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Reportagem |
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| edição 72 - Maio 2008 |
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| Metamorfose |
| O declínio mundial dos anfíbios é agravado pela desconexão entre o hábitat aquático dos girinos e o hábitat terrestre dos adultos, induzida pelas atividades humanas |
| por Carlos Roberto Fonseca, Carlos Guilherme Becker, Célio Fernando Baptista Haddad e Paulo Inácio Prado |
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CARLOS GUILHERME BECKER |
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| DOIS EXEMPLARES do sapo ,Chaunus ornatus cruzando a pastagem. Para completarem o ciclo de vida, esses anfíbios são obrigados a uma arriscada migração por áreas inóspitas. |
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[continuação]
Com base no conceito de habitat split – traduzido como desconexão de hábitats – formulamos uma predição: o aumento da desconexão de hábitats em uma paisagem levaria à diminuição da riqueza local de anfíbios. Se isso pudesse ser verificado, a desconexão de hábitats seria uma forte candidata para explicar os misteriosos desaparecimentos de anfíbios em escala global. A hipótese deveria ser testada e para isso seria necessário um grande número de levantamentos de fauna, capazes de permitir uma avaliação da riqueza de espécies de anfíbios em diferentes locais. Imediatamente o nome do herpetólogo Célio Fernando Baptista Haddad foi considerado. Célio e sua equipe vêm trabalhando com anfíbios em diferentes biomas brasileiros ao longo dos últimos 20 anos, e seu laboratório possui dados qualitativos e quantitativos de anfíbios que poderiam ser utilizados para testar a hipótese. Ele imediatamente aceitou o convite e passou a integrar a equipe. Além disso, precisava-se da colaboração de algum especialista da área de geoprocessamento para gerar as métricas da paisagem. Contatamos, então, Rômulo Fernandes Batista, que havia trabalhado na Unicamp, na equipe de Paulo Prado.
Não acreditei quando fiz meu primeiro gráfico de regressão com apenas cinco pontos. O padrão observado era idêntico ao de sua predição. Conforme a desconexão de hábitat aumentava, a riqueza de espécies de anfíbios diminuía. E os pontos estavam muito próximos da reta. Conforme os dados foram se acumulando, ficou cada vez mais claro que o padrão não mudaria. E algo inesperado... Uma análise estatística mais complexa demonstrou que a riqueza de espécies de anfíbios na paisagem era explicada pela desconexão de hábitat, mas não diretamente pela perda de hábitat e pela fragmentação conforme sugeriam os modelos existentes.
Além disso, outra predição se confirmou. Como a metamorfose de algumas espécies ocorre diretamente do ovo para sapinho, sem passar pela fase de girino, esses anfíbios podem completar com sucesso o seu ciclo de vida, mesmo em fragmentos secos, sem a presença de corpos d’água. A esconexão de hábitat não deveria ser um problema para essas espécies de desenvolvimento terrestre. E foi exatamente isso que observamos. A desconexão de hábitat afetou negativamente a riqueza de espécies de anfíbios com larva aquática (girinos), mas não afetou a riqueza de espécies e desenvolvimento terrestre. Touché! |
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