Reportagem
  
edição 80 - Janeiro 2009
O legado de Galileu
400 anos depois do uso pioneiro da luneta por Galileu, a União Astronômica Internacional, com apoio da Unesco, comemora o Ano Internacional da Astronomia. Brasil tem programação ampla e diversificada
por Augusto Damineli e Tasso Napoleão
DESCOBERTA DE LUAS girando em torno de Júpiter, que Galileu chamou de “estrelas”, foi um dos argumentos para refutar a teoria aristotélica que propunha a imutabilidade do céu.
Ao longo de todo este ano a humanidade terá a oportunidade inédita de reafirmar uma profunda conexão com o Universo, estimulando a consciência de sua origem cósmica. A matéria que forma o corpo de cada um de nós, por exemplo, por familiar que possa parecer, na realidade foi forjada no interior de estrelas de grande massa que explodiram ao final de sua vida. Elas fertilizaram o espaço com os elementos químicos que elaboraram em seu interior, os tijolos básicos para a construção do mundo: de estruturas vivas a formas inanimadas.

No imaginário da maioria das pessoas, vivemos “aqui em baixo” numa realidade dura em que tudo se desfaz com rapidez, enquanto “lá em cima” é o lugar da eternidade, da matéria em estado mais puro. Esse quadro mental foi cristalizado ao longo de milênios e resistiu às grandes revoluções que se aceleraram nos últimos 500 anos. A disseminação do conhecimento pela escola, livros e mídia não foi capaz de dissolver essa memória partilhada mesmo por pessoas com instrução universitária.

A declaração de 2009 como o Ano Internacional da Astronomia pela Organização das Nações Unidas para a educação, a ciência e a cultura a (Unesco) tem o propósito de oferecer às pessoas, em todo o mundo, a oportunidade de (re)fazer suas ligações com uma realidade mais rica e complexa que os sentidos revelam, à primeira vista. O Brasil, junto com a Itália e a França, desde 2003 esteve na liderança da ação que levou a Unesco a apoiar a proposta feita pela União Astronômica Internacional (IAU) de declarar 2009 o Ano Internacional da Astronomia.

No início do século 21, a antítese entre a terra e o céu ainda está na base da cosmovisão humana. Assim, o motivo fundamental para a celebração deste ano internacional é a abertura de horizontes possibilitada pelo uso astronômico do telescópio por Galileu, em 1609. Além da homenagem a Galileu, o AIA é uma celebração do conhecimento e da inspiração que a humanidade acessou pela contemplação e observação do céu.
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Augusto Damineli e Tasso Napoleão Augusto Damineli, coordenador do Ano Internacional da Astronomia 2009 no Brasil, é professor titular do IAG-USP, onde foi chefe de departamento. Foi também presidente da Sociedade Astronômica Brasileira (SAB) e diretor dos Telescópios Gemini. Trabalha com estrelas de grande massa e é um dos “maridos” de eta Carinae. Tasso Napoleão é engenheiro químico pela USP e diretor científico da associação amadora REA (Rede Observacional de Astronomia), que se dedica a observações astronômicas e tem 140 associados no Brasil, Portugal, Uruguai, Argentina, Chile,Peru e Equador. Tem larga experiência na condução de projetos de astronomia amadora, incluindo com operação remota de telescópios, tendo descoberto 14 supernovas.
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