Reportagem
« 1 2 3 4 5 6 7 8 9 »
Oceanos mais quentes, furacões mais violentos
Evidências mostram que o aquecimento global aumenta os ventos avassaladores dos ciclones e as chuvas torrenciais
por Kevin E. Trenberth
[continuação]

Solos mais Quentes
Os climatologistas não sabem exatamente o número de furacões que ocorreram no mundo todo antes de 1970, quando observações por satélite se tornaram rotineiras. Mas os registros para a região tropical do Atlântico norte são bastante confi áveis a partir de 1944, quando começou a vigilância de tempestades tropicais a partir de aeronaves. O número de tempestades e furacões com denominação própria no Atlântico norte aumentou desde 1994 – e essa elevação coincidiu com o aumento das SSTs numa faixa latitudinal de cerca de 10º a 20º ao norte. Essa faixa de água tropical logo ao norte do Equador, estendendo-se da África até a América Central, é uma zona crítica para a formação de furacões.

Cientistas afirmam que o aumento das SSTs no Atlântico norte desde 1994 reflete a chamada oscilação multidecenal do Atlântico (AMO, em inglês). Trata-se de um fenômeno natural e cíclico: as temperaturas do oceano Atlântico norte permanecem relativamente baixas por várias décadas e depois passam por uma fase mais quente, também por décadas, para depois esfriar novamente (a diferença máxima de temperatura é de 0,5oC). Especialistas acreditam que isso se deve a uma mudança nas correntes oceânicas – como a causada pela corrente do Golfo, a qual flui através do Atlântico –, que retornam em fluxos a profundidades maiores. Dos anos 70 até o início da década de 90, as SSTs do Atlântico norte eram baixas. Desde então, as AMOs voltaram a ocorrer em condições mais quentes, e se formaram mais furacões do que costumeiramente ocorre durante a fase mais fria.
No entanto, modelos computacionais indicam que o ciclo de AMO sozinho não é capaz de explicar a tendência crescente desde 1995, ou o que aconteceu em 2005 e 2006.

Embora lancemos quantidades significativas de gases de efeito estufa na atmosfera, os climatologistas não têm como realizar experiências que alterem as condições reais na Terra. Mas esses modelos são necessários para destrinchar os fatores que influenciam as SSTs e os furacões.

Esses modelos tentam reproduzir todos os processos físicos, químicos e biológicos que afetam o clima. Após anos de trabalho, cientistas do Centro Nacional de Pesquisa Atmosférica (NCAR, em inglês) em Boulder, Colorado, e de outras instituições criaram modelos climáticos globais que reproduzem as temperaturas reais do ar e dos oceanos registradas pelo mundo todo no século passado. As simulações levam em conta variações na composição química da atmosfera, a energia solar incidente e condições como grandes erupções vulcânicas que possam bloquear a radiação solar o suficiente para esfriar o planeta por um ou dois anos.
« 1 2 3 4 5 6 7 8 9 »
Kevin E. Trenberth é chefe da Seção de Análises Climáticas do Centro Nacional de Pesquisas Atmosféricas em Boulder, Colorado, onde se dedica ao estudo dos ciclos de energia e da água no sistema climático. Nascido na Nova Zelândia, é um dos autores e coordenadores do último relatório de avaliação do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (2007). Também participa do World Climate Research Programme, uma parceria entre organizações internacionais com sede em Genebra subordinada às Nações Unidas.
Veja aqui todas as reportagens publicadas neste site!