|
 |
|
 |
|
 |
|
 |
|
|
|
 |
Reportagem |
|
|
| edição 14 - Julho 2003 |
 |
|
| Manipuladores cerebrais |
| Microrganismos podem manipular, muito melhor que nós, o circuito cerebral |
| por Robert M. Sapolsky |
Como grande parte dos cientistas, freqüento encontros profissionais, sendo um deles a reunião anual da Society of Neuroscience, organização mundial constituída pela maior parte dos pesquisadores que investigam o cérebro. É uma das experiências mais agressivas, intelectualmente falando. Imagine cerca de 28 mil de nós, cientistas ?nerds?, trancados em um único centro de convenções. Essa proximidade pode deixar qualquer um maluco depois de uma semana inteira ouvindo ? seja num restaurante, elevador ou banheiro ? discussões entusiasmadas sobre os axônios da lula.
O processo de atualização de conhecimentos científicos também não é nada fácil. A reunião apresenta uma sobrecarga enorme de informação: são 14 mil conferências e cartazes. Sem contar que, do subconjunto de cartazes de indispensável verificação, vários são inacessíveis: seja por causa da multidão entusiasmada à frente deles, por estarem num idioma que você nem mesmo reconhece ou ainda porque descrevem, inevitavelmente, cada experimento que você planejava para os próximos cinco anos. No meio disso tudo, esconde-se a compreensão compartilhada de que, apesar de zilhões de nós labutarmos como escravos sobre o assunto, ainda não sabemos nada sobre o funcionamento cerebral.
Meu próprio momento de humildade na conferência surgiu numa tarde ao me sentar nos degraus do centro de convenções. Sentia-me nocauteado por excesso de informação e ignorância generalizada. No momento em que meu olhar focou uma poça de água escura e estagnada no meio-fio, imaginei que algum microrganismo microscópico infestando o local provavelmente saberia mais sobre o cérebro que todos nós, neurocientistas, juntos.
O insight desmoralizante brotou de um ensaio extraordinário e atual sobre como certos parasitas controlam o cérebro de seus hospedeiros. A maioria de nós sabe que bactérias, protozoários e vírus têm meios incrivelmente sofisticados de usar o corpo de animais para seus próprios fins. Eles seqüestram nossas células, energia e estilo de vida para poderem prosperar. |
|
1 2 3 4 5 » |
| Robert M. Sapolsky é professor de ciências biológicas e neurologia da Universidade Stanford e pesquisador-associado do Museu Nacional do Quênia, onde estuda uma população de babuínos selvagens há mais de 25 anos. Concluiu seu dotourado em neuroendocrinologia na Universidade Rockfeller em 1984. Os campos de pesquisa de Sapolsky incluem morte neuronal, geneterapia e fisiologia de primatas. |
|
|
|
|
|
|
|
|