Reportagem
  
edição 56 - Janeiro 2007
Rios e lagos no passado marciano
Novas observações por jipes e sondas indicam que água em estado líquido cobriu grandes porções da superfície de Marte, talvez por mais de 1 bilhão de anos
por Jim Bell
RON MILLER
ÁGUA FLUI PELA superfície marciana nessa concepção artística que mostra como o Planeta Vermelho pode ter sido 2,5 bilhões a 4 bilhões de anos atrás. Depósitos de sal à beira da água aparecem durante o crepúsculo
Em fevereiro de 2005, o jipe-robô Spirit já havia passado mais de um ano dentro da cratera Gusev, em Marte, que tem 2 km de profundidade e 14 mil km2 de área (equivalente a dois terços do estado de Sergipe). Como a região do pouso fica na extremidade de um antigo vale mais extenso que o Grand Canyon, muitos de nós na equipe que comanda o jipe esperavam ver indícios de alagamentos ocorridos há bilhões de anos. Entretanto, ao percorrer a planície no interior da cratera, o Spirit não encontrou depósitos sedimentares ou outros sinais da existência de um fluxo de água no passado distante. As fotografias enviadas mostravam apenas poeira, areia e rochas vulcânicas.

Porém, tudo mudou quando o Spirit chegou às colinas Columbia, a cerca de 2,6 km do local de pouso. (Cada morro homenageia um dos sete astronautas que morreram no desastre do ônibus espacial Columbia, em 2003.) Enquanto o jipe subia com dificuldade a encosta oeste da colina Husband, suas rodas deslocavam pedras e escavavam fundas trilhas no solo marciano. Em um trecho particularmente escorregadio, apelidado Paso Robles, as rodas acidentalmente revelaram exóticos depósitos esbranquiçados diferentes de tudo que havia sido visto até então. Na verdade, o Spirit já estava longe de Paso Robles quando a equipe da missão notou isso; ao percebermos o que havíamos descoberto, fizemos com o jipe algo equivalente a pisar abruptamente no freio e dar meia-volta.

Após uma inspeção mais detalhada, determinamos que os depósitos continham sulfatos hidratados ricos em ferro e magnésio, concentrados logo abaixo da superfície. Na Terra, esse tipo de mineral é encontrado onde houve evaporação de água salgada ou contato de água corrente com fluidos vulcânicos. Qualquer um desses processos pode ter ocorrido em Marte. (Embora Gusev e Marte como um todo não contenham vulcões ativos, é certo que ocorreram erupções na história do planeta.) Independentemente de qual seja a hipótese correta, os depósitos de sulfato indicam que já houve água em abundância naquela área.
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Jim Bell é astrônomo planetário que projeta e opera instrumentos para missões robóticas e analisa seus resultados. Professor associado da Universidade Cornell, ele é membro das equipes científicas das missões Mars Pathfinder, Near, Mars Odyssey, Mars Exploration Rover, Mars Reconnaissance Orbiter e Mars Science Laboratory. Ele é o cientista-chefe da equipe que opera as câmeras coloridas Pancam a bordo dos jipes Spirit e Opportunity. Seu livro de fotografias tiradas pelos jipes, Postcards from Mars, acaba de ser publicado pela Dutton/Penguin.
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