Reportagem
  
edição 58 - Março 2007
Pescador habilidoso
Graças a plumagem semi-permeável do grande cormorão, esse parente do pelicano é um notável predador aquático.
por David Grémillet
David Grémillet
As asas do cormorão não precisam secar após o mergulho, o que contraria uma idéia muito difundida. Como a plumagem é parcialmente permeável, água escorre tão rapidamente quanto a penetra. Na verdade, o pássaro estende as asas para aquecer o bolo alimentar, graças ao calor produzido pelo esforço muscular
Niaqornarsuk, oeste da Groenlândia, numa manhã de março de 2000. Surgem as primeiras luzes ao fim da noite polar. São 6 horas, e me arrasto com dificuldade para fora do saco de dormir. Quinze graus abaixo de zero dentro da barraca, -27oC fora. Acendo a lamparina e derreto um punhado de neve. Após tomar um bule de chá, entreabro a porta da tenda e espio o exterior com meus binóculos. As lentes desembaçam pouco a pouco e surge paisagem ártica: as águas mansas do fiorde, um resto de neblina que se dissipa, picos nevados, céu azul-cinzento com abundantes nuvens. Diviso uma falésia a cerca de 500 metros; a visibilidade ainda é baixa, mas começo a distinguir a silhueta de algumas dezenas de pássaros sobre a geleira. Muitos ainda dormem, a cabeça sob as asas, mas alguns já se agitam. Logo alçarão vôo, em grupos de cinco ou dez, para ir pescar nas águas do fiorde próximas às geleiras, cuja temperatura é de -1,5oC.

Esses pássaros, conhecidos como grandes cormorões ou corvos marinhos (Phalocrocorax carbo), são extraordinários pescadores. De origem tropical, parecem mal-adaptados ao clima ártico: sua plumagem retém água e seu isolamento térmico é limitado. Ainda assim, alguns deles vivem ao norte do círculo polar e suportam o rigor do inverno da Groenlândia.

O grande cormorão é uma ave palmípede da ordem dos pelicaniformes, isto é, um parente próximo dos pelicanos e das gaivotas. Presente em todos os continentes, sobretudo nas regiões costeiras, mas também nas interiores, essa família agrega cerca de 30 espécies.

O Phalacrocorax carbo, com seis subespécies, tem área de ocorrência bem mais vasta que a de outras espécies e só não é encontrado na América do Sul e na Antártida. Como o nome indica, o grande cormorão é o maior entre os cormorões voadores (existe uma espécie ainda maior nas ilhas Galápagos, com as asas atrofiadas). As dimensões e peso variam bastante entre as subespécies, mas costumam ter tamanho comparável ao de um ganso, pesando entre 1,5 kg e 3,5 kg. Seu corpo é atarracado, as asas são curtas e grandes, próprias para vôos entrecortados, e o pescoço é longo e flexível. Com olhos azul-esverdeados e bico longo, com 5 cm a 8 cm, terminado com em gancho afiado, o grande cormorão tem plumagem marrom e preta, com manchas brancas na base do bico e ao longo do pescoço e - no início da primavera - também nas coxas.
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David Grémillet Pesquisador do Centro Nacional de Pesquisa Científica da França e trabalha no Departamento de Ecologia, Fisiologia e Etologia do Instituto Pluridisciplinar Hubert Curien, em Estrasburgo. Em 2003, recebeu o prêmio franco-britânico do Ministério de Ciência e Inovação da Grã-Bretanha por seu trabalho com os cormorões
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