Reportagem
  
edição 72 - Maio 2008
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Metamorfose
O declínio mundial dos anfíbios é agravado pela desconexão entre o hábitat aquático dos girinos e o hábitat terrestre dos adultos, induzida pelas atividades humanas
por Carlos Roberto Fonseca, Carlos Guilherme Becker, Célio Fernando Baptista Haddad e Paulo Inácio Prado
CÉLIO HADDAD; MONTAGEM SIMONE OLIVEIRA VIEIRA
PERERECA-VERDE (Aplastodiscus leucopygius), que vive nas serras da Mantiqueira e do Mar, e é ameaçada pela fragmentação de seu hábitat
[continuação]

Discussões com orientador e co-orientador definiram que o trabalho testaria possíveis diferenças na fauna de anfíbios entre fragmentos com e sem riacho. Estudaria, ainda, a fauna associada aos riachos que correm pela planície descampada e a fauna das pastagens que se localizam entre os fragmentos secos e os riachos. Com esse delineamento a tese se enquadraria no projeto maior do orientador, com o objetivo de compreender como diferentes históricos de uso da terra influenciam a biodiversidade. Após enterrar 120 baldes transformados em armadilhas para sapos, estender 1.350 metros de guias plásticas para direcionar esses animais para as armadilhas e construir outros 1.200 metros de cerca para evitar interferir no ambiente das vacas, a coleta de dados foi iniciada.

Logo no início da estação reprodutiva, que coincide com o início das chuvas, ficou evidente que os sapos adultos que ocupavam os fragmentos secos estavam se deslocando ladeira abaixo, em direção aos riachos da planície. No final da estação chuvosa esse padrão se invertia. Eram os jovens que haviam passado pela metamorfose recentemente que deixavam o riacho à procura de algum fragmento de floresta que ainda não haviam visitado. Ou seja, para completar o ciclo de vida os sapos estavam obrigados a fazer uma arriscada migração por áreas inóspitas. Para sobreviverem, os sapos devem ser verdadeiras “metamorfoses ambulantes”.

Desconexão Causada pelo Homem
Quando a Mata Atlântica ainda era imensa e contínua, esse tipo de ameaça não existia. Os jovens sapinhos recém-metamorfoseados deixavam os riachos e já estavam na floresta. Mas, agora, o homem rompeu essa unidade. De um lado está o hábitat dos girinos, de outro, o ambiente dos adultos. Havia ocorrido um habitat split – termo cunhado por Carlos Roberto Fonseca e definido formalmente como “uma desconexão induzida pelo homem entre os hábitats utilizados por diferentes estágios de vida de uma espécie”.
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