Reportagem
edição 60 - Maio 2007
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Os mamíferos desaparecidos da América do Sul
Fósseis no Chile revelam mamíferos que habitavam a região e derrubam antigos conceitos sobre a geologia do continente
 
Crânios de herbívoros, como vistos pela primeira vez no campo, foram preservados por um molde grosso de cinza fossilizada e lama de antigas erupções vulcânicas. Mesmo antes dos cientistas retirarem os ossos da rocha, eles puderam identificar ambos os espécimes como tipos de herbívoros extintos com cascos, conhecidos como notoungulados. Os dentes com coroa alta, típicos de animais que pastam, são praticamente notáveis no espécime de cima. O outro crânio, que pertencia a um notoungulado comedor de folhas mais velho chamado notopithecine, foi descoberto recentemente no rio Teno
[continuação]

Sem Macaquices

Ao encontrar um tesouro tão rico em informações paleontológicas e ambientais em vários locais no vale do Tinguiririca, começamos a considerar se essa parte dos Andes era um caso de “sucesso único” paleontológico. Pouco tempo depois, tivemos uma chance inesperada de buscar uma resposta. Na primavera de 1994, a reconstrução da estrada que leva ao vale do Tinguiririca estava especialmente lenta, mas não sabíamos de sua interdição até chegarmos lá. Transformando a frustração em oportunidade, começamos a fazer explorações fora do vale.

Examinamos outros grandes vales com afloramentos das mesmas rochas sedimentares vulcânicas, expostas ao longo de milhares de quilômetros quadrados de terreno montanhoso. Com os resultados de anos de trabalho de campo, determinamos que os fósseis de mamíferos na verdade não estavam restritos ao vale do Tinguiririca e que a torrente vulcânica que inundou a antiga paisagem não foi um cataclismo isolado. Na verdade, quando visto através de uma moldura de milhões de anos, acontecimentos devastadores como esse ocorriam com certa freqüência. A cada vez, inúmeras camadas de material de erupções adicionais enterravam os depósitos mais antigos (e os ossos que eles continham) ainda mais fundo. Por fim, essa pilha de camadas de sedimento (agora transformada em rocha) e lava ficou com 3 km de espessura. Mais tarde, a colisão de placas tectônicas convergentes espremeu essa pilha desobediente em direção ao céu.

Nossos estudos atuais sobre as várias faunas, que têm entre 10 milhões e 50 milhões de anos de idade, estão revelando novas idéias sobre a história da região. Uma das nossas descobertas recentes mais significativas – em um sítio a cerca de 100 km ao norte de Tinguiririca, na bacia de drenagem do rio Cachapoal – é o crânio mais completo já descoberto de um antigo macaco do Novo Mundo. O crânio de 5 cm de comprimento, com ambas cavidades oculares e todos os dentes na mandíbula superior intactos, veio de um pequeno macaco que pesava cerca de 1 kg, no máximo. Chamada de Chilecebus carrascoensis, a criatura se assemelhava aos macacos modernos do Novo Mundo, como os sagüis e os tamaris. Assim como no caso dos roedores caviomorfos, os especialistas debateram por muito tempo se os macacos do Novo Mundo seriam originários da América do Norte ou da África. No entanto, detalhes anatômicos do crânio e dos dentes do Chilecebus sustentam sua herança comum com um grupo de primatas originários da África. Como os roedores caviomorfos, parece que os ancestrais do Chilecebus de alguma forma conseguiram fazer a travessia pelo Atlântico, partindo da África.

Começando com a fauna de Tinguiririca e culminando na descoberta do macaco do Novo Mundo e outras pesquisas ainda em andamento no Chile central, os depósitos vulcânicos uma vez ignorados na busca por fósseis se revelaram redutos de ossos muito bem preservados. E são agora reconhecidos como um arquivo de suma importância no registro da evolução dos mamíferos sul-americanos. Ao longo dos anos, desenvolvemos um senso aguçado para reconhecer rochas auspiciosas, às vezes sendo capazes de enxergá-las mesmo a quilômetros de distância. No entanto, esses fósseis são conquistados com trabalho árduo, devido à topografia íngreme e à distância entre essas tantas localidades. Alguns sítios ficam a alguns quilômetros de estradas de cascalho ou trilhas de terra batida, mas a maioria só pode ser alcançada após longas caminhadas, cavalgadas ou mesmo com a ajuda de helicóptero. Numa brincadeira, criamos a “lei de Andy” (em homenagem a Wyss), que propõe que a dificuldade de chegar a um local é proporcional à quantidade ou qualidade dos fósseis que encontraremos lá.

Juntos, os fósseis cenozóicos do Chile estão ajudando a elucidar a evolução dos mamíferos e as transformações ambientais na América do Sul, continente cujo longo histórico de isolamento representa um experimento natural esplêndido para pesquisar os fenômenos evolucionários de grande escala.
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