Reportagem
  
edição 19 - Dezembro 2003
Onde Estão Todos os Outros?
Marte é o principal e mais acessível laboratório planetário para o teste experimental da hipótese exobiológica. Frustração das Viking levou o planeta a um esquecimento temporário.
por Eduardo Dorneles Barcelos e Jorge Alberto Quillfeldt
Levantamentos por satélites devem desvendar muitos dos mistérios marcianos
A hipótese exobiológica, ou seja, a hipótese de que existe vida em outros locais do Universo,é antiga como nossa civilização, tendo experimentado sucessivos ressurgimentos em função de determinadas descobertas científicas: desde os "canais de Marte", equivocadamente descritos por Lowell no final do século 19, até o impacto dos experimentos de síntese de biomoléculas em ambientes primitivos simulados por Stanley Miller em 1953. Sempre houve breves ciclos de euforia seguidos de longas pausas céticas. Após milênios de especulações sobre a possibilidade de que não estejamos a sós no Universo, a ciência deflagrou um aparato de investigação para a busca de formas de vida, inteligentes ou não, localizadas no Sistema Solar ou entre as estrelas.

Tudo começou no final dos anos 50, quando o vôo espacial ainda engatinhava e a própria biologia moderna recém iniciava sua revolução. Naquele momento não tínhamos ferramentas para testar in loco a hipótese exobiológica. Porém, se o bom senso sugeria que a vida era possível em outras paragens, por que também não vida inteligente? Daí a supormos a existência de civilizações tecnológicas com capacidade de comunicação, era um passo. A vantagem estava em que, se tais civilizações existissem e empregassem ondas de rádio como fazemos, já dispúnhamos de tecnologia capaz de detectá-las, bastando um programa sistemático de busca.

Foi o que propuseram Cocconi e Morrison em artigo publicado na revista Nature em 1959. O que antes não passava de um prudente capítulo final em alguns livros-texto de astronomia, atingiu o status de hipótese científica testável experimentalmente, algo essencial. A ciência não aceita hipóteses que não possam ser testadas de alguma forma.

Em abril de 1960, no Observatório Nacional de Radioastronomia, em Green Bank, na Virgínia Ocidental, o radioastrônomo americano Frank Drake iniciava-se a busca de civilizações extraterrestres por sinais de rádio, também conhecida como Seti (sigla em inglês para "busca de civilizações extraterrestres"). As observações pioneiras efetuadas em Green Bank (projeto Ozma) representaram não apenas um marco histórico, mas, também, metodológico. Elas fixaram os padrões seguidos por vários projetos sucessores, como Phoenix, Meta/Beta (que inclui radioescutas feitas na Argentina) e o Serendip (no radiotelecópio de Arecibo).

Desde então os radioastrônomos têm vasculhado o céu, especialmente no entorno de estrelas próximas candidatas a abrigar planetas habitáveis em sua órbita. À época não se conheciam planetas fora do Sistema Solar. O que se busca é a detecção de emissões que sejam indiscutivelmente não-naturais, e espera-se poder também "decifrá-las", caso as encontremos. Para que esta empreitada não seja como buscar agulha em palheiro é decisivo escolher a freqüência de rádio correta, daí os primeiros projetos se concentrarem nos 1420 MHz (21 cm), a chamada linha do hidrogênio, radioemissão natural mais bem conhecida emitida pelo elemento químico mais comum do Universo. Outras "freqüências mágicas", como o "buraco d\\'água" (emissões do H e do OH) também foram investigadas, mas atualmente, com os avanços técnicos disponíveis, são possíveis varreduras em janelas bem mais amplas do espectro de rádio.
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Eduardo Dorneles Barcelos e Jorge Alberto Quillfeldt EDUARDO DORNELES BARCELOS (1962-2003), gaúcho de Porto Alegre, graduou-se em história pela UFRGS e fez mestrado e doutorado em história da ciência pela USP. Publicou diversos trabalhos sobre história da ciência e da tecnologia, em especial, sobre a história do estudo da vida e inteligência extraterrestres, seu tema de investigação. Escreveu dois livros sobre este último assunto: Telegramas para Marte (Jorge Zahar Editor, 2001) e Vida Extraterrestre (Editora Abril, 2003). Foi pesquisador do CNPq/Ministério da Ciência e Tecnologia e trabalhou junto ao Museu de Astronomia e Ciências Afins (MAST, RJ), além de lecionar nas Faculdades Integradas UPIS (Brasília). Entre 1994 e 2002 foi assessor especial da presidência da Agência Espacial Brasileira (AEB/MCT). Barcelos acompanhou de perto o desenvolvimento do Programa Espacial Brasileiro e foi um de seus mais entusiásticos defensores. Faleceu em um acidente automobilístico em Brasília, em 22 de agosto de 2003, na mesma tarde em que morreram seus 21 colegas e amigos na Base de Lançamentos de Alcântara. Recém-eleito vice-presidente da Sociedade Astronômica Rio-Grandense (Sarg), talentoso divulgador profissional, Eduardo deixa um vazio imenso.

JORGE ALBERTO QUILLFELDT, professor do Departamento de Biofísica e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Neurociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, foi colega e amigo de três décadas de Eduardo Barcelos, tendo, juntos, criado a primeira disciplina regular de exobiologia em uma universidade pública brasileira.
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