Reportagem
  
edição 34 - Março 2005
Maratona rumo ao cometa
A sonda espacial Rosetta, o maior projeto europeu para exploração inter-planetária, foi lançada com sucesso. A caçada ao cometa Chury já começou
por Thorsten Dambeck
O final de uma longa viagem. Esta será a provavél paisagem daqui 11 anos, quando o módulo de aterrissagem Philae da sonda Rosetta pousar no cometa ferruginoso - sempre ameaçada por emissões gasosas do núcleo, semelhantes a explosões
Svetlana Gerasimenko vive em Duchambe, a capital da república centro-asiática do Tadjiquistão. Nascida na Ucrânia, ela tem quase 60 anos de idade. É casada e recebe regularmente visitas de uma filha, dois filhos e quatro netos. Além do trabalho, ela gosta de plantas decorativas. Uma vovó comum? De forma nenhuma: ela foi a primeira a ver o cometa que será visitado pela sonda européia Rosetta, após uma viagem de dez anos. Será a primeira vez que uma nave espacial pousará num cometa. Junto com Klim Ivanovich Churyumov, a então jovem cientista viajou no início de 1969 para Alma Ata, no Cazaquistão. Com o telescópio de 50 cm Maksutow, do Instituto Astronômico, ela fotografou na noite de 12 de setembro diversos cometas. Uma foto parecia ter problemas: no centro da imagem, o filme dava a estranha impressão de ter perdido a sensibilidade, e havia menos estrelas que o esperado. A astrônoma ia jogar a foto fora, quando viu na borda um objeto nebuloso, que julgou ser o cometa “Comas Sola”. Engano seu, como percebeu em sua cidade natal, Kiev, ao analisar o material com exatidão. A foto mostrava um cometa até então desconhecido, que logo depois foi batizado com o nome de 67P/Churyumov-Gerasimenko.

Candidato Tímido
Entre os cientistas criaram-se apelidos carinhosos para o destino da principal missão da Agência Espacial Européia (ESA): “Tschuri”, chamam-no os alemães, “Chury”, os americanos; de forma mais técnica, ele também é chamado de “67P”, ou simplesmente “CG”. O cometa de órbita curta, que dá uma volta ao redor do Sol a cada 6,7 anos, é, todavia, um candidato tímido. O cometa 46P/Wirtanen, destino original da missão Euro, de U$S 1 bilhão, escapou dos engenheiros da ESA, após problemas com o foguete Ariane 5. Isso foi em 2003. Agora, desde 2 de março de 2004, Rosetta vai atrás do Chury. “Comparado com Wirtanen, o núcleo do 67P é bem maior”, explica o pesquisador Johannes Benkhoff, do Centro Alemão de Viagens Aeroespaciais (DLR, na sigla em alemão), em Berlim. Ele desenvolveu um modelo das propriedades físicas do núcleo do cometa. O núcleo é um rochedo pouco vistoso com o formato de uma pequena cidadela em meio a uma nuvem de gás e pó, chamada de coma pelos especialistas. Ela pode se transformar em uma cauda imponente nas proximidades do Sol. Com a sonda Giotto, a ESA teve a honra de fotografar pela primeira vez esse tipo de núcleo. “No caso do 67P estamos supondo que deve ser um objeto com a forma aproximada de um elipsóide de 4,8 por 3,7 km. O diâmetro médio provavelmente está por volta de 4 km, ao passo que o núcleo de Wirtanen mede apenas 1,5 km”, explica o físico de planetas Benkhoff.

Observações anteriores indicam que há no Chury uma formação de poeira comparativamente alta. Além disso, os pontos em que há atividade de formação de poeira parecem ser fenômenos locais, diferentemente do que ocorre no Wirtanen. “Para explicar a produção de gás e poeira do Wirtanen, devia-se considerar a atividade da superfície total de seu núcleo. No caso do Chury, são suficientes apenas 10% de sua superfície”, diz Benkhoff.

Embora o 67P já tenha dado um número enorme de voltas ao redor do Sol, ainda poderia haver em seu interior muitos elementos voláteis ou fluidos, segundo Benkhoff. Na realidade, cada aproximação com o Sol custa aos cometas uma porção de seu estoque de gases congelados, suas substâncias orgânicas e seu gelo, mas Chury até agora passou poucas vezes muito próximo ao Sol. Sua trajetória parece ter se desviado apenas recentemente na direção dele.
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Thorsten Dambeck É doutor em física e jornalista científico em Berlim.
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