Reportagem
edição 101 - Outubro 2010
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O tempo pode acabar?
Sim. E não. O tempo acabar parece ser impossível e inevitável. Trabalho recente em física sugere uma resolução para este paradoxo.
por George Musser
[continuação]

Assim também o tempo. Se você cair em um buraco negro, o tempo em seu relógio depende da distância a que você está do centro do buraco, que é defi nido dentro da dimensão espacial que derrete. Conforme essa dimensão se desintegra, seu relógio começa a girar descontroladamente, e se torna impossível dizer que os eventos acontecem em tempos específi cos ou que objetos estão em lugares determinados. “A noção geométrica convencional de espaço-tempo termina”, diz Martinec.

O que isso signifi ca na prática é que o espaço e o tempo não mais dão estrutura ao mundo. Se você tentar medir as posições dos objetos, descobrirá que eles parecem estar em mais de um lugar. Separação espacial não signifi ca mais nada para eles; eles pulam de um lugar para outro sem cruzar a distância que os separa. Na verdade, é como pode retornar a impressão do desafortunado astronauta que passa pelo horizonte de eventos do buraco negro (o ponto de não retorno). “Se o espaço e o tempo não existem perto de uma singularidade, o horizonte de eventos não mais é bem defi nido”, deduz Horowitz.

Em outras palavras, a teoria de cordas não apenas critica a singularidade, substituindo o ponto errante com algo mais palatável, deixando o resto do Universo basicamente o mesmo. Em vez disso, ela revela uma quebra maior dos conceitos de espaço e tempo, cujos efeitos persistem longe da própria singularidade. Para ser claro, a teoria ainda necessita de uma noção básica de tempo no sistema de partículas. Os cientistas ainda estão tentando uma noção de dinâmica que não pressupõe, de fato, o tempo. Até lá, o tempo se agarra teimosamente à vida. Ele está tão arraigado na física que os cientistas ainda tentam imaginar sua destruição total e fi nal.

A ciência compreende o incompreensível ao pô-la abaixo, ao mostrar que a assustadora jornada não é nada mais que uma sucessão de pequenos passos. Assim é com o fi m do tempo. E, pensando sobre o tempo, apreciamos melhor nosso próprio lugar no Universo como criaturas mortais. As características que o tempo irá, progressivamente, perder são pré- requisitos para nossa própria existência. Precisamos que o tempo seja unidirecional para nos desenvolver e evoluir; precisamos da noção de duração e de escala para sermos capazes de formar estruturas complexas; precisamos de um ordenamento causal para que os processos possam se desenrolar; precisamos de separação espacial para que nossos corpos criem um pouco de ordem no mundo. Conforme todas essas qualidades derretessem, isso também ocorreria com nossa capacidade de sobreviver. O fi m do tempo pode ser algo que somos capazes de imaginar, mas nenhum de nós o experimentará diretamente, por mais que estejamos conscientes no momento de nossa própria morte.

Assim, conforme nossos distantes descendentes se aproximarem do fi nal do tempo, eles precisarão de muito esforço para sobreviver em um Universo cada vez mais hostil, e seu esforço apenas apressará o inevitável. Porque, apesar de tudo, não somos vítimas passivas na extinção do tempo; somos perpetradores. Enquanto vivemos, convertemos energia em calor e contribuímos para a degeneração do Universo. O tempo deve morrer para que possamos viver.
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