Reportagem
  
edição 62 - Julho 2007
Por trás da anestesia
Saber por que os anestésicos atuais são tão potentes e às vezes perigosos levará a uma nova geração de fármacos específicos e mais seguros, sem efeitos colaterais indesejáveis
por Beverley A. Orser
Jack Hollingsworth Corbis
Um filme de suspense de Hollywood, a ser lançado este ano, conta a história de um jovem que desperta enquanto está sendo submetido a uma cirurgia cardíaca a céu aberto, mas não consegue se mexer ou gritar. Infelizmente, a premissa inicial do filme não é inteiramente exagerada. Episódios de consciência intra-operatória sob anestesia geral são relatados por um ou dois pacientes em mil. Geralmente são curtos e não envolvem dor nem sofrimento, mas ressaltam um dos vários motivos pelos quais mesmo os anestésicos mais modernos podem deixar muito a desejar. De fato, o conhecimento científico sobre o funcionamento dos anestésicos, e como torná-los melhores, não acompanhou o progresso das outras áreas de desenvolvimento de fármacos.

Na verdade, muitos dos anestésicos modernos partilham propriedades estruturais e efeitos clínicos com o éter, cuja aplicação como anestésico foi demonstrada pela primeira vez em público por William Morton, dentista de Boston, em 1846. Desde então, a anestesia é usada em mais de 40 milhões de pacientes a cada ano, somente na América do Norte. No entanto, os avanços desde a época de Morton vieram basicamente do desenvolvimento de complexos sistemas de aplicação de medicamentos e das estratégias para o controle dos perigos e efeitos colaterais da anestesia.

Hoje, os anestésicos gerais são os mais potentes depressores da atividade do sistema nervoso, afetando até a regulação das funções respiratória e cardíaca. Conseqüentemente, possuem uma margem de segurança relativamente estreita: o limite entre a dose terapêutica e a dose tóxica, ou mesmo letal. É por isso também que indivíduos cuja função pulmonar ou cardiovascular já é instável – como vítimas de trauma submetidas a operações de emergência ou pacientes em meio a uma cirurgia cardíaca – precisam receber uma dose menor que a normal, o que poderia torná-los suscetíveis a breves episódios de consciência, como no filme.

Embora avanços radicais na anestesia geral tenham estabelecido os alicerces para procedimentos complicados como transplante de órgãos e cirurgia cardíaca a céu aberto, os efeitos neurodepressores desses medicamentos fazem com que eles sejam mais propensos a causar a morte durante uma operação do que o próprio procedimento cirúrgico. Já que a mortalidade relacionada à anestesia se estabilizou em um índice de aproximadamente um paciente em 13 mil nos últimos 15 anos, parece que os anestesiologistas chegaram aos limites da aplicação dessas toxinas com segurança. Além disso, efeitos colaterais graves – que vão da perda do controle das vias respiratórias a problemas cognitivos e de memória depois da anestesia geral – também podem se originar da grande influência que os anestésicos atuais exercem sobre o sistema nervoso central. A boa notícia é que pesquisas começam a proporcionar melhor compreensão dos anestésicos.
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Beverley A. Orser É professora de anestesiologia e fisiologia da University of Toronto e anestesiologista do hospital universitário, no Sunnybrook Health Sciences Center, onde também é pesquisadora-chefe em anestesia. Como clínica e pesquisadora, Orser concentra-se na melhoria da segurança dos pacientes. Com o estudo dos mecanismos moleculares de base dos anestésicos, espera promover o desenvolvimento de novos agentes e tratamentos relacionados com efeitos controlados de maneira mais sofisticada . Orser também é consultora da empresa farmacêutica Merck, onde desenvolveu o adjuvante do sono Gaboxadol.
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