Reportagem
  
edição 63 - Agosto 2007
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Quando uma pessoa não é XX nem XY
Eric Vilain discute a biologia e a política para indivíduos de gênero ambíguo, argumentando que termos como “hermafrodita” e “intersexo” são vagos e prejudiciais
por Sally Lehrman
[continuação]

A estrutura conceitual para a determinação de sexo mudou por conta dessas descobertas?
Mudou pouco. Mesmo considerando que o ovário seja o caminho do “defeito”, não é um caminho passivo. Digo “defeito” no sentido de que há ausência do cromossomo Y. Se não há SRY, o ovário se desenvolverá [SRY é a abreviação em inglês para região sexo-determinante Y, que codifica o chamado fator determinante do testículo]. Nos últimos 10 anos, acreditou-se na essencialidade dos genes para o funcionamento do ovário. Isso mudou, e o WNT4 é uma das razões.

Qual são as contribuições mais importantes do seu grupo de pesquisa para o avanço da área da biologia do sexo?
Provavelmente são duas. Uma foi identificar os genes antimasculinos, reformulando a via feminina de passiva para ativa. A segunda foi o pioneirismo em demonstrar o envolvimento de genes na diferenciação sexual cerebral, tornado o cérebro masculino ou feminino, independentemente dos hormônios.

A diferença da expressão gênica cerebral explica algo sobre a identidade do gênero?
Sobre a identidade, não (ainda). Esses genes são expressos de maneiras distintas entre homens e mulheres ainda no início do desenvolvimento. Eles são bons candidatos a influenciarem a identidade do gênero, mas, por enquanto, apenas candidatos. .

Recentemente, em uma reunião internacional sobre condutas médicas e anormalidades genitais e gonodais, sugeriu-se a mudança da nomenclatura. Em vez de usar termos como "hermafrodita" e "intersexo”, recomendou-se o uso de "transtorno do desenvolvimento sexual”. Por que a necessidade de mudança?
Nos últimos 15 ou 16 anos houve uma explosão de conhecimentos genéticos sobre a determinação do sexo. E como poderíamos traduzir esse conhecimento genético na prática clínica? Então chegamos à conclusão que era preciso trazer uma nova abordagem para a questão.

O plano inicial sugeria uma nomenclatura sólida, mas flexível o bastante para incorporar o novo conhecimento. Então percebemos que havia outros problemas que não eram genéticos de fato, mas que a genética deveria abordar. Um dia, indivíduos “intersexo” receberão um diagnóstico com um nome genético específico. Não será uma categoria abrangente, como “hermafroditas masculinos”. Também será mais científico, individualizado e clínico.
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