|
 |
|
 |
|
 |
|
 |
|
|
|
 |
Reportagem |
|
|
| edição 78 - Novembro 2008 |
 |
|
| O admirável mundo das cobras-cegas |
| A biologia desses anfíbios é tão desconhecida que certos detalhes básicos, como os relacionados ao comportamento das mães durante o cuidado parental nunca foram avaliados |
| por Carlos Jared e Marta Maria Antoniazzi |
 |
|
 |
| ANFÍBIOS, de que as cecílias (cobras-cegas) são parte, foram os primeiros vertebrados a trocar o mundo das águas pela terra firme. Os registros mais antigos dessa mudança recuam a mais de 360 milhões de anos. Atualmente os anfíbios se agrupam em três ordens. |
 |
Ao final do revolucionário A origem das espécies Charles Darwin afirma que existe uma grandeza na visão evolucionista da vida. O acesso a essa grandeza seria a contemplação das “infinitas formas de grande beleza” que evoluíram – e continuam a evoluir – a partir de um ancestral muito simples. Essa afirmação, além de demonstrar a sensibilidade poética de Darwin, é de grande profundidade e nos remete aos fundamentos da morfologia dos seres vivos. O conceito da existência de uma linhagem – ou linhagens – de seres vivos transformando-se ao longo das gerações faz uma grande diferença na maneira de enxergar o mundo. A forma das espécies atuais reflete as mudanças sofridas ao longo de sua história evolutiva.
De todos os grupos dos seres vivos, talvez o que mais nos chame a atenção seja o dos vertebrados. Nós, os seres humanos, como mamíferos, partilhamos uma mesma origem com os peixes, anfíbios, répteis e aves. Pode-se afirmar que esses tipos de vertebrados são “variações sobre o mesmo tema”. Foi o interesse por esse tema – ou “design” – que nos conduziu ao estudo da morfologia dos anfíbios e répteis adaptados à vida no ambiente subterrâneo – ou fossório. A colonização desse tipo de ambiente, através das gradativas mudanças corporais e comportamentais, é um bom exemplo para demonstrar a plasticidade das espécies. E um dos aspectos mais interessantes da dinâmica do processo evolutivo é o fato de que várias adaptações de forma e função repetiram-se, independentemente, em diferentes grupos de seres vivos. Por exemplo, para o deslocamento fluido e eficiente no ambiente subterrâneo, é importante que não se tenha patas. Os atuais vertebrados fossórios eram inicialmente tetrápodos e, ao longo do processo de colonização do mundo subterrâneo, perderam seus membros. Parte dos cientistas acreditam que essa tenha sido a origem das serpentes a partir dos lagartos, e que, posteriormente, voltaram a colonizar – já sem as patas – o ambiente terrestre. Mas, além das serpentes, encontram-se lagartos, anfisbenas e anfíbios ápodos. O corpo anelado é um outro exemplo de adaptação presente em alguns vertebrados fossórios de várias linhagens, mas também nas minhocas. Esse tipo de corpo deve ter sido selecionado como o mais eficiente para a fossorialidade, já que facilita o deslocamento no solo, pois os seus anéis se apóiam firmemente, atritando contra as paredes dos túneis.
Os anfíbios foram os primeiros vertebrados a conquistar o ambiente terrestre. Os registros mais antigos datam da era Paleozóica, no período Devoniano, há mais de 360 milhões de anos. Atualmente a classe Amphibia agrupa três ordens: Anura, representada pelos sapos, rãs e pererecas, Urodela (ou Caudata), compreendendo as salamandras e tritões, e Gymnophiona (ou Apoda), representada pelas cecílias, também conhecidas popularmente como cobras-cegas. Aliás, o nome cecília é originário do latim caecus = cego, o que dá pleno sentido ao seu nome popular. |
|
1 2 3 4 5 6 7 8 9 » |
| Carlos Jared e Marta Maria Antoniazzi Carlos Jared é pesquisador do Laboratório de Biologia Celular do Instituto Butantan. Fez o doutorado em morfologia na Escola Paulista de Medicina (Unifesp) e o pós-doutorado em zoologia no Departamento de Zoologia da USP. Marta Maria Antoniazzi é pesquisadora e diretora do Laboratório de Biologia Celular do Instituto Butantan. Doutorou-se em Biologia Celular no Departamento de Genética e Biologia Evolutiva da USP. Ambos estão envolvidos no estudo da pele e dos anexos cutâneos de anfíbios e répteis brasileiros. Uma das linhas de pesquisa que desenvolvem está relacionada às adaptações morfológicas à vida, em ambientes de difícil colonização. Nesse contexto procuram entender o modo como a evolução molda o corpo de animais, atingindo soluções semelhantes por diferentes meios. |
|
|
|
|
|
|
|
|