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Reportagem

Perigo no ar

Apesar dos avanços nos últimos 20 anos, a poluição atmosférica continua a ser um problema grave de saúde pública em São Paulo

Eduardo Augusto Geraque
No inverno, é comum observar um céu marrom em São Paulo devido à chamada inversão térmica, que dificulta a dispersão dos poluentes
Para as 18 milhões de pessoas que moram na Grande São Paulo, o problema da poluição atmosférica fica relegado a uma posição secundária diante de tantos outros de uma megalópole. Além disso, muitos habitantes da região não se sentem parte de um ambiente natural, como ocorre, por exemplo, com os ribeirinhos ou os indígenas da Amazônia. Porém, a situação ambiental da cidade não pode continuar ignorada. Dados recentes mostram inequivocamente que a bacia aérea de São Paulo - área em que o relevo, os ventos e outras condições de dispersão de poluentes determinam o impacto das atividades humanas na qualidade do ar - está saturada. Essa constatação não é feita apenas por pesquisadores. Médicos atendem cada vez mais pacientes com complicações respiratórias causadas pela poluição.

A evolução tecnológica, junto com políticas nacionais como o Programa de Controle da Poluição do Ar por Veículos Automotores (Proconve), que completa duas décadas este ano, trouxeram importantes progressos. Os automóveis particulares hoje emitem 98% menos monóxido de carbono que nos anos 80. Também se retirou o chumbo tetraetila da gasolina - um aditivo altamente tóxico usado para aumentar sua octanagem - e o teor de enxofre presente nos combustíveis atualmente está abaixo dos 0,5%. Mesmo assim, os problemas atuais são difíceis de contornar.

Nelson Gouveia, professor da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), dedica-se há quase uma década ao estudo dos efeitos da poluição do ar na cidade de São Paulo. Os dados apresentados por ele são conclusivos. Os contaminantes atmosféricos são capazes de afetar bebês, mesmo no útero materno. Um estudo feito por seu grupo de pesquisadores analisou uma amostra de 311.735 crianças nascidas entre 1998 e 2000. Dentro desse universo, 4,6% dos bebês estudados tinham menos de 2,5 kg ao nascer. Essa proporção é alta, comparada com a de locais menos poluídos. Testes estatísticos revelaram uma correlação significativa entre o peso dos recém-nascidos e a quantidade de monóxido de carbono, material particulado e dióxido de enxofre no ar durante o primeiro trimestre da gravidez - os três poluentes são monitorados todos os dias na cidade por meio da rede de monitoramento da Companhia de Tecnologia de Saneamento Básico (Cetesb). "Os resultados não surpreendem", avalia Gouveia. Porém, segundo ele, "existem poucos estudos desse tipo. Existem ainda menos tratando da prematuridade e no máximo dois que relacionam poluição do ar a defeitos congênitos. O problema deve continuar a ser estudado".

Paulo Saldiva, do Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental da mesma faculdade, é um pioneiro nesses estudos que troca muitas vezes o automóvel pela bicicleta para se locomover pela cidade. Ele estuda há 30 anos os efeitos da poluição sobre a saúde humana. Com sua experiência, afirma seguro: "A poluição é um problema de saúde pública. Em São Paulo, o impacto sobre cada habitante, por dia, é equivalente a fumar três cigarros. Isso significa maior risco de bronquite crônica, agravamento das crises de asma e de doenças cardiovasculares, recém-nascidos de menor peso, abortamento e redução da expectativa de vida".

Após centenas de experimentos realizados em seu laboratório, Saldiva apresenta dados alarmantes sobre a poluição do ar na maior cidade da América do Sul. Segundo ele, no Instituto do Coração, a cada 100 consultas ao pronto-socorro, 12 estão associadas a problemas resultantes da poluição do ar. De 5% a 6% das mortes "naturais" de idosos são aceleradas pela poluição, o que é considerado um índice alto pelos médicos. A relação entre poluição atmosférica e o desenvolvimento de tumores também é conhecida. O risco de ser vítima de câncer de pulmão morando em uma cidade como São Paulo é 10% maior do que em outros locais. Em termos gerais, de 5% a 10% das mortes supostamente naturais na cidade estão associadas à poluição, e como morrem por dia 110 pessoas, temos dez falecimentos diários ocasionados pelos poluentes do ar."
Os ônibus liberam grande quantidade de aerossóis, partículas sólidas microscópicas. Asma e câncer de pulmão estão entre os efeitos da inalação desse material
Diante da relação bem estabelecida entre poluentes e saúde pública, novos desafios científicos se colocam, e eles não são poucos. Ainda não se sabe bem quais substâncias químicas presentes no ar invisível são realmente tóxicas. Quando os piores inimigos forem identificados, ainda restará saber como eles agem no organismo. Vencidas essas duas etapas, estratégias mais eficazes de redução do problema poderão emergir. Já existem pistas sobre possíveis vilões. Os chamados metais transicionais, por exemplo, aqueles que têm mais de um estado de valência, podendo formar muitos tipos de compostos, são os mais analisados. O aparelho digestivo evoluiu a ponto de conseguir lidar com esses elementos químicos, mas o mesmo não pode ser dito sobre o sistema respiratório.

Em termos práticos, segundo Gouveia, um outro ponto precisa ser levado em conta. Segundo ele, hoje é inviável tentar reduzir a poluição a zero.

Sendo assim, como as substâncias nocivas não podem ser completamente eliminadas, é preciso saber a partir de que altura da chamada curva dose-resposta de cada um dos poluentes a situação fica realmente crítica. "Temos de transformar tudo isso em uma linguagem de política de controle. Em formas mais sofisticadas de gerenciamento da poluição."

Para o pesquisador da USP, outro tópico ainda pouco explorado concerne aos efeitos crônicos da poluição. Seus efeitos "agudos" são muito mais conhecidos. "Uma coisa é a poluição aumentar e você ter uma exacerbação da doença e morrer. Isso conseguimos perceber com facilidade. Outra coisa é você respirar essa poluição por anos e anos e ela ir prejudicado aos poucos o organismo, até gerar um efeito agudo. Existe uma contribuição crônica que não temos como medir. Isso seria muito difícil, porque envolveria estudos acompanhando pessoas por muito tempo. Esse tipo de estudo ainda não existe no Brasil. Na verdade, no mundo, existem três estudos desse tipo. Dois grandes nos Estados Unidos e um na Europa", diz. Os chamados estudos longitudinais, explica Gouveia, são essenciais para que se tenha uma medida mais exata do efeito da poluição. Eles seriam equivalentes a ter todo um filme nas mãos, em vez de apenas algumas fotografias de um evento.
Motocicletas na Avenida Paulista, uma das mais importantes da cidade. São Paulo possui a maior frota de motos do país
O Fator Tecnologia
Além dos grupos da área médica que tentam entender melhor como uma bacia aérea saturada afeta as pessoas que respiram nela, existe uma outra frente possível de combate ao problema: avanços tecnológicos objetivando reduzir ainda mais as emissões de poluentes. Gouveia observa que grupos multidisciplinares dedicados a aliviar a questão da poluição são raros. Um plano de redução de poluentes, junto com medidas apropriadas de saúde pública, tornaria a estratégia de combate ao problema mais eficaz.

Na área tecnológica ações vêm sendo tomadas desde os anos 80. Alterações na composição da gasolina, melhoria dos sistemas de queima de combustível dos carros (com a chegada dos catalisadores) e outras medidas tiveram impacto drástico na redução de emissões. Para ilustrar esse fato, de cinco poluentes medidos hoje nas grandes cidades do mundo que contam com uma rede de monitoramento (São Paulo e Cidade do México entre elas), dois deles - o dióxido de enxofre e o monóxido de carbono - não oferecem mais riscos significativos. Em compensação, as partículas sólidas inaláveis, o ozônio e o óxido de nitrogênio, que pode gerar preocupantes contaminantes secundários, estão presentes com freqüência em níveis considerados inseguros no ar de São Paulo. Muitas vezes, acima da média recomendada pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

Quanto ao ozônio e às partículas inaláveis (a poeira, por exemplo, está nessa categoria, ao lado de corpos microscópicos chamados aerossóis), os agentes mais perigosos, sua origem é bem conhecida. Nas grandes cidades do mundo, respectivamente 80% e 40% dos precursores desses dois contaminantes derivam da queima de diesel pela frota veicular. Técnicos defendem que atacar a poluição gerada pelo uso de óleo diesel é uma providência urgente.

Dados publicados no relatório anual da Cetesb sobre a qualidade do ar na região metropolitana de São Paulo mostram que em 60 dias do ano de 2004 a quantidade de ozônio no ar excedeu a considerada segura pela OMS. Em relação às partículas inaláveis, o máximo de 150 microgramas por metro cúbico foi ultrapassado sete vezes nos quatro bairros onde essa medição é feita.

Outra preocupação - exclusiva de São Paulo - são as motocicletas. Com o aumento anual da frota, deve-se começar a pensar em como reduzir a poluição causada por esse tipo de veículo, diz Saldiva. Segundo o pesquisador, uma moto emite até 20 vezes mais poluentes por quilômetro que um carro novo. E como em São Paulo as motos circulam 180 km por dia, em média, comparados com apenas 30 km para os carros, elas podem chegar a emitir, cada uma, tanto quanto 120 automóveis num dia.

De maneira semelhante às pesquisas médicas, o componente tecnológico da equação sugere estratégias que podem ser adotadas. A melhoria dos combustíveis, levando em conta fatores ambientais, é um imperativo para futuro próximo. Se o diesel, por exemplo, continuar sendo utilizado nos níveis atuais, além de tudo por uma frota antiga e ineficiente, a redução de poluentes conseguida nos últimos 20 anos graças à tecnologia poderá ser compensada pelo aumento do consumo em apenas meia década.
A cada 100 consultas no pronto-socorro do Instituto do Coração, 12 estão associadas a problemas resultantes da poluição do ar
Pensando em Soluções
Não basta que os pesquisadores e médicos se familiarizem com os mecanismos de atuação dos poluentes no corpo humano, ou que os engenheiros desenvolvam úteis soluções tecnológicas para equipar os veículos automotores - a maior fonte de poluição atmosférica nas cidades, bem à frente das indústrias. Os avanços precisam ser incorporados, seja pelo sistema político, seja por organizações não-governamentais. A população paulistana, ao contrário dos habitantes da Cidade do México, foi contrária a um rodízio de veículos "ambiental", criado para a Região Metropolitana de São Paulo entre 1996 e 1997.

Durante o mês de agosto, a cada dia, carros com finais de placa específicos não podiam circular das 7 às 20 h. O atual rodízio alivia apenas o trânsito, sem afetar muito os índices de poluição atmosférica.
Na Cidade do México, cuja malha metroviária é cinco vezes mais extensa que a paulistana, um rodízio está em vigor desde 1989, e apenas agora dá sinais de que precisa ser reformulado. Apesar de ser uma medida paliativa e dificultar o deslocamento das pessoas, lá ele é considerado um mal necessário, segundo recentes pesquisas de opinião. No anos 80, ao verem pássaros morrendo nas praças da capital do país, os mexicanos passaram a se preocupar seriamente com a qualidade do ar. Os níveis de contaminação registrados em São Paulo, ao longo da história, nunca foram tão graves quanto os da cidade do México. Pelo menos até agora.

Poluentes Rastreados

Atualmente, mais de 400 cientistas rastreiam o comportamento dos poluentes que afetam os moradores da Cidade do México, que junto com os municípios vizinhos tem hoje quase 20 milhões de habitantes. Chefiados por Mario Molina, cientista mexicano radicado nos Estados Unidos e ganhador do Prêmio Nobel de Química de 1995 por seus estudos da camada de ozônio, grupos de várias disciplinas trabalham com um orçamento de US$ 25 milhões e aviões, um deles um DC-8 da Nasa. Eles querem saber, por exemplo, até que ponto os aerossóis (partículas microscópicas de diversas composições em suspensão na atmosfera) interferem não apenas na capital mexicana, mas em escala maior, inclusive internacional.

Como o problema paulistano é semelhante ao da capital mexicana em muitos aspectos, em São Paulo pesquisadores da USP se empenham nessa tarefa. "Já sabemos que esses compostos prejudicam a saúde das populações urbanas. Até 2005, não tínhamos como fazer estudos do aerossol urbano. Agora, isso é possível. Essa metodologia desenvolvida por nós em parceria com outros grupos, que combina modelagem computacional e monitoramento do ar, além de uma alta resolução espacial, nos parece ideal para enfocar o problema", explica Paulo Artaxo, pesquisador do Instituto de Física da USP. O método a que ele se refere está sendo aplicado também no México. Quem o utiliza é a pesquisadora Andréa Castanho, que também pertence ao grupo paulista. "Nesse projeto, estamos trabalhando com métodos de estudo dos aerossóis a partir de sensoriamento remoto", explica a pesquisadora, que, em março desse ano, participou de coleta de dados na Cidade do México.

Ao lançar o programa, Luisa Molina, pesquisadora e mulher de Mario Molina, lembrou do esforço internacional feito para implementar o Projeto Milagro (Megacity Initiative: Local and Global Research Observations), como o estudo é chamado. Com recursos oriundos de instituições mexicanas e européias, além do Departamento de Energia e da Fundação Nacional de Ciência dos EUA, foi possível reunir os 400 pesquisadores que representam 45 instituições do México e outras 60 dos Estados Unidos. A pesquisadora brasileira participa do programa por meio do Instituto de Tecnologia de Massachussetts.

Segundo Luisa, que nasceu nas Filipinas e hoje trabalha no Centro Molina para Estudios Estratégicos sobre Energía y Medio Ambiente, sediado na Cidade do México, parte dos recursos obtidos pelo programa será destinada à educação e capacitação de jovens estudantes e de representantes de vários setores interessados no tema. "Além de influir na elaboração de políticas públicas que levem em consideração o problema da contaminação do ar", diz.

No caso específico de São Paulo, os modelos desenvolvidos por Artaxo na USP permitem a diferenciação entre vários tipos de aerossóis, que podem ser mais ou menos prejudiciais. Eles já mostraram que a composição do ar de São Paulo varia dependendo da parte da cidade. Esses indicadores já podem ser utilizados por médicos. "Percebemos que existe um tipo de aerossol na Cidade Universitária (zona oeste da capital paulista) e outro no centro da cidade. Estamos em um município com 150 por 150 quilômetros que emite três vezes mais poluição do que toda a Suécia", afirma Artaxo. O pesquisador tem dados sobre algumas cidades do interior de São Paulo que mostram que o problema não está mais restrito aos grandes centros urbanos. Na região de Piracicaba, por exemplo, nos meses da queimada da cana-de-açúcar, os hospitais ficam cada vez mais lotados, por causa das partículas inaláveis lançadas na atmosfera, bastante visíveis.

Para conhecer mais

Poluição do ar e doenças respiratórias: uma revisão. Milena P. Duchiade, em Cadernos de Saúde Pública, vol.8, no 3, julho/setembro de 1992

Poluição atmosférica e atendimentos por pneumonia e gripe em São Paulo, Brasil. Lourdes Conceição Martins,em Revista de Saúde Pública, vol. 36, no 1, p.88-94, fevereiro de 2002.