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Reportagem

Os mamíferos desaparecidos da América do Sul

Fósseis no Chile revelam mamíferos que habitavam a região e derrubam antigos conceitos sobre a geologia do continente

Mamíferos raros que já povoaram a América do Sul seguem sua vida nessa reconstituição artística, sem saber que uma torrente violenta de cinzas lamacentas vindas de um vulcão próximo logo selaria seu fim
À margem das vastas pastagens, um par de animais herbívoros com cascos que lembram cavalos, um notoungulado parecido a um antílope e uma preguiça terrestre alimentam-se tranqüilamente sem imaginar que seu fim é iminente. Assim como eles, a chinchila e o minúsculo marsupial parecido com um rato, mordiscando sementes, também ignoram seu destino. De repente, um dos vulcões cobertos por gelo que se destacam na paisagem explode violentamente, lançando fluxos contínuos de pó vulcânico sobre os declives íngremes da montanha. Pouco tempo depois, essas torrentes enfurecidas irrompem pelas planícies, sepultando em seu caminho os animais desavisados.

Por mais devastadora que essa fúria vulcânica tenha sido para as criaturas que soterrou, ela se tornou uma bênção para a paleontologia. Dezenas de milhões de anos depois da morte prematura desses mamíferos, as forças de exumação da formação das montanhas e a erosão subseqüente revelaram os restos de seus esqueletos fossilizados à luz do dia no alto das montanhas dos Andes na região central do Chile. Nossa equipe descobriu as primeiras ossadas em 1988 enquanto procurávamos por fósseis de dinossauros no vale andino do rio Tinguiririca, próximo à fronteira com a Argentina. Os achados iniciais dos ossos dos mamíferos se provaram tão proveitosos que, desde então, voltamos à região quase todos os anos. Até agora descobrimos mais de 1.500 fósseis de mamíferos antigos em dezenas de sítios na porção central dos Andes chilenos (ver mapa na pág. 34).

Análises laboratoriais exaustivas de nossa coleção que não pára de crescer têm produzido grandes revelações sobre a história dos antigos mamíferos da América do Sul. Para nossa surpresa, a idade dos fósseis chilenos vai de 40 milhões a 10 milhões de anos – ou seja, são muito mais jovens que qualquer coisa que esperávamos encontrar por lá. Na verdade, muitos dos espécimes representam os únicos mamíferos remanescentes de segmentos daquele intervalo de tempo encontrados em qualquer lugar no continente. Alguns desses fósseis trazem novas luzes sobre um período anteriormente opaco da história das linhagens de mamíferos nativas sul-americanos nativas. Outros ajudam a pôr um ponto final em longos debates sobre a origem de importantes grupos migratórios. Juntos, eles têm auxiliado a rever a compreensão sobre quando certos ecossistemas – e as próprias montanhas – apareceram nessa região do mundo.

Descoberta intrigante

A maior parte daquilo que os cientistas sabem sobre os antigos animais da América do Sul é baseada em vestígios desenterrados nas porções mais ao sul do continente, principalmente na Patagônia. Aquelas regiões possuem afloramentos de rochas típicas que contêm fósseis: xisto, arenito e outros sedimentos endurecidos de rios e suas planícies inundadas. Antes de nossa primeira visita ao Chile, os pesquisadores ainda não tinham procurado sistematicamente por fósseis de animais terrestres nas áreas montanhosas do país, já que a maioria das rochas por lá é vulcânica. (A hipótese padrão é de que a lava e outros materiais da erupção são quentes e violentos demais para preservar vestígios orgânicos).
Quando ficamos sabendo de um relatório sobre pegadas de dinossauros, decidimos arriscar que o vale do Tinguiririca pudesse abrigar fósseis. As rochas tinham a idade certa – na época, os geólogos pensavam que a maioria das rochas ao longo da espinha dorsal dos Andes chilenos datava de pelo menos 65 milhões a 100 milhões de anos, o último período da Era Mesozóica, quando os dinossauros reinavam supremos.

Sabíamos que qualquer sedimento capaz de preservar pegadas também poderia conter resíduos de ossos daqueles que as deixaram. Se tivéssemos muita sorte e mantivéssemos os olhos bem atentos sobre o solo, poderíamos até encontrar um fóssil de um dos pequeninos mamíferos contemporâneos dos dinossauros, que não eram maiores que um musaranho.

Em 1988, no último dia de nossa viagem de reconhecimento, que durou uma semana, nossa equipe de quatro pessoas se separou para pesquisar os declives íngremes às margens do rio Tinguiririca. Quase que imediatamente a dupla que trabalhava ao norte do rio alcançou uma camada de sedimentos antigos que traziam pegadas de dinossauros, e então continuou a examinar o vale em busca de mais depósitos potenciais de fósseis. Para seu desapontamento, porém, os únicos fósseis que conseguiram recolher foram de peixes, amonites e outras criaturas marinhas – nada de répteis ou mamíferos. A equipe que trabalhava ao sul do rio também estava tendo um dia frustrante. Ao final da tarde, no entanto, a animação aumentou quando conseguiram identificar alguns fragmentos fossilizados de ossos e dentes numa erosão em uma grande porção de sedimentos vulcânicos marrom-avermelhados, cerca de 1 mil metros acima do solo do vale. Exames mais detalhados revelaram que os fósseis eram de vertebrados terrestres do tamanho aproximado de um cavalo pequeno.

Primeiro, tentamos encaixar esses fragmentos na visão prevalecente sobre a idade das rochas – animais desse tamanho deveriam ser dinossauros peculiares ou outros animais estranhos do Mesozóico. Mas os dentes complexos e diferenciados, com os molares multifacetados com coroa alta e a parte superior reta existentes em apenas alguns mamíferos, tinham outra história para contar. Os mamíferos eram claramente grandes demais – e também avançados demais – para terem vivido antes de 50 milhões de anos atrás. Aparentemente, os geólogos tinham errado feio em sua estimativa da idade daquelas rochas. Na verdade, análises posteriores confirmaram que esses novos fósseis eram da Era Cenozóica, período da Terra em que vivemos hoje e que começou quando os dinossauros não-aviários foram extintos, há 65 milhões de anos. (Sabe-se que os pássaros são terópodes, representando assim um grupo de dinossauros).
Variedade na Ilha

Encontrar fósseis de qualquer tipo já teria sido uma ótima notícia para nós. O fato de serem mamíferos – e inesperadamente jovens – era motivação mais do que suficiente para concentrar nossa próxima temporada de pesquisa de campo naquela única área. Voltamos ao vale do Tinguiririca no verão austral de 1989, depois que a neve das montanhas mais altas derreteu o bastante para que as autoridades pudessem refazer a rudimentar estrada de acesso, que é levada pela água quase toda primavera. Desta vez chegamos ao sítio dos fósseis em uma manhã ensolarada sob o céu limpo de janeiro com uma equipe de sete cientistas e equipamento completo. Descarregamos rapidamente os animais de carga, montamos o equipamento perto de um pequeno riacho e começamos a caçada.

Para nossa satisfação, fragmentos extraordinários de ossos e dentes apareceram em poucos minutos quando começamos a vasculhar as encostas íngremes da montanha. Projetando-se pelos dois lados de uma rocha do tamanho de uma batata encontramos o crânio daquilo que era sem dúvida um mamífero, como indicava seu único par de ossos mandibulares inferiores, entre outras características (as mandíbulas inferiores dos répteis são constituídas por vários ossos separados). Mais tarde, descreveríamos formalmente a criatura como uma nova espécie de notoungulado, grupo diverso de herbívoros com cascos cujo tamanho ia do de um coelho ao de um hipopótamo, extinto há menos de 1 milhão de anos. Essa nova espécie provavelmente se parecia um pouco a um antílope. Descobrimos que os dentes que encontramos no ano anterior eram de um notoungulado semelhante a um rinoceronte. Ao todo, durante as três ocasiões em que realizamos trabalhos de campo em Tinguiririca, encontramos mais de 300 espécimes, incluindo marsupiais, uma antiga preguiça, tatus e um roedor que lembrava uma chinchila.

Todo o significado de nossas descobertas levaria anos para ser revelado, mas na hora sabíamos que estávamos com algo importante nas mãos. Esses novos fósseis claramente tinham muito a contar sobre a história dos mamíferos característicos que ainda vivem na América do Sul: como preguiças, macacos, tamanduás e chinchilas. Seus ancestrais, incluindo muitas das novas criaturas que encontramos no vale do Tinguiririca, estavam entre aqueles que evoluíram quando a América do Sul ainda era um continente-ilha. Na maior parte dos últimos 80 milhões de anos, após a separação do supercontinente de Pangéia e sua porção ao sul, Gonduana, os movimentos das placas tectônicas mantiveram a América do Sul separada de outras massas de terra. Esse período de isolamento promoveu a evolução de animais nativos adaptados de maneira única às condições da ilha e tão bizarros quanto os nativos de ilhas modernas, como a Austrália (terra do ornitorrinco e do coala) e Madagascar (famosa por seus lêmures). Antepassados estranhos dos grupos modernos de animais na América do Sul incluíam marsupiais saltitantes, “pseudogatos” marsupiais com dentes de sabre, primos dos tatus armados com clavas enormes e cheias de ferrões na cauda, roedores do tamanho de ursos, preguiças tão grandes como elefantes e outras que nadavam no mar.

O que se sabe sobre os ancestrais dos animais atuais da América do Sul foi obtido em descobertas de fósseis anteriores na Patagônia e outros locais, mas informações importantes sobre muitos desses antepassados permaneceram evasivas. Os paleontólogos sabiam, por exemplo, que preguiças e tamanduás surgiram há mais de 40 milhões de anos, assim como outras linhagens exóticas hoje extintas (incluindo certos marsupiais e notoungulados). No entanto, nenhum fóssil que representasse a segunda fase da história dos mamíferos sul-americanos – entre cerca de 40 milhões e 30 milhões de anos atrás – havia sido descoberto. O mais emocionante para nós, nos primeiros anos, era perceber cada vez mais que os animais que encontramos em Tinguiririca viveram durante esse período de história anteriormente desconhecido.
Os paleontólogos suspeitavam que, durante esse intervalo misterioso nos registros fósseis muitas das linhagens únicas do continente passaram por uma diversificação explosiva. Na verdade, nossa coleção inclui o registro mais antigo de vários grupos de notoungulados e representa pelo menos 25 espécies de mamíferos, quase todas elas novas para a ciência (ver quadro na pág. à esquerda). Essa era também viu a chegada de roedores e primatas, que não estavam entre os habitantes mamíferos originais da América do Sul.
Roedores navegantes

Uma das nossas descobertas mais significativas em Tinguiririca foi a de um fóssil do roedor sul-americano mais antigo já conhecido, achado que fornece evidências importantes para o debate sobre a origem das capivaras e chinchilas de hoje. Conhecidos como roedores caviomorfos, essas criaturas e seus parentes mais próximos constituem a linhagem de roedores mais antiga da América do Sul (e são diferentes da linhagem de roedores mais recente, de ratos, camundongos e outras criaturas que chegaram do norte há cerca de 3,5 milhões de anos, quando o istmo do Panamá reconectou as duas Américas pela primeira vez). Os paleontólogos concordavam que os primeiros roedores caviomorfos chegaram em algum momento do enorme intervalo entre 55 milhões e 25 milhões de anos atrás, quando a América do Sul ainda era uma ilha. Poucos fósseis caviomorfos mais jovens indicavam que os antepassados teriam vindo da África, mas muitos pesquisadores acharam mais fácil imaginar que os roedores imigrantes fizeram uma viagem mais curta, partindo da América do Norte, possivelmente por uma cadeia de ilhas caribenhas.

Para ajudar a pôr um ponto final na discussão, comparamos os detalhes anatômicos do animal de Tinguiririca com vestígios de roedores encontrados em várias partes do mundo. A característica mais relevante foi o formato dos dentes minúsculos ainda enraizados na mandíbula inferior (a mandíbula superior e os molares ainda não foram encontrados). Aquele formato sugeria que os molares superiores do animal tinham cinco cristas distintas – assim como os molares superiores dos roedores africanos do mesmo período. Por outro lado, as espécies mais antigas de roedores da América do Norte pos-suíam apenas quatro cristas em seus molares superiores. Essas comparações sugerem fortemente que o roedor de Tinguiririca é parente mais próximo dos animais africanos. A ausência de antepassados caviomorfos plausíveis em depósitos de fósseis na América do Norte também sustenta a teoria do “saídos da África”.

Presumivelmente, os primeiros colonizadores caviomorfos viajaram da África à América do Sul em troncos flutuantes ou em outras “jangadas” feitas de vegetação – a melhor hipótese criada pelos cientistas para explicar como várias plantas e animais incomuns chegaram a muitas regiões geograficamente isoladas (leia “Tesouros soterrados de Madagascar”, Scientific American Brasil no 4, fevereiro de 2002). A idéia de uma jornada transoceânica tão incrível pode parecer improvável, mas é a mais plausível no contexto do meio ambiente global há cerca de 32 milhões de anos. Naquela época, o Atlântico Sul tinha, em seu ponto mais estreito, apenas 1.400 km de extensão, metade da largura de hoje. E as correntes oceânicas de leste para oeste nos trópicos estavam se fortalecendo. Essas condições poderiam ter permitido uma viagem em cerca de duas semanas, e os animais podem ter ficado em torpor (inatividade e metabolismo altamente reduzido em períodos de estresse). Além disso, naquele período o nível dos oceanos estava baixando devido à formação de lâminas de gelo sobre e ao redor da Antártica. Assim, uma ou mais ilhas vulcânicas que serviam de “porto”, hoje submersas, podem ter facilitado a travessia.

Ecossistemas Emergentes

Utilizando um método novo e preciso de datação que analisa vestígios de gás argônio preso em cristais das rochas que contêm fósseis, determinamos que os roedores e outros mamíferos de Tinguiririca tinham entre 33 milhões e 31,5 milhões de anos de idade. As lâminas de gelo cada vez maiores na Antártica e outros fenômenos indicam que o clima global na época estava ficando mais frio e mais seco. Saber que uma grande alteração no clima ocorreu justamente quando os mamíferos de Tinguiririca estavam no auge nos levou a testar se os animais e seu meio ambiente teriam respondido a essas mudanças.
Várias linhas de evidências indiretas nos permitiram reconstituir o habitat dos mamíferos de Tinguiririca, apesar de nunca termos encontrado fósseis de plantas nas mesmas rochas. Nossa primeira análise dos dentes revelou que os animais de Tinguiririca devem ter vivido em um ecossistema muito diferente daquele de seus antepassados diretos. A maioria dos animais sul-americanos mais antigos conhecidos, que viveram entre 65 milhões e 34 milhões de anos atrás, eram herbívoros que pastavam uma folhagem típica de floresta, como folhas de árvores e ervas (na verdade, os fósseis de plantas confirmam que ricas florestas provavelmente cobriam grande parte do continente naquele período). Mamíferos que comem esses alimentos macios, incluindo nós, humanos, geralmente possuem dentes com coroas baixas e uma camada de esmalte protetor fina, que cobre cada dente só até a linha da gengiva.

Por outro lado, a maioria dos herbívoros de Tinguiririca possui dentes com coroas extremamente altas, com a camada de esmalte ultrapassando a linha da gengiva e chegando quase até a ponta das raízes, condição conhecida como dentição hipso-donte. O esmalte adicional (muito mais duro que a dentina no interior dos dentes) faz com que os dentes hipsodontes sejam muito mais resistentes ao desgaste em comparação àqueles com coroas baixas. É quase certo que esses herbívoros tenham desenvolvido dentes assim em resposta a partículas abrasivas no alimento, como fazem vacas, antílopes, cavalos e outros animais que comem nas pastagens arenosas nas pradarias e savanas abertas em outras partes do mundo. É também significativo que dois terços das espécies dessa fauna tenham sido hipsodontes. A proporção da taxonomia hipsodonte relativa a outros tipos de dentes aumenta com a quantidade de habitats abertos, e o nível de hipsodontia em Tinguiririca ultrapassa mesmo aquele observado em mamíferos que vivem em habitats abertos atuais como as grandes planícies na América do Norte.

As descobertas sugerem que os herbívoros de Tinguiririca se alimentavam mais em grandes pastagens do que em florestas, mas os dentes não são os únicos fatores que levam a essa conclusão. Nosso antigo aluno de graduação Darin Croft, agora professor na Case Western Reserve University, forneceu outras duas deduções independentes sobre as chuvas anuais e a vegetação que dominava o antigo ecossistema de Tinguiririca. Análises estatísticas do número de espécies em categorias diferentes de tamanho corporal e seus atributos ecológicos – as chamadas análises de cenograma e macronicho – revelaram que os animais se assemelhavam mais à fauna moderna que vive em pastagens secas ou em matas irregulares, como partes da savana na África ou da caatinga e do chaco na América do Sul.

Nossa conclusão de que o antigo habitat de Tinguiririca era aberto, relativamente seco e que continha gramíneas abundantes veio com certa surpresa, considerando todas as evidências anteriores sugerindo que as primeiras pastagens em outros continentes não teriam surgido pelo menos até 18 milhões de anos atrás. O aparente surgimento das pastagens de Tinguiririca uns 15 milhões de anos mais cedo pode ter resultado de uma tendência global de aumento da aridez e diminuição da temperatura – talvez acentuada pela falta de chuva causada pelas montanhas andinas. As pastagens teriam se acostumado melhor a um clima mais ameno e seco que as ricas florestas dos milênios anteriores ali. Até agora, no entanto, a suspeita de que as pastagens teriam resultado de um resfriamento global precisa de uma análise mais minuciosa. Testar em maior profundidade uma ligação casual direta é uma nova possibilidade de pesquisa para o futuro.
Crânios de herbívoros, como vistos pela primeira vez no campo, foram preservados por um molde grosso de cinza fossilizada e lama de antigas erupções vulcânicas. Mesmo antes dos cientistas retirarem os ossos da rocha, eles puderam identificar ambos os espécimes como tipos de herbívoros extintos com cascos, conhecidos como notoungulados. Os dentes com coroa alta, típicos de animais que pastam, são praticamente notáveis no espécime de cima. O outro crânio, que pertencia a um notoungulado comedor de folhas mais velho chamado notopithecine, foi descoberto recentemente no rio Teno
Sem Macaquices

Ao encontrar um tesouro tão rico em informações paleontológicas e ambientais em vários locais no vale do Tinguiririca, começamos a considerar se essa parte dos Andes era um caso de “sucesso único” paleontológico. Pouco tempo depois, tivemos uma chance inesperada de buscar uma resposta. Na primavera de 1994, a reconstrução da estrada que leva ao vale do Tinguiririca estava especialmente lenta, mas não sabíamos de sua interdição até chegarmos lá. Transformando a frustração em oportunidade, começamos a fazer explorações fora do vale.

Examinamos outros grandes vales com afloramentos das mesmas rochas sedimentares vulcânicas, expostas ao longo de milhares de quilômetros quadrados de terreno montanhoso. Com os resultados de anos de trabalho de campo, determinamos que os fósseis de mamíferos na verdade não estavam restritos ao vale do Tinguiririca e que a torrente vulcânica que inundou a antiga paisagem não foi um cataclismo isolado. Na verdade, quando visto através de uma moldura de milhões de anos, acontecimentos devastadores como esse ocorriam com certa freqüência. A cada vez, inúmeras camadas de material de erupções adicionais enterravam os depósitos mais antigos (e os ossos que eles continham) ainda mais fundo. Por fim, essa pilha de camadas de sedimento (agora transformada em rocha) e lava ficou com 3 km de espessura. Mais tarde, a colisão de placas tectônicas convergentes espremeu essa pilha desobediente em direção ao céu.

Nossos estudos atuais sobre as várias faunas, que têm entre 10 milhões e 50 milhões de anos de idade, estão revelando novas idéias sobre a história da região. Uma das nossas descobertas recentes mais significativas – em um sítio a cerca de 100 km ao norte de Tinguiririca, na bacia de drenagem do rio Cachapoal – é o crânio mais completo já descoberto de um antigo macaco do Novo Mundo. O crânio de 5 cm de comprimento, com ambas cavidades oculares e todos os dentes na mandíbula superior intactos, veio de um pequeno macaco que pesava cerca de 1 kg, no máximo. Chamada de Chilecebus carrascoensis, a criatura se assemelhava aos macacos modernos do Novo Mundo, como os sagüis e os tamaris. Assim como no caso dos roedores caviomorfos, os especialistas debateram por muito tempo se os macacos do Novo Mundo seriam originários da América do Norte ou da África. No entanto, detalhes anatômicos do crânio e dos dentes do Chilecebus sustentam sua herança comum com um grupo de primatas originários da África. Como os roedores caviomorfos, parece que os ancestrais do Chilecebus de alguma forma conseguiram fazer a travessia pelo Atlântico, partindo da África.

Começando com a fauna de Tinguiririca e culminando na descoberta do macaco do Novo Mundo e outras pesquisas ainda em andamento no Chile central, os depósitos vulcânicos uma vez ignorados na busca por fósseis se revelaram redutos de ossos muito bem preservados. E são agora reconhecidos como um arquivo de suma importância no registro da evolução dos mamíferos sul-americanos. Ao longo dos anos, desenvolvemos um senso aguçado para reconhecer rochas auspiciosas, às vezes sendo capazes de enxergá-las mesmo a quilômetros de distância. No entanto, esses fósseis são conquistados com trabalho árduo, devido à topografia íngreme e à distância entre essas tantas localidades. Alguns sítios ficam a alguns quilômetros de estradas de cascalho ou trilhas de terra batida, mas a maioria só pode ser alcançada após longas caminhadas, cavalgadas ou mesmo com a ajuda de helicóptero. Numa brincadeira, criamos a “lei de Andy” (em homenagem a Wyss), que propõe que a dificuldade de chegar a um local é proporcional à quantidade ou qualidade dos fósseis que encontraremos lá.

Juntos, os fósseis cenozóicos do Chile estão ajudando a elucidar a evolução dos mamíferos e as transformações ambientais na América do Sul, continente cujo longo histórico de isolamento representa um experimento natural esplêndido para pesquisar os fenômenos evolucionários de grande escala.

Em busca de fósseis

Mais de 12 locais (bolinhas pretas ao lado) nos Andes chilenos renderam centenas de fósseis de mamíferos desde que, em 1988, os autores descobriram seu esconderijo no vale do Tinguiririca. Com 40 milhões a 10 milhões de anos , vestígios de antigos mamíferos foram os primeiros a serem encontrados nessa região da América do Sul. A maioria dos fósseis de mamíferos do continente foi descoberta mais ao sul, na Patagônia. Os vestígios foram preservados em sedimentos vulcânicos da Formação Abanico (marrom), expostos ao longo de milhares de quilômetros quadrados no íngreme terreno andino.

O elenco

Por J. J. F., A. R. W. e R. C.

Durante cinco períodos de exploração no vale do Tinguiririca, na região central do Chile, nossa equipe descobriu fósseis de 25 espécies de mamíferos. Esses antigos animais, a maioria nova para a ciência, viveram há cerca de 32 milhões de anos. Conhecidos coletivamente como a fauna de Tinguiririca, os mais de 300 espécimes individuais incluem os roedores mais antigos da América do Sul, incluindo uma criatura similar a uma chinchila, ainda sem nome. Fósseis de uma nova espécie de Eomorphippus e Santiagorothia chiliensis, parecidos com cavalos, são os representantes mais antigos de dois subgrupos de notoungulados, herbívoros com cascos extintos há 20 mil anos. A fauna também incluía a maior diversidade de notoungulados da América do Sul conhecidos como arqueoiracídeos – o Archaeotypotherium tinguiriricaense entre eles. O Pseudoglyptodon chilensis, o parente mais próximo das preguiças, e o Klohnia charrieri, similar a um musaranho e o único marsupial de seu tipo, são únicos no Tinguiririca.

Imigrantes africanos

Os macacos e roedores caviomorfos do Novo Mundo (o grupo que inclui as capivaras e chinchilas de hoje e seus parentes) não foram habitantes originais da América do Sul. Na verdade, eles chegaram há 25 milhões de anos, quando o continente ainda era uma ilha. Alguns pesquisadores afirmam que os ancestrais desses animais, vindos da América do Norte, fizeram uma travessia relativamente curta pelo oceano. Mas novos fósseis descobertos no Chile sugerem fortemente que os colonizadores originais viajaram da África à América do Sul a bordo de ilhas flutuantes de vegetação ou outro raro mecanismo de dispersão que os cientistas nunca puderam identificar.

Macaco:
Chilecebus carrascoensis
Esse crânio minúsculo (com 5 cm de comprimento e 20 milhões de anos de idade) pertencia a um macaquinho que pesava 1 kg ou menos e poderia ser similar a um sagüi moderno (à direita).

Roedor:
nova espécie ainda sem nome
O fragmento da mandíbula (de 2 cm de comprimento) vem de um roedor de 32 milhões de anos e é um dos dois fósseis de roedores mais antigos já encontrados na América do Sul. Talvez ele se parecesse com uma cutia moderna (à direita).

Os dentes dizem tudo

A maioria dos fósseis de herbívoros de 32 milhões de anos descobertos no vale do Tinguiririca, Chile, possui dentes molares com coroa alta, ou hipsodontes, como os encontrados no gado moderno para triturar plantas arenosas e fibrosas. Esses molares especializados sugerem que a região de Tinguiririca era rica em pastagens secas na época em que esses animais viveram. Antes disso, boa parte da América do Sul era coberta por florestas, e uma proporção muito menor dessas espécies herbívoras era hipsodontes (linha vermelha no gráfico). Mudanças climáticas globais (linha azul-escura) para condições mais amenas e, portanto, mais secas, há aproximadamente 34 milhões de anos (barra azul-claro) podem explicar por que as ricas florestas secaram.

Dentes com coroa alta

A mandíbula direita quebrada de um herbívoro, do tamanho de uma ovelha e achada em Tinguiririca, exibe dentes resistentes ao desgaste, típicos de animais que se alimentam em pastagens. As coroas, revestidas pelo esmalte protetor, se estendem mais para baixo da linha da gengiva até as pontas das raízes, fornecendo mais material para ser gasto à medida que os dentes crescem.

Dentes com coroa baixa

Na mandíbula inferior direita desse antigo herbívoro chileno ainda sem nome, o esmalte protetor reveste apenas as partes das coroas que se estendem acima da linha da gengiva. Esses dentes não são adequados para uma dieta de vegetais arenosos e geralmente pertencem a animais que comem folhas ou outros alimentos macios.
As camadas que contêm fósseis, empurradas para cima e quase na vertical, são uma prova espetacular das forças tectônicas que têm pressionado o Chile central há milhões de anos. Esses declives íngremes estão localizados próximos ao lago Laja, a cerca de 300 km ao sul do vale do Tinguiririca

Elevação atrasada

Por J. J. F., A. R. W. e R. C.

O que torna os fósseis de mamíferos dos Andes chilenos tão significativos é o fato de terem avançado substancialmente a compreensão da história geológica dessa região. A idade inesperadamente baixa desses mamíferos antigos subverte as hipóteses prevalecentes sobre o tempo de existência das rochas que os abrigam, indicando que essa parte dos Andes se formou pelo menos 70 milhões de anos mais tarde do que se supunha. A maioria das rochas que constituem a espinha dorsal da cadeia principal dos Andes chilenos, nomeada e descrita pela primeira vez por Charles Darwin, foi datada como se tivesse pelo menos 100 milhões de anos. E pensava-se que as fases iniciais da subelevação da crosta da Terra também fossem recentes. Datar esses depósitos de fósseis permitiu à nossa equipe calcular precisamente, pela primeira vez, quando essa parte dos Andes começou a se elevar: entre 15 milhões e 18 milhões de anos atrás. A elevação continuou episodicamente até os dias atuais e se mantém até hoje. Agora, ficou esclarecido que essas bacias extensivas e repletas de sedimentos se formaram durante as fases vulcânicas na história dessa cadeia, dando forma a ecossistemas sem igual e fornecendo meios de preservar esse registro espetacular de fósseis de mamíferos.

Resumo / Fósseis em Abundância

Os mais de 1.500 espécimes de fósseis descobertos nos Andes chilenos incluem uma coleção notável de novas espécies, assim como vestígios dos roedores mais antigos conhecidos no continente.

Com 40 milhões a 10 milhões de anos de idade, esses novos fósseis preenchem lacunas na história conhecida dos mamíferos incomuns da América do Sul.

Alguns dos fósseis atestam a existência de pastagens de 32 milhões de anos que existiram lá cerca de 15 milhões de anos antes do que em qualquer outro lugar do mundo.

Para conhecer mais

Splendid isolation: the curious history of South American mammals. George Gaylord Simpson. Yale University Press, 1980.

Cenozoic environmental change in South America as indicated by mammalian body size distributions (cenograms). Darin A. Croft, em Diversity and Distributions, vol. 7, no 6, págs. 271-287, novembro de 2001.


The Tinguiririca fauna, Chile: biochronology, paleoecology, biogeography, and a new earliest oligocene South American land mammal “Age”. J. J. Flynn, A. R. Wyss, D. A. Croft e R. Charrier, em Palaeogeography, Palaeoclimatology, Palaeoecology, vol. 195, no 3/4, págs. 229-259, 15 de junho de 2003.

Para mais detalhes sobre como as linhagens de mamíferos habitaram a América do Sul quando o continente se tornou geograficamente isolado, visite www.dcpaleo.org/Research/SAMammals/SAMammals.html