Reportagem
  
edição 57 - Fevereiro 2007
O colapso dos rapanui
Ao contrário do que sugerem as teses vigentes sobre a extinção dessa civilização no Pacífico Sul, foram roedores, e não humanos, os grandes agentes da degradação ambiental na Ilha de Páscoa
por Terry L. Hunt
Harald Sund/Getty images
Todos os anos, milhares de turistas do mundo inteiro percorrem longas distâncias pelo Pacífico Sul para ver as famosas estátuas de pedra da Ilha da Páscoa. Desde 1722, quando os primeiros europeus ali chegaram, essas figuras megalíticas, os moais, intrigam visitantes. O interesse em saber como foram construídos e movidos levou a outra questão também enigmática: o que aconteceu às pessoas que os criaram?

De acordo com o relato corrente sobre o passado da ilha, os habitantes nativos - que se autodenominam rapanui e se referem à ilha como Rapa Nui - outrora formavam uma sociedade grande e próspera que entrou em colapso em conseqüência da degradação ambiental. Segundo essa teoria, um pequeno grupo de colonizadores da Polinésia teria chegado entre os séculos IX e X. Trezentos anos depois, o aumento populacional acelerado e a obsessão em construir moais levaram a uma pressão cada vez maior no ambiente. No final do século XVII, os rapanui haviam desmatado a ilha, o que resultou em guerras, fome e colapso cultural.

Jared Diamond, geógrafo da Universidade da Califórnia em Los Angeles, usou os rapanui como parábola sobre os perigos da destruição ambiental. "Em apenas alguns séculos", escreveu em 1995, "os habitantes da Ilha de Páscoa liquidaram suas florestas, levaram suas plantas e animais à extinção, e viram sua complexa sociedade rumar para o caos e o canibalismo. Estamos perto de seguir seu exemplo?" Em Colapso, publicado em 2005, Diamond descreveu Rapa Nui como "o exemplo mais claro de uma sociedade que se autodestruiu ao explorar demais os próprios recursos".

Dois elementos chave no relato de Diamond - que certamente não está sozinho ao descrever Rapa Nui como um conto sobre a moralidade ambiental - são o grande número de polinésios vivendo na ilha e sua tendência a derrubar árvores. Ao analisar estimativas sobre a população nativa, diz que não ficaria surpreso se excedesse 15 mil indivíduos em seu auge. Uma vez derrubadas todas as árvores do grande grupo de palmeiras, seguiram-se "fome, declínio da população e canibalismo". Quando os europeus chegaram, no século XVIII, encontraram somente um pequeno vestígio dessa civilização.
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Terry L. Hunt Leciona no Departamento de Antropologia da Universidade do Havaí em Manoa, onde dirige a Escola de Campo Arqueológica Rapa Nui. Formado em antropologia pela Universidade de Auckland, Nova Zelândia, e com especialização na Universidade de Washington, Hunt faz pesquisas de campo nas ilhas do Pacífico há três décadas.
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