Reportagem
edição 60 - Maio 2007
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Os mamíferos desaparecidos da América do Sul
Fósseis no Chile revelam mamíferos que habitavam a região e derrubam antigos conceitos sobre a geologia do continente
 
[continuação]

Quando ficamos sabendo de um relatório sobre pegadas de dinossauros, decidimos arriscar que o vale do Tinguiririca pudesse abrigar fósseis. As rochas tinham a idade certa – na época, os geólogos pensavam que a maioria das rochas ao longo da espinha dorsal dos Andes chilenos datava de pelo menos 65 milhões a 100 milhões de anos, o último período da Era Mesozóica, quando os dinossauros reinavam supremos.

Sabíamos que qualquer sedimento capaz de preservar pegadas também poderia conter resíduos de ossos daqueles que as deixaram. Se tivéssemos muita sorte e mantivéssemos os olhos bem atentos sobre o solo, poderíamos até encontrar um fóssil de um dos pequeninos mamíferos contemporâneos dos dinossauros, que não eram maiores que um musaranho.

Em 1988, no último dia de nossa viagem de reconhecimento, que durou uma semana, nossa equipe de quatro pessoas se separou para pesquisar os declives íngremes às margens do rio Tinguiririca. Quase que imediatamente a dupla que trabalhava ao norte do rio alcançou uma camada de sedimentos antigos que traziam pegadas de dinossauros, e então continuou a examinar o vale em busca de mais depósitos potenciais de fósseis. Para seu desapontamento, porém, os únicos fósseis que conseguiram recolher foram de peixes, amonites e outras criaturas marinhas – nada de répteis ou mamíferos. A equipe que trabalhava ao sul do rio também estava tendo um dia frustrante. Ao final da tarde, no entanto, a animação aumentou quando conseguiram identificar alguns fragmentos fossilizados de ossos e dentes numa erosão em uma grande porção de sedimentos vulcânicos marrom-avermelhados, cerca de 1 mil metros acima do solo do vale. Exames mais detalhados revelaram que os fósseis eram de vertebrados terrestres do tamanho aproximado de um cavalo pequeno.

Primeiro, tentamos encaixar esses fragmentos na visão prevalecente sobre a idade das rochas – animais desse tamanho deveriam ser dinossauros peculiares ou outros animais estranhos do Mesozóico. Mas os dentes complexos e diferenciados, com os molares multifacetados com coroa alta e a parte superior reta existentes em apenas alguns mamíferos, tinham outra história para contar. Os mamíferos eram claramente grandes demais – e também avançados demais – para terem vivido antes de 50 milhões de anos atrás. Aparentemente, os geólogos tinham errado feio em sua estimativa da idade daquelas rochas. Na verdade, análises posteriores confirmaram que esses novos fósseis eram da Era Cenozóica, período da Terra em que vivemos hoje e que começou quando os dinossauros não-aviários foram extintos, há 65 milhões de anos. (Sabe-se que os pássaros são terópodes, representando assim um grupo de dinossauros).
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