Reportagem
  
edição 63 - Agosto 2007
Quando uma pessoa não é XX nem XY
Eric Vilain discute a biologia e a política para indivíduos de gênero ambíguo, argumentando que termos como “hermafrodita” e “intersexo” são vagos e prejudiciais
por Sally Lehrman
BRAD SWONETZ Redux
Eric Vilain
Aproximadamente um em 4.500 bebês possui ambigüidade genital ao nascer, como o clitóris semelhante a um pênis, ou vice-versa. Para o Perfil da Scientific American Brasil de agosto de 2007, "Além do X e doY, outros indutores”, Sally Lehrman conversou com o conceituado geneticista Eric Vilain da University of Califórnia em Los Angeles (Ucla) sobre a biologia da determinação do sexo e a identidade do gênero, e sobre a psicologia e a política pos trás de ambos.

Quando você começou a se interessar pelo estudo dos indivíduos com intersexualidade e pela biologia do desenvolvimento sexual?
Comecei como estudante de medicina, e atuei pela primeira vez na unidade de endocrinologia pediátrica em um hospital em Paris, centro de referência na França para bebês nascidos com ambigüidade genital. Na verdade, fiquei chocado pela conduta médica adotada e a ausência de evidências cientificamente comprovadas. Sou um cientista e não posso atuar profissionalmente sem contar com evidências. As pessoas achavam que tudo era senso comum – se o clitóris ficou muito para fora, é preciso consertá-lo. Se o pênis era pequeno demais, era preciso aumentá-lo. Senão, que tipo de vida essa criança teria? E eu jamais fui convencido pelo sentido comum. Eu continuava perguntando: “Mas como você sabe se é menino ou menina?”, mas não havia uma resposta boa o bastante.

Havia muitos pacientes e sempre aconteciam as mesmas discussões. E a maioria era sobre redução clitorial.

Havia uma política sexual, também?
Sim. Na época, eu estava lendo Herculine Barbin de Michel Foucault. Esse livro relata a história da menina que tem o clitóris grande demais, e começa a despertar sexualmente enquanto dorme com outras meninas, como era comum na época. Ela vai para uma instituição religiosa e um dia alguém se surpreende com a “diferença”. É um escândalo! Ela se torna uma pária e acaba cometendo suicídio. Li esse livro quando era bem jovem. Eu devia ter 18 anos de idade.

Definir a normalidade sempre foi uma obsessão para mim. Como você define o que é normal em comparação ao anormal?
Acho que é a raiz filosófica do sistema educacional francês.

Mas por que você escolheu estudar questões relacionadas ao intersexo pelo resto de sua carreira?
Minha inclinação científica foi estimulada pela questão não só porque envolvia a compreensão de uma condição rara que torna as pessoas diferentes, mas também porque há implicações científicas básicas do desenvolvimento masculino e feminino. Na biologia, é preciso analisar a exceção para compreender o geral. Sendo assim, compreender um indivíduo com intersexualidade nos leva a entender o desenvolvimento de masculinos e femininos típicos.
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