visual, mas ele ainda fica visível durante determinado tempo.

POR QUE FUNCIONA
A pós-descarga neural produz imagens residuais por cerca de 100 milissegundos depois que um estímulo termina.

ESPIRAIS ROTATIVOS DE JERRY ANDRUS
Os espectadores olham para um disco rodando com três zonas de movimento em expansão e contração. Depois, quando olham para um objeto fixo, este também parece expandir e contrair.

POR QUE FUNCIONA
Neurônios se adaptam de modo diferente aos movimentos nas três zonas do campo visual.
[CEGUEIRA PARA A ESCOLHA] INDUZINDO NARRATIVAS FALSAS
De Nature Re views Neuroscien ce; 30 de julho de 2008, reimpresso com permissão de Macmillan Publishers Ltd (a–d)
Em um experimento foram mostrados pares de fotografias para os sujeitos (a) e pedido que escolhessem a imagem mais atraente (b). Depois de cada escolha os pesquisadores viravam as imagens para baixo (c) e usaram a prestidigitação para trocar algumas das imagens escolhidas pelas rejeitadas. A “escolha”, então, era virada para cima e os sujeitos tinham de explicar a preferência. Mesmo quando a escolha mostrada era na verdade a imagem rejeitada (d), muitos sujeitos “explicavam” sua escolha. A ânsia das pessoas em ajustar o que falsamente pensam ser suas escolhas em uma narrativa internamente consistente pode, dessa forma, substituir a lembrança de suas verdadeiras escolhas.
[A ARTE DE BATER CARTEIRA] DESPISTE MULTISSENSORIAL
CORTESIA DE APOLLO RO BBINS
Apollo Robbins que se descreve como ladrão profissional, demonstra que despistar o “alvo” para que olhe em uma direção impede que o alvo preste atenção em seus objetos de valor. Robbins confia na manipulação pelo toque, no espaço do próprio alvo e na visão despistada. Um vídeo impressionante de Robbins retirando de modo surpreendente o relógio de pulso de outro homem pode ser visto em http://tinyurl.com/6lhxy8
[CORRELAÇÃO ILUSÓRIA] COMO O CÉREBRO LIDA COM O “IMPOSSÍVEL”
COPYRIGHT BENJAMIN A. PARRIS E GUSTAV KUHN
Durante um experimento, vídeos de truques de mágica que parecem retratar relações causais impossíveis, como fazer uma bola desaparecer foram exibidos para alguns sujeitos, enquanto eram submetidos a ressonância magnética cerebral. Um grupo de controle viu vídeos bem parecidos, com a exceção de que nenhum truque de mágica foi usado. As áreas demarcadas do cérebro mostram onde a atividade neural adicional aconteceu quando os sujeitos viam os vídeos de mágica em vez dos vídeos de controle.
Nós Lemos Sua Mente
Retiramos sua carta!
Adivinhamos a carta que você escolheu na pág. 59? Se sim, o sistema PES de Pickover explica nossa resposta correta, ou há alguma explicação parecida? Não siga adiante a não ser que queira saber a resposta. Desistiu? Olhe mais uma vez as cartas na pág. 13 do site, depois compare-as com as cinco cartas deste quadro. Percebeu alguma diferença? Se o ato de circular um olho distraiu você, fazendo com que fosse enganado pelo truque (a maioria das pessoas é enganada), você é uma vítima do que os psicólogos chamam de cegueira para a mudança. Uma mudança – mesmo grande e óbvia – pode ser tudo menos invisível quando damos mais uma olhada.
PARA CONHECER MAIS
Failure to detect mismatches between intention and outcome in a simle decision task. Petter Johansson, Lars Hall, Sverker Sikström e Andreas Olsson, em Science, vol. 310, págs. 116- 119, 7 de outubro, 2005.

Attention and awareness in stage magic: turning tricks into research. Stephen L. Macknik, Mac King, James Randi, Apollo Robbins, Teller, john Thompson e Susana Martinez-Conde, em Nature Revies Neuroscience. Publicado previamente on-line; 30 de julho, 2008.

Microsaccades drive illusory motion in the enigma illusion. Xoana G.
Troncoso, Stephen L. Macknik, Jorge Otero-Millian, Susana Martinez-Conde, em Proceedings of the National Academy of Sciences USA , vol. 105, no 41, págs. 16033-16038, 14 de outubro, 2008.

Para vídeos dos mágicos mais importantes se apresentando no 2007 Magic of Consciousness Symposium, visite www.mindscience.org/magicsymposium
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