Reportagem
  
edição 77 - Outubro 2008
Reflexões sobre privacidade
Muitos assuntos tratados como questões de privacidade podem ser questões de segurança, saúde, seguro ou representação pessoal. É bom esclarecer esses assuntos antes de se concentrar na própria privacidade
por Esther Dyson
MARK CLEMENS (foto-ilustração); RICHARD NOWITZ National Geographic Collection (cena de público)
TRANSPARÊNCIA CRESCENTE das fronteiras pessoais tradicionais em nossa sociedade, promovida pela internet, forçará as pessoas a enfrentar questões éticas que não existiam quando a informação era mais compartimentada. Perfis pessoais fictícios mostrados acima ilustram essa afirmação. Se essas informações de fato se aplicassem às pessoas mostradas e fossem divulgadas on-line, poderiam surgir delicadas questões éticas.
A privacidade é um teste de Rorschach público: basta pronunciar a palavra em voz alta e já está deflagrado um debate acirrado. Uma pessoa se preocupa com o abuso de poder por parte do governo; outra enrubesce pelo seu uso de drogas ou histórico sexual; uma terceira se sente ultrajada pelo fato de corporações utilizarem dados privados para direcionar seus anúncios ou de seguradoras procurarem informações médicas pessoais para negar cobertura de certos procedimentos. Algumas temem um mundo predominantemente consumista, onde dados são usados para inserir pessoas em um ou outro “segmento de mercado” – para melhor atender aos desejos mais profundos das pessoas ou explorar seus caprichos mais frívolos. Outras se irritam com a intromissão do Estado e com restrições sociais.

Esses temores costumam ser apresentados como contrapartidas: privacidade contra atendimento médico eficaz, privacidade contra conteúdo gratuito – pago por publicidade –, privacidade contra segurança. Esses debates, bastante desgastados, estão voltando à tona com enfoques diferentes daqueles em que apenas especialistas, pessoas bem informadas e defensores obstinados da privacidade estavam envolvidos.

Por um lado o desgaste da privacidade é inequívoco. A maioria das pessoas atualmente está conectada e muitos de nós, provavelmente, já nos perguntamos uma ou mais vezes “como eles sabem disso?”. O governo americano está violando a privacidade das pessoas freqüentemente e cada vez mais conduz suas operações veladamente. É difícil agir anonimamente quando alguém – particularmente o governo – está sempre se esforçando para descobrir quem você é.

Além disso, surgiram novos motivos atraentes para as pessoas revelarem informação privada. A medicina personalizada está a ponto de se tornar realidade. Informação detalhada e precisa sobre saúde e genética obtida a partir de prontuários médicos privados – tanto para tratar pessoas quanto para analisar estatísticas epidemiológicas entre populações – têm enorme potencial de ampliar o bem-estar social geral. Muitas pessoas têm prazer em compartilhar informações pessoais em sites de redes de relacionamento. De um ponto de vista mais sombrio, crescentes ameaças terroristas – em algumas partes do mundo – levaram muitas pessoas a abrir mão de informações privadas em troca de promessas ilusórias de segurança.
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MULTIMÍDIA: Veja animação com os quadros Linha do Tempo e Controlando a auto-apresentação.
Esther Dyson investe ativamente em uma série de novas empresas, incluindo a 23andMe – vende informação sobre o genoma –, PatientsLikeMe – compartilha informação médica on-line – e Boxbe – define preferências de e-mail determinadas pelo usuário. Para o projeto Genoma Pessoal, ela e outras nove pessoas divulgarão na internet suas seqüências completas de genoma e as Informações de saúde que as acompanham. Ela observa: “Recentemente estava à procura de um plano de saúde e perguntei ao meu corretor de seguros se ele gostaria de dispor de uma cópia do meu genoma, e ele educadamente recusou”. Ela é autora de Release 2.0, um livro que tratava da privacidade on-line já em 1997.
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