Reportagem
edição 48 - Maio 2006
Por que alguns animais são tão inteligentes?
O comportamento incomum de orangotangos em um pântano de Sumatra sugere uma resposta surpreendente
por Carel van Schaik
Mãe orangotango e seu filhote em Sumatra
Poucos duvidam de que os seres humanos sejam as criaturas mais inteligentes do planeta. Muitos animais têm habilidades cognitivas especiais, que lhes permitem se dar bem em seus hábitats particulares, mas eles não resolvem problemas novos muito freqüentemente. Alguns fazem isso, e nós os consideramos inteligentes, mas nenhum é tão perspicaz quanto nós.

O que favoreceu a evolução de uma capacidade cerebral tão distinta nos nossos ancestrais hominídeos? Uma maneira de tentar responder a pergunta é examinar os fatores que podem ter moldado outras criaturas que demonstram grande inteligência e ver se essas mesmas forças teriam operado em nossos antecessores. Várias aves e mamíferos, por exemplo, são muito melhores em resolver problemas que elefantes, golfinhos, papagaios, corvos. Mas a pesquisa com nossos parentes mais próximos, os grandes macacos, certamente tende a ser reveladora.

Os acadêmicos propõem várias explicações para a evolução da inteligência dos primatas, linhagem à qual pertencem humanos e os grandes primatas (ao lado de outros macacos, os lóris e os lêmures). No entanto, nos últimos 13 anos, nossos estudos com orangotangos inesperadamente produziram uma nova explicação.

Uma tentativa de explicar a inteligência dos primatas credita o desenvolvimento de habilidades cognitivas fortes à complexidade da vida social. Tal hipótese, conhecida como "inteligência maquiavélica", sugere que o sucesso na vida social se fia no cultivo das amizades mais lucrativas e na leitura rápida das situações sociais. As demandas da sociedade favorecem a inteligência porque as criaturas mais inteligentes seriam as mais bem-sucedidas em se autoproteger e, portanto, em passar seus genes para a próxima geração. Características maquiavélicas, no entanto, podem não ser benéficas para outras linhagens, ou mesmo para todos os primatas, de modo que essa idéia, por si só, não é satisfatória.
É possível imaginar outras forças que promoveriam a evolução da inteligência, como a necessidade de dar duro para obter comida. Seria vantajosa a capacidade de descobrir com habilidade alimentos escondidos ou de lembrar a localização de fontes essenciais de comida. Essa esperteza seria recompensada com a passagem de mais genes para a geração seguinte.

Minha própria explicação, que não é incompatível com as outras, põe ênfase no aprendizado social. Entre os humanos, a inteligência se desenvolve ao longo do tempo. Uma criança aprende primariamente por meio da orientação de adultos pacientes. Sem estímulos sociais - ou seja, culturais fortes, mesmo uma potencial criança-prodígio terminará um adulto inepto. Hoje temos evidências de que esse processo de aprendizado social se aplica também aos grandes macacos, e eu acredito que, via de regra, os animais inteligentes são os culturais: eles aprendem uns com os outros soluções inovadoras para problemas ecológicos ou sociais. Em resumo, a cultura promove a inteligência.

Cheguei a essa proposta circunstancialmente, observando orangotangos nos pântanos da costa oeste da ilha de Sumatra, Indonésia. O orangotango é o único grande primata da Ásia, confinado às ilhas de Bornéu e Sumatra e famoso por seus hábitos solitários. Se comparado ao chimpanzé africano, esse macaco ruivo é sereno em vez de hiperativo, e socialmente reservado em vez de sociável. Ainda assim, descobrimos nele as condições que permitem o florescimento da cultura.

No começo, ficamos atraídos pelo pântano porque ele abrigava números desproporcionalmente altos de orangotangos - diferentemente das florestas secas da ilha, o hábitat úmido do pântano fornece comida em abundância para os macacos o ano todo, e pode ser usado para sustentar uma população grande.

Uma das nossas primeiras descobertas nos impressionou: os orangotangos criavam e usavam uma ampla variedade de ferramentas. Embora esses macacos ruivos sejam ávidos usuários de ferramentas em cativeiro, isso não costuma ocorrer entre animais selvagens. Mas os animais em Suaq são uma exceção impressionante. Eles confeccionam suas ferramentas com dois objetivos principais. Primeiro, para apanhar formigas, cupins e, sobretudo, mel (principalmente de abelhas sem ferrão) - muito mais do que orangotangos em outras regiões. Eles freqüentemente observam os troncos de árvore, prestando atenção ao tráfego aéreo para dentro e para fora de pequenos buracos.
Uma vez descobertos, os buracos se tornam foco de inspeção, primeiro visual e depois manual. Geralmente o dedo do orangotango não é comprido o bastante, e o animal prepara uma ferramenta com um graveto. Depois de inseri-la com cuidado, ele delicadamente a move para frente e para trás, então a retira, lambe e volta a enfiá-la no tronco. A maior parte dessa "manipulação" é feita com a ferramenta presa entre os dentes; somente os instrumentos maiores, usados para quebrar pedaços de ninhos de cupim, são manuseados.

O segundo contexto em que esses macacos usam ferramentas diz respeito ao fruto da Neesia. Essa árvore produz cápsulas lenhosas, pentagonais, de até 25 cm de comprimento 10 cm de largura. As cápsulas são recheadas de sementes marrons do tamanho de favas que, por conterem quase 50% de gordura, são altamente nutritivas - uma guloseima rara e muito procurada num ambiente natural sem fast-food. A árvore protege seus frutos criando uma casca muito dura. Quando as sementes estão maduras, a casca começa a rachar; as aberturas aumentam gradualmente, expondo as fileiras de sementes, que desenvolveram belos ligamentos vermelhos (polpa) que contêm até 80% de gordura. Para desencorajar os predadores, uma massa de espinhos afiados preenche a casca.

Os orangotangos em Suaq tiram a casca de ramos de árvore curtos e retos, que eles seguram na boca e inserem nas aberturas nos frutos. Ao mexer a ferramenta para cima e para baixo, separam as sementes de seus talos. Depois dessa manobra, jogam as sementes direto na boca. No final da estação, os orangotangos comem somente a polpa vermelha, usando a mesma técnica para alcançá-la sem se ferir.

Ambos os métodos de modificar gravetos para buscar comida são disseminados em Suaq. No geral, a "pescaria" em buracos nas árvores é ocasional e dura apenas alguns minutos, mas quando os frutos da Neesia se abrem, os macacos dedicam a maior parte do seu dia a extrair as sementes ou a polpa, e nós os vemos ficarem mais gordos e lustrosos a cada dia.
Influência Cultural
O que explica essa curiosa concentração do uso de ferramentas quando orangotangos selvagens em outros lugares mostram propensão tão baixa a ele? Duvidamos que os animais em Suaq sejam mais inteligentes: a observação de que a maioria dos membros da espécie em cativeiro é capaz de aprender a usar ferramentas sugere que a capacidade cerebral básica para fazê-lo está presente. A resposta poderia estar no seu ambiente. Os orangotangos estudados anteriormente viviam, em sua maior parte, em florestas de terra firme, e o pântano fornece um hábitat unicamente luxuriante. Mais insetos fazem seus ninhos em buracos nas árvores ali que nas florestas secas, e a Neesia só cresce em lugares úmidos perto de água corrente.

Por mais tentadora que soe a explicação ambiental, no entanto, ela não esclarece por que os orangotangos de várias populações fora de Suaq ignoram essa mesma riqueza de recursos alimentares. Tampouco justifica por que algumas populações que comem as sementes as colhem sem ferramentas (ingerindo, por conseqüência, muito menos que os orangotangos de Suaq). O mesmo é verdade para as ferramentas usadas em buracos de árvore. Hábitats de montanha são bastante comuns ao longo da zona de distribuição geográfica dos orangotangos; então, se é possível usar ferramentas nas áreas acima do pântano, por que não em todo lugar?

Também pensamos no velho adágio "a necessidade é a mãe da invenção". Como os animais de Suaq vivem numa densidade demográfica alta, competem muito mais por alimentos. Conseqüentemente, muitos ficariam sem comida a menos que pudessem acessar os suprimentos difíceis de serem alcançados - ou seja, eles precisam usar ferramentas para poder comer. O argumento mais forte contra essa possibilidade é que alimentos doces ou gordurosos que as ferramentas tornam acessíveis são os preferidos dos orangotangos e, portanto, deveriam ser procurados por esses animais em todo lugar. Por exemplo, os macacos ruivos em várias partes se submetem a sucessivas picadas de abelha para obter seu mel. Então, a idéia de necessidade tampouco pára em pé.

Uma possibilidade diferente é que esses comportamentos sejam técnicas inovadoras que alguns orangotangos espertos inventaram. Elas se espalharam e persistiram na população porque outros indivíduos as aprenderam de tanto observar esses especialistas. Em outras palavras, o uso de ferramentas é cultural. Um grande obstáculo ao estudo da cultura na Natureza, no entanto, é que, ao barrar a introdução de experimentos, não é possível demonstrar de forma convincente que o animal observado está inventando um truque novo e não simplesmente aplicando um hábito antigo, mas que não é praticado freqüentemente. Tampouco podemos provar que um indivíduo aprendeu uma nova habilidade de outro membro do grupo em vez de descobri-la sozinho. Embora possamos mostrar que orangotangos em laboratório são capazes de observar e aprender socialmente, esses estudos não nos dizem nada sobre a cultura na Natureza - nem por que ela surge ou quanto dela existe. Então, pesquisadores de campo tiveram de desenvolver um sistema de critérios para demonstrar que um dado comportamento tem base cultural.
Primeiro, o comportamento deve variar geograficamente, e dar mostras de ter sido criado em algum lugar, e deve ser comum no local onde foi descoberto, isto é, espalhou-se e persistiu numa população. Os usos de ferramentas em Suaq passam facilmente nos dois primeiros testes. O segundo passo é eliminar explicações mais simples que produzem o mesmo padrão espacial, mas sem envolver aprendizado social. Nós já excluímos uma explicação ecológica, na qual indivíduos expostos a um dado hábitat desenvolvem independentemente a mesma habilidade. Podemos eliminar também a genética, porque a maioria dos orangotangos cativos também é capaz de aprender a usar ferramentas.

O terceiro teste, e o mais revelador, é que deveríamos encontrar distribuições geográficas comportamentais passíveis de ser explicadas pela cultura e que não são facilmente esclarecidas de outra forma. Um padrão-chave seria a presença de um comportamento em um lugar e sua ausência além de dada barreira de dispersão. No caso dos usuários de ferramentas de Suaq, a distribuição geográfica da Neesia nos dá pistas decisivas. As árvores (e os orangotangos) existem em ambos os lados do largo rio Alas. No entanto, no pântano Singkil, imediatamente ao sul de Suaq e no mesmo lado do rio, o chão era coalhado de ferramentas, enquanto no pântano Batu-Batu, do outro lado do rio, elas eram ausentes, apesar de nossas inúmeras visitas em anos diferentes.

Em Batu-Batu, descobrimos que muitos dos frutos haviam sido abertos - prova de que os orangotangos ali comiam sementes de Neesia do mesmo jeito que seus colegas em um sítio chamado Gunung Palung, na distante Bornéu -, mas de forma completamente distinta da de seus primos do outro lado do rio, em Singkil.

Batu-Batu é uma área pantanosa pequena, assim comporta um número limitado de orangotangos. Não sabemos se o uso de ferramentas nunca foi inventado ali, ou se não pôde se manter numa população menor, mas sabemos que migrantes vindos do outro lado do rio nunca poderiam tê-lo trazido, porque o Alas é tão largo que é impossível para um orangotango atravessá-lo. Onde se pode passar, a Neesia cresce ocasionalmente, mas os orangotangos ignoram-na por completo, aparentemente sem ter conhecimento dessa riqueza. Uma interpretação cultural, portanto, é a explicação mais parcimoniosa para a justaposição inesperada de hábeis usuários de ferramentas e coletores brutos vivendo praticamente lado a lado.

Proximidade Tolerante
Por que vemos essas formas sofisticadas de uso de ferramentas em Suaq e não em outros locais? Para abordar essa questão, primeiro fizemos comparações detalhadas entre os sítios nos quais os orangotangos haviam sido estudados. Descobrimos que, mesmo quando excluíamos o uso de ferramentas, Suaq tinha o maior número de inovações disseminadas pela população. Essa descoberta provavelmente não é um artefato do nosso próprio interesse em comportamentos incomuns, porque outros sítios receberam muito mais atenção de cientistas ansiosos por descobrir inovações comportamentais aprendidas socialmente.
Imaginamos que populações cujos indivíduos tinham mais oportunidades de observar uns aos outros em ação apresentariam diversidade maior em habilidades aprendidas do que populações que oferecessem menos oportunidades do gênero. E, de fato, conseguimos confirmar que sítios nos quais os indivíduos passavam mais tempo com os outros têm um repertório maior de inovações aprendidas - relação que vale também para chimpanzés . Essa ligação era mais forte para comportamentos relacionados à comida, o que faz sentido, uma vez que obter técnicas alimentares de alguém requer observações mais cuidadosas do que, digamos, captar um sinal banal de comunicação.

Quando olhamos de perto para os contrastes entre os sítios, percebemos algo mais. Bebês orangotangos em toda parte passam mais de 20 mil horas diurnas em contato próximo com a mãe, agindo como aprendizes entusiasmados. Em Suaq, no entanto, vimos também adultos passando um tempo considerável juntos enquanto procuravam comida. Diferentemente de qualquer outra população de orangotangos estudada até agora, eles até mesmo se alimentavam do mesmo item, geralmente ramos cheios de cupins, e dividiam comida - a carne de lóris, por exemplo. A proximidade e a tolerância pouco ortodoxas permitiam a adultos menos hábeis chegar perto o suficiente para observar métodos de obtenção de comida, algo que eles faziam tão avidamente como as crianças.

Aprender algumas invenções que demandam nível maior de cognição, como o uso de instrumentos, provavelmente requeira maior proximidade com indivíduos- proficientes, bem como vários ciclos de observação e prática. A implicação dessa necessidade é que mesmo que os bebês aprendam virtualmente todas as habilidades da mãe, uma população só será capaz de perpetuar inovações específicas se houver professores tolerantes, que não sejam as mães, por perto; se mamãe não é particularmente habilidosa, especialistas estarão disponíveis, e um jovem ainda poderá aprender as técnicas sofisticadas que aparentemente não vêm de forma automática. Assim, quanto mais conectada for a rede social, maior será a probabilidade de o grupo reter uma habilidade inventada, de forma que, no final, populações tolerantes mantenham um número maior desses comportamentos.

Nosso trabalho com animais selvagens mostra que o aprendizado na Natureza, mais do que simples condicionamento, pode ter um componente social, ao menos em primatas. Em comparação, a maioria dos experimentos de laboratório que investigam como os animais aprendem têm como objetivo revelar as habilidades individuais de aprendizado do sujeito. De fato, se o quebra-cabeça do psicólogo de laboratório fosse apresentado em condições naturais, onde uma miríade de estímulos compete por atenção, o sujeito poderia nunca se dar conta de que um problema aguardava solução. Na Natureza, ações dos animais mais sabidos da comunidade serve para concentrar a atenção dos mais ingênuos.
Raízes da Inteligência
Nossas análises de orangotangos sugerem que a cultura - aprendizado social de habilidades especiais - não só promove a inteligência como favorece a evolução de uma inteligência cada vez maior na população com o passar do tempo. Diferentes espécies variam muito nos mecanismos que permitem a seus indivíduos aprender uns com os outros, mas experimentos formais confirmam a forte impressão que se tem com a observação de grandes primatas na Natureza: eles são capazes de aprender ao observar o que os outros fazem.

Assim, quando um orangotango selvagem ou um grande macaco africano exibem um comportamento cognitivamente complexo, eles o adquiriram por meio da mistura de aprendizado observacional e prática individual, mais ou menos como uma criança humana refina suas próprias habilidades. E, quando um orangotango em Suaq adquiriu mais truques do que seus primos menos sortudos em outros lugares, ele o fez porque teve oportunidades maiores de aprendizado social. Em resumo, o aprendizado social pode catapultar o desempenho intelectual de um animal a um plano mais elevado.

Para apreciar a importância de estímulos sociais para a evolução de uma inteligência cada vez maior, imagine um indivíduo que cresce sem nenhum incentivo social e, ainda assim, recebe todo abrigo e comida de que necessita. A situação é equivalente àquela em que não existe nenhum contato entre as gerações ou em que os jovens se viram sozinhos depois que saem do ninho. Agora, imagine que alguma fêmea nessa espécie invente uma habilidade útil - por exemplo, como abrir uma noz. Ela se dará bem e provavelmente terá mais filhotes do que outras na população. A menos que a habilidade seja transferida para a geração seguinte, ela desaparecerá para sempre quando essa fêmea morrer.

Agora, imagine uma situação na qual os filhotes acompanham a mãe durante algum tempo antes de se virar sozinhos. A maioria aprenderá a nova técnica com a mãe e, assim, irá transferi-la para a próxima geração. Esse processo geralmente aconteceria em espécies de desenvolvimento lento e associação longa entre um dos pais e a prole, mas teria um impulso forte se vários indivíduos formarem grupos socialmente tolerantes.

Para animais desse tipo que vivem em sociedades tolerantes, a seleção natural tenderá a recompensar mais um ligeiro aprimoramento na capacidade de aprender através da observação que um aumento similar na capacidade de inovar. Isso porque, em uma sociedade assim, um indivíduo pode se apoiar nos ombros daqueles da geração presente e das passadas. Esperamos, então, ver um círculo virtuoso, no qual os animais sejam capazes de se tornar mais inovadores e desenvolver melhores técnicas de aprendizado social, atividades conhecidas como subjacentes à inteligência. Então, ser cultural predispõe uma espécie com algumas capacidades inovadoras a evoluir na direção de uma inteligência cada vez maior. O que nos traz à nova explicação para a evolução cognitiva.
Essa nova hipótese ajuda a entender um fenômeno que de outra forma seria intrigante. No século passado, muitas pessoas criaram filhotes de grandes primatas como se fossem crianças humanas. Os assim chamados macacos aculturados adquiriram um conjunto surpreendente de habilidades e imitavam sem esforço comportamentos complexos. Eles entendiam, por exemplo, o sentido de apontar algo e até mesmo alguma coisa da linguagem humana, criando desenhos e tornando-se pregadores de peças bem-humorados. Experimentos realizados por E. Sue Savage-Rumbaugh, da Universidade Estadual da Geórgia, com o bonobo Kanzi, revelaram habilidades lingüísticas impressionantes.

Embora muitas vezes desprezados por falta de rigor científico, esses casos consistentemente replicados revelam o potencial cognitivo incrível que jaz adormecido nos grandes primatas. Podemos não apreciar por inteiro a complexidade da vida na selva, mas acredito que esses macacos aculturados realmente se tornaram superqualificados. Num processo que abarca a história da evolução humana, um grande macaco criado como humano pode ser elevado a picos cognitivos mais altos do que os de qualquer um de seus colegas selvagens.

A mesma linha de pensamento resolve o velho enigma de por que muitos primatas em cativeiro usam prontamente - e às vezes até fabricam - ferramentas, quando suas contrapartes na Natureza parecem não ter essas urgências. A sugestão, freqüentemente aventada, de que eles não precisam de ferramentas, cai por terra com a observação de orangotangos, chimpanzés e macacos-prego. Algumas dessas ferramentas dão acesso à melhor comida em seu hábitats naturais ou os ajudam durante períodos de escassez. O enigma é resolvido se percebemos que dois indivíduos da mesma espécie podem diferir drasticamente no seu desempenho intelectual, dependendo do meio social no qual cresceram.

Os orangotangos são o exemplo máximo desse fenômeno. Eles são conhecidos como mestres da fuga no mundo dos zoológicos por destravar com sagacidade a porta da jaula. Mas as observações de animais na Natureza, apesar de décadas de monitoramento minucioso, revelou poucas conquistas tecnológicas fora de Suaq. Indivíduos capturados na Natureza geralmente nunca se acostumam à vida em cativeiro, mantendo sempre uma profunda timidez e desconfiança dos humanos. Mas macacos nascidos em zoológicos consideram seus tratadores modelos a seguir, prestam atenção a suas atividades e aos objetos jogados em seus cercados, aprendendo a aprender e, assim, acumulam várias habilidades.

A teoria da inteligência através da cultura prediz que os animais mais inteligentes tendem a viver também em populações nas quais o grupo inteiro adota rotineiramente inovações introduzidas por seus membros.

Mas esse prognóstico não é testado facilmente. Animais de linhagens diferentes variam tanto em suas capacidades e em seu modo de vida que uma medida única para o desempenho intelectual é difícil de encontrar.
Por enquanto, podemos nos perguntar se as linhagens que demonstram sinais inegáveis de inteligência têm cultura baseada na inovação, e vice-versa. Reconhecer-se no espelho, por exemplo, é um sinal pouco compreendido, mas inconfundível de autoconsciência, algo considerado um sinal de alta inteligência. Até agora, os únicos grupos de mamíferos que passam nesse teste são os grandes primatas e os golfinhos, os mesmos animais que são capazes de entender muitos símbolos arbitrários e que mostram as maiores evidências de que aprendem por imitação.

O uso flexível de ferramentas é baseado em inovação, outra expressão da inteligência, tem uma distribuição mais ampla entre os mamíferos: pequenos e grandes macacos, cetáceos e elefantes - todas as linhagens nas quais o aprendizado social é comum. Embora até agora somente testes muito grosseiros possam ser feitos, eles defendem a hipótese da inteligência através da cultura.

Outra predição importante é que as propensões para a inovação e para o aprendizado social devam ter coevoluído. Simon Reader, hoje na Universidade de Utrecht, Holanda, e Kevin N. Laland, hoje na Universidade St. Andrews, Escócia, descobriram que espécies de primata que demonstram mais sinais de inovação são as que revelam interesse maior no aprendizado social. Outros testes indiretos se fiam nas correlações entre o tamanho relativo do cérebro (depois de corrigir estatisticamente para o tamanho do corpo) e variáveis sociais e de desenvolvimento. As correlações bem estabelecidas entre o gregarismo e o tamanho do cérebro em grupos de mamíferos são consistentes com a idéia.

Embora a nova hipótese não seja suficiente para explicar por que nossos ancestrais, únicos entre os grandes primatas, evoluíram tal inteligência extrema, a habilidade notável dos grandes macacos de se elevar intelectual-mente em ambientes culturalmente ricos faz esse abismo parecer menos formidável. A explicação para a trajetória histórica da mudança implica vários detalhes que devem ser unidos de forma minuciosa com um registro fóssil e arqueológico esparso e confuso. Muitos pesquisadores suspeitam que uma mudança-chave foi a invasão da savana pelo Homo arcaico, portador de instrumentos. Para escavar tubérculos e descarnar e defender carcaças de mamíferos maiores, eles precisaram trabalhar coletivamente e criar estratégias e ferramentas.

Essas demandas abriram caminho para mais inovação e interdependência, e a inteligência cresceu como bola-de-neve.

Ao nos tornarmos humanos, a história cultural começou a interagir com a habilidade inata de melhorar o desempenho. Cerca de 150 mil anos depois da origem da nossa própria espécie, expressões sofisticadas do simbolismo humano, como artefatos não-funcionais finamente trabalhados (arte, instrumentos musicais e oferendas fúnebres) emergiram. A explosão da tecnologia nos últimos 10 mil anos mostra que estímulos culturais podem soltar as amarras para conquistas sem limite, tudo isso com cérebros da Idade da Pedra. A cultura, de fato, pode construir uma mente nova com um cérebro velho.
Para conhecer mais
A models for tool-use traditions in primates: implications for the coevolution of culture and cognition. C. P. van Schaik e G. R. Pradhan, em Journal of Human Evolution, vol. 44, págs. 645-664, 2003.

Orangutan cultures and the evolution of material culture. C. P. van Schaik, M. Ancrenaz, G. Borgen, B. Galdikas, C. D. Knott, I. Singleton, A. Suzuki, S. S. Utami e M. Y. Merrill, em Science,vol. 299, págs. 102-105, 2003.

Conformity to cultural norms of tool use in chimpanzees. Andrew Whiten, Vicky Horner e Frans de Waal, em Nature online, agosto de 2005.
Carel van Schaik é diretor do Instituto Antropológico e do Museu da Universidade de Zurich, na Suíça. Nascido na Holanda, ele obteve seu doutorado na Universidade de Utrecht, em 1985. Depois de um pós-doutorado na Universidade Princeton e outro curto período em Utrecht, foi para a Universidade Duke, onde lecionou antropologia biológica até retornar à Europa, em 2004. É autor de Among orangutans: red apes and the rise of human culture (Harvard University Press, 2004).
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