Reportagem
  
edição 72 - Maio 2008
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Metamorfose
O declínio mundial dos anfíbios é agravado pela desconexão entre o hábitat aquático dos girinos e o hábitat terrestre dos adultos, induzida pelas atividades humanas
por Carlos Roberto Fonseca, Carlos Guilherme Becker, Célio Fernando Baptista Haddad e Paulo Inácio Prado
FOTO: NILSON ALVES
PESQUISADOR CARLOS GUILHERME BECKER avalia espécime em campo na Mata Atlântica.
[continuação]

Como Enfrentar a Crise?
De longe, o pior tipo de desmatamento, do ponto de vista dos anfíbios, é aquele que destrói a mata ciliar – vegetação que margeia rios e lagos. Em uma paisagem, se toda a mata ciliar for removida, todos os fragmentos florestais estarão automaticamente desconectados dos corpos d’água e, com isso, os anfíbios padecem.

Ao menos teoricamente, pelo código florestal brasileiro (4.771/65), a mata ciliar deve estar preservada. Por lei, rios pequenos de até 10 metros de largura devem abranger pelo menos 30 metros de mata em suas margens. Conforme a dimensão do rio aumenta, o código prevê larguras de mata ciliar cada vez maiores, até os grandes rios da Amazônia, que devem ser protegidos por matas de pelo menos 500 metros de largura. Esse artigo do código florestal com certeza não foi feito especialmente para preservar anfíbios, mas, se estivesse sendo cumprido, estaria ajudando em muito a conservação de grande número de espécies.

Na prática, boa parte das matas ciliares da Mata Atlântica está comprometida. No estado de São Paulo, por exemplo, 76% das matas ciliares dos rios de médio e grande porte já foram destruídas. E a situação parece ainda mais agravada quando consideramos os pequenos riachos e córregos. Uma primeira lição a tirar disso é que não se pode permitir que esse padrão de ocupação humana continue se repetindo em regiões aonde ainda não chegou.

E quanto aos anfíbios da Mata Atlântica? Acreditamos que haja chance real para reversão da crise existente, e o decisivo, nesse caso, são projetos de restauração florestal. Há alguns anos a taxa de desmatamento vem caindo significativamente na Mata Atlântica. A conscientização ecológica aumentou a ponto de centenas de reservas públicas e privadas (RPPNs) terem sido criadas nas últimas décadas. A legislação que regula o reflorestamento foi modernizada em alguns estados, vetando o que a linguagem popular chama de “gato por lebre”, aqui espécies exóticas por nativas. Há uma conscientização por parte das empresas de que passivos ambientais não combinam com suas logomarcas. Todas essas mudanças apontam para um futuro mais promissor em que empresas e proprietários privados se dêem conta da necessidade de melhorar as condições de manutenção da biodiversidade, com efeito direto na nossa própria sobrevivência.

Projetos de restauração de matas ciliares, no entanto, estão longe de ser empreendimentos altruístas. Essas matas prestam serviços essenciais, ao regular os fluxos hídricos que controlam as enchentes, inibir o assoreamento dos rios, garantir o recurso pesqueiro, manter condições adequadas à biota aquática responsável por decompor e reciclar os dejetos humanos e assegurar a potabilidade da água.
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