Reportagem
  
edição 65 - Outubro 2007
Mais peso na base da pirâmide social
Até recentemente se acreditava que nos países em desenvolvimento, como o Brasil, obesidade seria característica típica da elite socioeconômica. Estudos refutam essa interpretação
por Wolney Lisboa Conde e Carlos Augusto Monteiro
© Lalo de Almeida/Folha Imagem
Estudos sobre a relação entre nível socioeconômico dos indivíduos e presença de obesidade são bastante comuns nos países desenvolvidos. A revisão sistemática dessas pesquisas indica que, nesses países, a obesidade tende a ser mais freqüente nos estratos da população com menor renda, menor escolaridade e com ocupações de menor prestígio social, sendo essa tendência particularmente evidente entre mulheres adultas. Há até pouco tempo, admitia-se situação oposta nos países em desenvolvimento, onde a obesidade seria característica da elite socioeconômica. Estudos mais recentes demonstram, no entanto, grande heterogeneidade na relação entre nível socioeconômico e obesidade no mundo em desenvolvimento e evidências sugestivas de “migração” do sobrepeso do ápice para a base da pirâmide social nos países cujo Produto Interno Bruto (PIB) ultrapassa US$ 2.500 per capita.

Outra maneira de analisar a relação entre nível socioeconômico e obesidade é estudar a evolução da enfermidade ao longo do tempo em um mesmo país ou região, o que fazemos a seguir para o Brasil no período entre 1975 e 2003, empregando como marcador da condição social o nível de escolaridade alcançado pelos indivíduos.

Tendência ao Aumento de Peso

A tendência secular da obesidade no conjunto da população adulta brasileira, e em estratos dessa população constituídos com base na escolaridade alcançada pelos indivíduos, pode ser conhecida a partir de três inquéritos domiciliares probabilísticos realizados no país em 1975, 1989 e 2003 (Figura 1).

No sexo masculino, a prevalência global da obesidade aumenta uniforme e intensamente ao longo dos inquéritos: 89% no primeiro período de 14 anos (1975-1989) e 73% no segundo período de também 14 anos (1989-2003). No sexo feminino, a obesidade também apresenta importante crescimento no primeiro período (aumento relativo de 68%), mas quase não se altera no segundo (aumento relativo de somente 5%). Como resultado, ao longo dos três inquéritos o excesso de obesidade na população feminina, em relação à masculina, declina de quase três vezes (1975) para aproximadamente uma vez e meia (2003).
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Wolney Lisboa Conde e Carlos Augusto Monteiro Wolney Lisboa Conde é professor-doutor do Departamento de Nutrição e do Programa de Pós-Graduação em Nutrição em Saúde Pública da Faculdade de Saúde Pública da USP.
Carlos Augusto Monteiro é professor-titular do Departamento de Nutrição e do Programa de Pós-Graduação em Nutrição em Saúde Pública da Faculdade de Saúde Pública da USP, onde coordena o Núcleo de Pesquisas Epidemiológicas em Nutrição e Saúde (Nupens/USP).
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