Reportagem
edição 101 - Outubro 2010
O tempo pode acabar?
Sim. E não. O tempo acabar parece ser impossível e inevitável. Trabalho recente em física sugere uma resolução para este paradoxo.
por George Musser
EM NOSSA EXPERIÊNCIA DIÁRIA, nada termina realmente. Quando morremos, nossos corpos definham e o material retorna à terra e à atmosfera, permitindo a criação de novas fontes de vida. Vivemos no que vem depois. Mas este será sempre o caso? Poderia haver um tempo futuro quando não haverá “depois”? Depressivamente, a física moderna sugere que a resposta pode ser positiva. O tempo pode acabar. Toda atividade cessaria e não haveria renovação ou recuperação. O fim do tempo seria o fim dos fins.

Essa possibilidade foi uma predição inesperada da teoria da relatividade geral de Einstein, o nosso entendimento moderno da gravitação. Antes dessa teoria, a maioria dos físicos e filósofos pensava que o tempo fosse universal, um ritmo estacionário no qual o Universo marchava, sem nunca variar, fraquejar ou parar. Einstein mostrou que o Universo é mais como uma grande festa polirrítmica. O tempo pode desacelerar, distender ou se rasgar. Quando sentimos a força da gravidade, estamos sentindo a improvisação rítmica do tempo; objetos em queda são dragados para lugares onde o tempo passa mais lentamente. O tempo não só afeta o que a matéria faz, mas também responde ao que a matéria está fazendo, como bateristas e dançarinos que atiçam uns aos outros em um frenesi rítmico. Quando as coisas fi carem fora do controle, o tempo pode evaporar-se em fumaça, como um baterista superexcitado que entra espontaneamente em combustão.

Os momentos em que isso acontece são conhecidos como singularidades. O termo se refere a qualquer fronteira no tempo, seja ela o início ou o fi m. A singularidade mais conhecida é o Big Bang, o instante 13,7 bilhões de anos atrás quando o Universo – e, com ele, o tempo – veio à existência e começou a se expandir. Se o Universo um dia parar de se expandir e começar a se contrair, isso será como um Big Bang ao contrário – o Big Crunch – e o levará a uma paralisia. O tempo não precisa sucumbir em todos os lugares. A relatividade diz que ele expira dentro de buracos negros, enquanto fl ui no Universo como um todo. Buracos negros têm uma merecida reputação para a destruição, mas ela é ainda pior do que poderíamos pensar. Se mergulhar em um desses devoradores, você não apenas seria rasgado em pedaços, mas seus restos atingiriam, por fi m, a singularidade no centro do buraco negro, e a sua linha do tempo terminaria. Nenhuma nova vida emergiria de suas cinzas; suas moléculas não seriam recicladas. Como um personagem que chega à última página de um romance, você não sofreria uma mera morte, mas um apocalipse existencial.

Demorou décadas para os físicos aceitarem que a relatividade prevê algo tão incômodo como morte sem renascimento. Até hoje, eles não sabem ao certo como lidar com isso. Singularidades são, possivelmente, a razão principal pela qual os físicos procuram criar uma teoria unifi cada da física, que uniria a ideia de Einstein com a mecânica quântica, de modo a criar uma teoria quântica da gravidade. Eles fazem isso, em parte, para tentar explicar defi nitivamente as singularidades. Mas é preciso ter cuidado com o que se deseja. O fi m do tempo é difícil de imaginar, mas o tempo sem um fi m pode ser igualmente paradoxal.
Muito antes de Albert Einstein nascer, fi lósofos debateram, ao longo das eras, se o tempo poderia ser mortal. Immanuel Kant, fi lósofo alemão, considerava esse problema como uma “antinomia” – algo que você poderia argumentar de duas maneiras, mas sem você saber o que pensar (pois é uma contradição entre duas proposições fi losófi - cas igualmente críveis, lógicas ou coerentes, mas que chegam a conclusões diametralmente opostas).

Aristóteles argumentou que o tempo não poderia ter início ou fi m. Todo momento é o fi m de uma era e o início de algo novo; todo evento é tanto o resultado de algo como a causa de outra coisa. Então, como pode o tempo terminar? O que poderia impedir que o último evento da história conduza a outro? Na verdade, como você defi niria o fi m do tempo quando o próprio conceito de “fi m” pressupõe tempo? “Não é logicamente possível que o tempo tenha um fi m”, afi rma o fi lósofo Richard Swinburne, da University of Oxford. Mas se o tempo não pode terminar, então o Universo deve ser infi - nitamente velho e todos os enigmas postos pela noção de infi nito se manifestam. Filósofos acreditavam ser um absurdo que o infi nito não pudesse ser algo além de uma idealização matemática.

O triunfo da teoria do Big Bang e a descoberta dos buracos negros parecem ter resolvido a questão. O Universo está repleto de singularidades e poderia sofrer uma dolorosa variedade de cataclismos temporais; mesmo se escapar do Big Crunch (grande colapso), pode ser pego pelo Big Rip (grande rasgão), ou pelo Big Freeze (grande congelamento) ou, ainda, pelo Big Brake (grande frenagem) (ver quadro na página oposta). Mas pergunte o que as singularidades (grandes ou pequenas) realmente são e a resposta não será nada clara. “A física das singularidades está disponível a quem interessar”, diz Lawrence Sklar, da University of Michigan em Ann Arbor, e referência em fi losofi a da física.

A mesma teoria que gerou esses monstros sugere que eles não existem realmente. Na singularidade do Big Bang, por exemplo, a teoria da relatividade diz que os precursores de cada galáxia estavam esmagados em um único ponto matemático – não apenas um pequenino pontinho, mas um ponto verdadeiro de tamanho zero. Do mesmo modo, em um buraco negro, todas as partículas de um desafortunado astronauta acabam compactadas em um ponto infi nitesimal. Em ambos os casos, calcular a densidade signifi ca dividir por volume zero, produzindo um infi nito. Outros tipos de singularidades não envolvem densidade infi nita, mas um infi nito de qualquer outra coisa.

Embora os físicos modernos não tenham exatamente a mesma aversão ao infi nito que incomodaram Aristóteles e Kant, ainda tomam essa interpretação como sinal de que a teoria foi levada aos extremos. Foram longe demais. Considere a teoria padrão dos raios luminosos ensinada no ensino médio. Ela explica elegantemente as receitas de lentes e as distorções das casas de espelhos. Mas também prevê que uma lente foca a luz de uma fonte distante em um único ponto matemático, produzindo uma mancha de densidade infi nita. Na realidade, a luz é focalizada não em um ponto, mas em um padrão de alvo, como aquele do jogo de dardos. A intensidade pode ser alta, mas é sempre fi nita. A óptica de raios erra porque a luz não é realmente um raio, mas uma onda.
De modo semelhante, aproximadamente todos os físicos presumem que as singularidades cósmicas têm, na verdade, densidade fi nita, mas elevada. A teoria da relatividade erra porque está deixando de apreender algum aspecto importante da gravidade ou da matéria que surge perto das singularidades para manter a densidade sob controle. “A maioria das pessoas diria que a teoria se rompe nesse ponto”, diz o físico James B. Hartle, da University of California em Santa Barbara.

Para descobrir o que de fato se passa, precisaremos de uma teoria mais abrangente, uma teoria quântica da gravidade. Físicos estão ainda trabalhando nessa teoria, mas pensam que ela deve incorporar o maior insight da mecânica quântica: que a matéria, assim como a luz, tem propriedades ondulatórias. Essas propriedades deveriam transformar a presumida singularidade em um pequeno maço, em vez de um ponto, e assim banir o erro de dividir por zero. Se assim for, o tempo pode, na realidade, não terminar.

Físicos argumentam em ambas as direções. Alguns pensam que o tempo termina. O problema com essa opinião é que as leis conhecidas da física operam no tempo e descrevem como as coisas se movem e evoluem. Os pontos fi nais do tempo estão fora do domínio das leis; eles teriam de ser governados não apenas por novas leis da física, mas por um novo tipo de lei da física, um tipo que deliberadamente não tenha conceitos temporais como movimento e mudança, em favor de conceitos atemporais como a elegância geométrica. Em uma proposta de três anos atrás, Brett McInnes, da Universidade Nacional de Cingapura, se apoiou em ideias da principal candidata a uma teoria quântica da gravidade – a teoria de cordas. Ele sugeriu que o maço primordial de um universo teria a forma de um toro; devido a teoremas matemáticos concernentes a toros, ele deveria ser perfeitamente homogêneo e uniforme. No Big Crunch, ou na singularidade dos buracos negros, entretanto, o Universo poderia ter qualquer forma, e o mesmo raciocínio matemático pode não se aplicar; o Universo seria, em geral, extremamente irregular. Uma lei da física geométrica desse tipo difere das leis dinâmicas usuais em um sentido crucial: ela não é simétrica no tempo. O fi m não seria apenas o começo de trás para a frente.

Outros pesquisadores da teoria quântica da gravidade pensam que o tempo é eterno, sem começo nem fi m. Por essa interpretação, o Big Bang é simplesmente uma dramática transição na vida eterna do Universo. Talvez o Universo pré-Big Bang tenha começado a sofrer um Big Crunch e mudou a direção da marcha quando a densidade fi cou muito elevada – um Big Bounce (grande ricochete). Artefatos dessa pré-história podem ter sobrevivido até agora (ver “Relatos de um Universo Oscilante”, por Martin Bojowald, Scientific American Brasil, novembro de 2008). Por um raciocínio semelhante, o maço singular no coração de um buraco negro ferveria e borbulharia como uma estrela miniaturizada. Se você caísse em um buraco negro, morreria dolorosamente, mas ao menos sua linha do tempo não terminaria. Suas partículas cairiam pesadamente no maço e deixariam uma distinta marca nele, que as gerações futuras poderiam ver no tênue brilho da luz que o astro libera.
Ao supor que o tempo segue adiante, os proponentes dessa abordagem evitam especular sobre um novo tipo de lei da física. Ainda assim, também enfrentam problemas. Por exemplo: o Universo fi ca crescentemente mais desordenado com o passar do tempo; se ele existe desde sempre, por que não está em total desorganização? No caso de um buraco negro, como a luz trazendo sua marca escaparia das garras gravitacionais do buraco negro?

O ponto essencial é que os físicos lutam com a antinomia não menos que os fi lósofos. O falecido John Archibald Wheeler, um pioneiro da gravidade quântica, escreveu: “A equação de Einstein diz 'esse é o fi m', mas a física diz 'não existe fi m' ”. Confrontados com esse dilema, algumas pessoas jogam a toalha e concluem que a ciência nunca poderá resolver se o tempo termina ou não. Para elas, as fronteiras do tempo são também as fronteiras da razão e da observação empírica. Mas outros pensam que esse enigma requer apenas uma dose de pensamento novo. “Não está fora dos objetivos da física”, argumenta o físico Gary Horowitz da University of California em Santa Barbara. “A gravidade quântica deverá ser capaz de oferecer uma resposta defi nitiva.”

COMO O TEMPO DEIXA DE EXISTIR

APESAR DE O computador HAL 9000 ter sido uma máquina, era provavelmente o mais humano personagem de 2001: uma odisséia no espaço – expressivo, versátil, não apenas um amontoado de fi os, mas também de contradições. Mesmo sua morte foi como a morte humana. Não foi um evento, mas um processo. Conforme Dave arrancava os circuitos, HAL ia perdendo suas faculdades mentais, uma a uma, descrevendo o que sentia. Ele foi capaz de articular a experiência da regressão de um modo que as pessoas no processo de morte não são capazes de fazer. A vida humana é uma complexa façanha de organização, a mais complexa conhecida pela ciência, e seu surgimento e desaparecimento passam pelo crepúsculo entre a vida e a não vida. A medicina moderna joga uma pequena luz nesse crepúsculo, conforme os médicos salvam bebês prematuros, que de outra forma teriam desaparecido, ou trazem de volta pessoas que teriam ultrapassado o que outrora teria sido um ponto de não retorno.

Conforme físicos e fi lósofos se esforçam para entender o fi m do tempo, muitos veem paralelos com o fi m da vida. Assim como a vida emerge de moléculas sem vida que se auto-organizam, o tempo pode emergir de algo atemporal que pode se organizar por si só (ver “O tempo é uma ilusão?”, por Craig Callender, Scientific American Brasil, julho de 2010). Um mundo temporal é altamente estruturado. O tempo nos diz quando eventos ocorrem, quanto duram e em que ordem se manifestam. Talvez essa estrutura não tenha sido imposta de fora, mas nasça de dentro. O que pode ser feito, pode ser desfeito. Quando a estrutura se desfaz, o tempo acaba.
Por esse pensamento, a extinção do tempo não é mais paradoxal do que a desintegração de qualquer outro sistema complexo. Uma por uma, o tempo perde suas características e passa pelo crepúsculo entre a existência e a não existência.

A primeira característica a desaparecer pode ser a unidirecionalidade – sua “seta” apontando do passado para o futuro. Físicos reconhecem, desde meados do século 19, que a seta é uma propriedade não do tempo de per si, mas da matéria. O tempo é inerentemente bidirecional; a seta que percebemos é simplesmente a degeneração natural da matéria da ordem para o caos, uma síndrome que qualquer um que viva com animais de estimação ou com crianças reconhecerá. O agente original pode ser devido aos princípios geométricos conjecturados por McInnes. Se essa tendência se mantiver, o Universo se aproximará de um estado de equilíbrio, ou “morte quente”, quando não poderá, possivelmente, ser mais caótico. Partículas individuais continuarão a se embaralhar, mas o Universo como um todo não mudará mais, e os relógios sobreviventes oscilarão em ambas as direções e o futuro se tornará indistinguível do passado (ver “As origens cósmicas da seta do tempo”, por Sean M. Carroll, Scientific American Brasil, julho de 2008). Alguns poucos físicos têm especulado que a seta do tempo pode se inverter, de modo que o Universo comece a se organizar, mas para criaturas mortais cuja própria existência depende da seta do tempo apontando “para a frente”, essa inversão marcaria um fi m para o tempo tão seguramente quanto a morte quente.

PERDENDO O TEMPO DE VISTA

PESQUISAS MAIS RECENTES sugerem que a seta não seria a única característica que o tempo pode perder conforme morre lentamente. Outro conceito poderia ser o da duração. O tempo, conforme o conhecemos, aparece em quantidades: segundos, dias, anos. Se não fosse assim, poderíamos dizer que os eventos ocorrem em ordem cronológica, mas não poderíamos dizer quanto eles duram. Esse cenário é o que o físico Roger Penrose, da University of Oxford, apresenta em um novo livro, Cycles of time: na ex traordinary new view of the Universe.

Durante toda a sua carreira, Penrose realmente parece ter se dedicado ao tempo. Ele e Stephen Hawking, físico da University of Cambridge, mostraram, em 1960, que singularidades não aparecem apenas em locais especiais, mas deveriam estar em todos os lugares. Ele também argumentou que a matéria que cai em um buraco negro não tem pós-vida e que o tempo não tem lugar em uma teoria da física verdadeiramente fundamental.

Em seu último ataque, Penrose começa com uma observação básica sobre o Universo muito jovem. Era como uma caixa de Legos que tenha sido jogada ao chão e cujas peças ainda não foram montadas – uma bagunça de quarks, elétrons e outras partículas elementares. A partir delas, estruturas como átomos, moléculas, estrelas e galáxias tiveram de se formar, passo a passo. E o primeiro desses passos foi a criação de prótons e nêutrons, que consistem em três quarks e que têm cerca de um femtômetro (10-15 metro) de tamanho. Os quarks se juntaram assim cerca de 10 microssegundos após o Big Bang (ou Big Bounce, ou o que quer que tenha havido).
Antes dessa época, não havia qualquer estrutura – nada era feito de pedaços que se juntaram. Assim, não havia algo que pudesse funcionar como relógio. As oscilações de um relógio se baseiam em uma referência bem defi nida como o tamanho de um pêndulo, a distância entre dois espelhos ou o tamanho dos orbitais atômicos. Uma referência assim ainda não existia. Aglomerados de partículas até podem ter se formado temporariamente, mas não podiam medir o tempo porque não tinham tamanho fi xo. Quarks e elétrons individuais não podem servir como referência porque também não têm tamanho. Não importa a distância que um físico de partículas focalize em um deles, tudo que verá será um ponto. O único atributo referente a tamanho que essas partículas têm são seus comprimentos de onda Compton, que defi ne a escala em que efeitos quânticos são importantes e que é inversamente proporcional à massa. Mas eles não tinham nem mesmo essa rudimentar escala de tamanho antes de 10 picossegundos após o Big Bang, quando o processo que os dotou de massa ainda não havia acontecido.

“Não há qualquer tipo de relógio”, diz Penrose. “As coisas não sabem como ter informações temporais.” Sem nada capaz de marcar intervalos regulares de tempo, tanto um attossegundo [10-18] quanto um femtossegundo [10-15] poderia se passar, e não faria diferença para as partículas na sopa primordial.

Penrose propõe que essa situação descreve não só o passado remoto, mas também o futuro distante. Muito depois de as estrelas se apagarem, o Universo será um sombrio salão de buracos negros e partículas livres; então, mesmo os buracos negros decairão e só sobrarão as partículas. A maioria dessas partículas não terá massa, assim como os fótons, e novamente não será possível construir relógios. Em futuros alternativos, quando o Universo se extinguiria devido ao Big Crunch, por exemplo, relógios também não se sairiam muito bem.

Você poderia supor que a duração continuará a fazer sentido, abstratamente, mesmo que não possa ser medida. Entretanto, pesquisadores se perguntam se uma quantidade que não pode ser medida realmente existe, mesmo em princípio. Para eles, a incapacidade de construir um relógio é sinal de que o tempo foi desprovido de uma das características que o defi nem. Apesar da elegância, o cenário de Penrose tem pontos fracos. Nem todas as partículas no futuro distante deixarão de ter massa; ao menos alguns elétrons sobreviverão e seria possível construir relógios com eles. Penrose especula que elétrons, de alguma forma, entrariam em uma dieta e perderiam suas massas, mas ele admite que se encontra em terreno instável. “Esse é um dos mais desconfortáveis pontos dessa teoria”, confessa. Além disso, se o Universo jovem não tinha senso de escala, como ele foi capaz de se expandir, tornar-se rarefeito e resfriar?

Se Penrose estiver certo sobre algo, entretanto, isso terá uma implicação notável. Embora o Universo jovem, superdenso, e o incrivelmente rarefeito futuro distante pareçam estar em polos opostos, são igualmente desprovidos de relógios e outras escalas de medida. “O Big Bang é muito semelhante ao futuro remoto”, diz Penrose. De maneira ousada, ele conjectura que eles são, na verdade, o mesmo estágio de um grande ciclo cósmico. Quando o tempo terminar, ele retornará para um novo Big Bang. Penrose, um homem que passou toda a sua carreira argumentando que as singularidades marcam o fi m do tempo, encontrou um meio de mantê- lo fl uindo. O assassino do tempo se tornou seu salvador.
O TEMPO PARA

MESMO SE A duração perder seu signifi cado e femtossegundos e attossegundos se emaranharem, o tempo ainda não estará defi nitivamente morto. Ele ainda ditará que os eventos aconteçam em uma sequência de causa e efeito. Nesse caso, o tempo é diferente do espaço, que coloca poucas restrições na maneira como os objetos podem ser arranjados. Dois eventos que são adjacentes no tempo – quando eu teclo as letras aparecem na tela – estão, também, inseparavelmente ligados. Mas dois objetos adjacentes no espaço – o teclado e um post-it com alguma anotação – podem não ter relação com o outro. Relações espaciais simplesmente não têm a mesma inevitabilidade que as temporais.

Mas, em certas condições, o tempo pode perder mesmo essa função básica de ordenamento e se tornar apenas outra dimensão do espaço. A ideia remonta aos anos 80, quando Hawking e Hartle procuraram explicar o Big Bang como o estágio em que o tempo e o espaço se diferenciaram. Três anos atrás, Marc Mars, da Universidade de Salamanca e José M. M. Senovilla e Raül Vera, da Universidade do País Basco, aplicaram uma ideia semelhante não para o começo, mas o fi m do tempo.

Eles se inspiraram na teoria de cordas e na conjectura de que nosso universo quadridimensional – três dimensões espaciais e uma temporal – pode ser uma membrana, ou simplesmente uma “brana”, fl utuando em um espaço de dimensão mais alta, como uma folha ao vento. Estamos presos na brana assim como a lagarta agarrada à folha. Comumente, estamos livres para vagar em nossa prisão 4-D. Mas se a brana for “soprada” sufi - ciente, tudo o que podemos fazer é sobreviver com bravura; não poderemos mais nos mover. Especifi camente, teríamos de nos mover a uma velocidade maior que a da luz para fazer qualquer avanço sobre a brana, e não temos como fazer isso. Todos os processos envolvem algum tipo de movimento, de modo que gradualmente desaceleram até parar.

Visto do lado de fora, as linhas de tempo formadas por sucessivos momentos em nossa vida não terminam, mas apenas se dobram de modo que, agora, se tornam linhas através do espaço. A brana ainda seria 4-D, mas todas as dimensões seriam espaciais. Marc Mars diz que objetos são “forçados pela brana a se mover a velocidades cada vez mais próximas à da luz, até que as trajetórias se inclinam tanto que eles estão, de fato, superluminais [a velocidades superiores à da luz], e o tempo já não existe. O ponto-chave é que os objetos podem nem ter consciência do que está acontecendo com eles”.

Porque todos os nossos relógios desacelerariam e parariam também, não teríamos meios de dizer que o tempo está se transformando em espaço. Tudo o que veríamos é que objetos como galáxias pareceriam estar se acelerando. Inexplicavelmente, isso é exatamente o que os astrônomos observam, comumente atribuindo isso a um tipo desconhecido de “energia escura”. Seria essa aceleração o réquiem do tempo?
O TEMPO PARA

MESMO SE A duração perder seu signifi cado e femtossegundos e attossegundos se emaranharem, o tempo ainda não estará defi nitivamente morto. Ele ainda ditará que os eventos aconteçam em uma sequência de causa e efeito. Nesse caso, o tempo é diferente do espaço, que coloca poucas restrições na maneira como os objetos podem ser arranjados. Dois eventos que são adjacentes no tempo – quando eu teclo as letras aparecem na tela – estão, também, inseparavelmente ligados. Mas dois objetos adjacentes no espaço – o teclado e um post-it com alguma anotação – podem não ter relação com o outro. Relações espaciais simplesmente não têm a mesma inevitabilidade que as temporais.

Mas, em certas condições, o tempo pode perder mesmo essa função básica de ordenamento e se tornar apenas outra dimensão do espaço. A ideia remonta aos anos 80, quando Hawking e Hartle procuraram explicar o Big Bang como o estágio em que o tempo e o espaço se diferenciaram. Três anos atrás, Marc Mars, da Universidade de Salamanca e José M. M. Senovilla e Raül Vera, da Universidade do País Basco, aplicaram uma ideia semelhante não para o começo, mas o fi m do tempo.

Eles se inspiraram na teoria de cordas e na conjectura de que nosso universo quadridimensional – três dimensões espaciais e uma temporal – pode ser uma membrana, ou simplesmente uma “brana”, fl utuando em um espaço de dimensão mais alta, como uma folha ao vento. Estamos presos na brana assim como a lagarta agarrada à folha. Comumente, estamos livres para vagar em nossa prisão 4-D. Mas se a brana for “soprada” sufi - ciente, tudo o que podemos fazer é sobreviver com bravura; não poderemos mais nos mover. Especifi camente, teríamos de nos mover a uma velocidade maior que a da luz para fazer qualquer avanço sobre a brana, e não temos como fazer isso. Todos os processos envolvem algum tipo de movimento, de modo que gradualmente desaceleram até parar.

Visto do lado de fora, as linhas de tempo formadas por sucessivos momentos em nossa vida não terminam, mas apenas se dobram de modo que, agora, se tornam linhas através do espaço. A brana ainda seria 4-D, mas todas as dimensões seriam espaciais. Marc Mars diz que objetos são “forçados pela brana a se mover a velocidades cada vez mais próximas à da luz, até que as trajetórias se inclinam tanto que eles estão, de fato, superluminais [a velocidades superiores à da luz], e o tempo já não existe. O ponto-chave é que os objetos podem nem ter consciência do que está acontecendo com eles”.

Porque todos os nossos relógios desacelerariam e parariam também, não teríamos meios de dizer que o tempo está se transformando em espaço. Tudo o que veríamos é que objetos como galáxias pareceriam estar se acelerando. Inexplicavelmente, isso é exatamente o que os astrônomos observam, comumente atribuindo isso a um tipo desconhecido de “energia escura”. Seria essa aceleração o réquiem do tempo?
Assim também o tempo. Se você cair em um buraco negro, o tempo em seu relógio depende da distância a que você está do centro do buraco, que é defi nido dentro da dimensão espacial que derrete. Conforme essa dimensão se desintegra, seu relógio começa a girar descontroladamente, e se torna impossível dizer que os eventos acontecem em tempos específi cos ou que objetos estão em lugares determinados. “A noção geométrica convencional de espaço-tempo termina”, diz Martinec.

O que isso signifi ca na prática é que o espaço e o tempo não mais dão estrutura ao mundo. Se você tentar medir as posições dos objetos, descobrirá que eles parecem estar em mais de um lugar. Separação espacial não signifi ca mais nada para eles; eles pulam de um lugar para outro sem cruzar a distância que os separa. Na verdade, é como pode retornar a impressão do desafortunado astronauta que passa pelo horizonte de eventos do buraco negro (o ponto de não retorno). “Se o espaço e o tempo não existem perto de uma singularidade, o horizonte de eventos não mais é bem defi nido”, deduz Horowitz.

Em outras palavras, a teoria de cordas não apenas critica a singularidade, substituindo o ponto errante com algo mais palatável, deixando o resto do Universo basicamente o mesmo. Em vez disso, ela revela uma quebra maior dos conceitos de espaço e tempo, cujos efeitos persistem longe da própria singularidade. Para ser claro, a teoria ainda necessita de uma noção básica de tempo no sistema de partículas. Os cientistas ainda estão tentando uma noção de dinâmica que não pressupõe, de fato, o tempo. Até lá, o tempo se agarra teimosamente à vida. Ele está tão arraigado na física que os cientistas ainda tentam imaginar sua destruição total e fi nal.

A ciência compreende o incompreensível ao pô-la abaixo, ao mostrar que a assustadora jornada não é nada mais que uma sucessão de pequenos passos. Assim é com o fi m do tempo. E, pensando sobre o tempo, apreciamos melhor nosso próprio lugar no Universo como criaturas mortais. As características que o tempo irá, progressivamente, perder são pré- requisitos para nossa própria existência. Precisamos que o tempo seja unidirecional para nos desenvolver e evoluir; precisamos da noção de duração e de escala para sermos capazes de formar estruturas complexas; precisamos de um ordenamento causal para que os processos possam se desenrolar; precisamos de separação espacial para que nossos corpos criem um pouco de ordem no mundo. Conforme todas essas qualidades derretessem, isso também ocorreria com nossa capacidade de sobreviver. O fi m do tempo pode ser algo que somos capazes de imaginar, mas nenhum de nós o experimentará diretamente, por mais que estejamos conscientes no momento de nossa própria morte.

Assim, conforme nossos distantes descendentes se aproximarem do fi nal do tempo, eles precisarão de muito esforço para sobreviver em um Universo cada vez mais hostil, e seu esforço apenas apressará o inevitável. Porque, apesar de tudo, não somos vítimas passivas na extinção do tempo; somos perpetradores. Enquanto vivemos, convertemos energia em calor e contribuímos para a degeneração do Universo. O tempo deve morrer para que possamos viver.
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