Reportagem
  
edição 72 - Maio 2008
Metamorfose
O declínio mundial dos anfíbios é agravado pela desconexão entre o hábitat aquático dos girinos e o hábitat terrestre dos adultos, induzida pelas atividades humanas
por Carlos Roberto Fonseca, Carlos Guilherme Becker, Célio Fernando Baptista Haddad e Paulo Inácio Prado
CÉLIO HADDAD; MONTAGEM SIMONE OLIVEIRA VIEIRA
PERERECA-DA-FOLHAGEM (Phasmahyla cochranae), espécie endêmica da Mata Atlântica.
O suor escorria pelas têmporas. Há vários dias Carlos Guilherme Becker percorria a pé aquela paisagem à procura de sítios adequados para seu estudo de anfíbios. Na imagem de satélite, que guardava dobrada no bolso de trás do jeans, tudo era muito simples. Era uma imagem típica da Mata Atlântica. Pequenas ilhas de floresta rodeadas de pastagens. Sob o sol a pino a paisagem parecia muito menos plana que no papel. Não demorou muito tempo para perceber que a maioria dos fragmentos de floresta estava no cume dos morros enquanto os riachos corriam na planície. Como uma boa parte dos estudos de anfíbios é feita em locais com algum corpo d’água, por um momento lhe passou que talvez aquele não fosse um bom lugar para uma tese de mestrado. Alguns meses depois ficaria claro que aquela paisagem era de fato ideal para estudar o processo de desconexão de hábitat (habitat split, em inglês), um novo mecanismo que seria proposto na revista Science para explicar os misteriosos declínios mundiais dos anfíbios.

Apesar de pouco divulgado, os anfíbios são os animais mais ameaçados entre os vertebrados. Mais de 100 espécies já desapareceram nos últimos séculos – de forma mais acentuada nos últimos 30 a 40 anos –, outras centenas estão em declínio populacional e quase um terço das 5.743 espécies são consideradas ameaçadas de extinção. Inúmeras hipóteses foram propostas para explicar esses declínios e duas das mais aceitas – perda e fragmentação de hábitat – pareciam bastante adequadas no contexto da Mata Atlântica. Trata-se de uma típica situação de biogeografia de ilhas – teoria proposta em 1967 por dois eminentes ecólogos americanos, Robert MacArthur e Edward O. Wilson. Segundo essa teoria, grandes fragmentos florestais deveriam ter mais espécies que os pequenos devido às maiores taxas de colonização e menores de extinção. Está tudo nos livros texto.

Contudo, após uma visita em mais de 60 fragmentos de Mata Atlântica, em terras paulistas, a pesquisa identificou apenas três unidades de florestas cortadas por riachos. As demais eram “fragmentos secos”. Para sapos e pererecas esse não é um problema menor. A maioria dos anfíbios, por suas características, vive em dois mundos. Iniciam a vida como ovos e girinos em riachos, lagos ou outros corpos d’água, atravessam uma fase crucial quando se metamorfoseiam em jovens sapinhos, para finalmente mudar para um endereço em terra firme, onde crescem até a maturidade. Necessitam, obrigatoriamente, de um hábitat aquático e de outro terrestre para completar o ciclo de vida.
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