Reportagem
  
edição 72 - Maio 2008
« 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 »
Perspectivas para a regeneração de membros humanos
O progresso rumo à regeneração de partes importantes do organismo, como acontece com a salamandra, pode revolucionar o tratamento de amputações e de ferimentos graves
por Ken Muneoka, Manjong Han e David M. Gardiner
[continuação]

O Desafio Humano

A intenção de regenerar um membro humano pode ainda parecer longe da realidade. Contudo as constatações que acabamos de descrever nos permitem estimar com conhecimento de causa como isso se dará. Um membro amputado humano resulta numa superfície ferida complexa e extensa que secciona diversos tecidos, incluindo epiderme, derme, tecido conectivo intersticial, tecido adiposo, músculos, ossos, nervos e vascularização. Analisando esses tecidos separadamente, verificamos que a maioria deles é perfeitamente capaz de se regenerar após um ferimento de pequeno porte.

Na verdade, o único tipo tecido contido num membro que não apresenta potencial regenerativo é a derme, que é composta por uma população heterogênea de células, muitas das quais são fibroblastos – as mesmas células que desempenham papel crucial na resposta de regeneração na salamandra. Seguindo um ferimento em humanos e outros mamíferos essas células sofrem um processo denominado fibrose, que “cicatriza” feridas depositando uma trama desorganizada de matriz extracelular, que evolui formando um tecido cicatricial. A diferença mais significante entre a regeneração na salamandra e a ausência de regeneração nos mamíferos é que os fibroblastos dos mamíferos formam cicatrizes, enquanto os da salamandra, não. A resposta fibrótica nos mamíferos não apenas impede a regeneração, mas pode se transformar em um problema médico bastante sério, com potencial de comprometer progressiva e permanentemente o funcionamento de vários órgãos, como o fígado e o coração, como conseqüência de um trauma ou de uma doença.

Estudos de ferimentos profundos demonstram que ao menos duas populações de fibroblastos invadem uma ferida durante a convalescença. Algumas dessas células são fibroblastos encontrados na derme e os outros derivam de células-tronco semelhantes a fibroblastos, em circulação. Ambos os tipos são atraídos para a ferida por sinais de células imunológicas que também seguem prontamente para o local. Uma vez na ferida, os fibroblastos migram e proliferam, vindo a produzir e modificar a matriz extracelular da área. Esse processo inicial não difere muito do observado na resposta regenerativa da ferida de uma salamandra, mas os fibroblastos dos mamíferos produzem uma quantidade excessiva de matriz que anormalmente passa a ter ligações cruzadas conforme o tecido cicatricial evolui. Já os fibroblatos na salamandra param a produção da matriz tão logo a configuração original tenha sido restaurada.
« 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 »
MULTIMÍDIA: Veja as animações: Regeneração perfeita, Estratégias de cura divergentes e O caminho para a regeneração.
Ken Muneoka, Manjong Han e David M. Gardiner integram um grupo de pesquisa multiinstitucional empenhado em regenerar membros de mamíferos. Seu grupo, liderado por Muneoka, é um dos dois únicos a receber uma verba multimilionária da Agência Americana de Defesa de Projetos de Pesquisa Avançada para buscar a regeneração de membros humanos. Muneoka é professor, e Han é professor-assistente de pesquisa do departamento de biologia celular e molecular da Tulane University. Gardiner é biólogo pesquisador do departamento de biologia celular e molecular da University of Califórnia em Irvine, onde também Muneoka recebera uma bolsa de estudos para completar seu pós-doutorado. Muneoka surpreendentemente voltaria a trabalhar lá quando o furacão Katrina o forçou a realocar sua família e equipe de pesquisa de Nova Orleans para Irvine, por cinco meses.
Veja aqui todas as reportagens publicadas neste site!